Em 2016, o Oxford Dictionaries nomeou "pós-verdade" como a Palavra do Ano, definida como: "circunstâncias em que factos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais. "A escolha refletia um momento peculiar em que eventos como a eleição de Donald Trump e o referendo do Brexit demonstravam a ascensão de movimentos populistas, que começavam a abandonar as margens políticas para ganhar espaço no centro das decisões".
Agora, com 2025 à nossa frente, fica evidente que os acontecimentos políticos e eleitorais de 2023 e 2024 não foram meras anomalias, mas a consolidação de um extremismo que, desde 2016, vinha rompendo gradualmente o cordon sanitaire. Longe de julgar quem é de esquerda ou direita - essas escolhas pertencem à esfera democrática. A questão real surge nos extremos, onde ideologias são transformadas em ferramentas de polarização destrutiva, distorcendo o debate político, minando as instituições e colocando em risco os próprios fundamentos democráticos.
Os números e as tendências não deixam dúvidas: o período entre 2016 e 2024 marcou o enfraquecimento deliberado das barreiras que protegiam as democracias do radicalismo. O que precisamos perguntar agora não é apenas "o que aconteceu?", mas também "quem permitiu que isso acontecesse?". Ignorar os sinais nunca foi inocência; foi, muitas vezes, uma decisão consciente - e agora enfrentamos as consequências desse descuido.
Em junho de 2016, a maioria dos britânicos votou pela saída do Reino Unido da União Europeia, impulsionados por uma campanha fortemente marcada pela retórica populista e pela desinformação. Ao observar isoladamente os resultados eleitorais de 2024, com a vitória do Partido Trabalhista - que, em 2016, defendeu a permanência do país no bloco europeu -, poderia parecer que as forças políticas mais radicais no país estão em declínio. Essa interpretação, no entanto, seria errada.
A derrota humilhante dos Conservadores, que atingiram uns pífios 23% dos votos, é menos um triunfo trabalhista e mais uma lição sobre como políticas de austeridade destroem serviços públicos e arruínam governos. Somando-se a isto, está a ascensão meteórica do Reform UK, um partido de extrema-direita liderado pelo incansavelmente persistente Nigel Farage. Este conseguiu finalmente o que parecia impossível: ser eleito para o Parlamento após sete derrotas, capitalizando o descontentamento popular com uma plataforma que mistura xenofobia, negacionismo climático e uma guerra cultural contra o famigerado wokismo.
A verdade é que a vitória dos Trabalhistas tem menos a ver com um renascimento progressista e mais com a fragmentação da direita, marcada pela transferência de votos para o Reform UK, que obteve cerca de 4 milhões de votos e garantiu cinco assentos parlamentares, abrindo espaço para que a retórica política radical de direita se consolide enquanto afundava os Conservadores numa crise existencial.
Outro lugar onde o radicalismo se tem tornado mainstream é em França. Em 2017, a Front National, partido de extrema-direita fundado por Jean-Marie Le Pen - aquele que teve a audácia de chamar as câmaras de gás de “um detalhe” da Segunda Guerra Mundial, minimizando o Holocausto -, conquistou modestos 8 assentos no Parlamento. Do outro lado do espectro, o La France Insoumise, partido de extrema-esquerda que se recusa a condenar as ditaduras de Cuba e da Venezuela e insiste em opor-se ao envio de ajuda militar à Ucrânia, conseguiu 17 assentos.
Avancemos para 2024, e esses partidos extremistas deixaram de ser meros coadjuvantes para se tornarem forças dominantes no Parlamento francês, com impressionantes 125 e 71 assentos, respetivamente. Embora Marine Le Pen tenha perdido as eleições presidenciais para Macron tanto em 2017 como em 2022, o crescimento destas forças radicais não pode ser ignorado. Pelo contrário, é um dos principais fatores de instabilidade institucional em França, que recentemente viu o governo de Michel Barnier ser derrubado. Este governo foi formado após Macron, alarmado pelos resultados das eleições europeias, dissolver o Parlamento e convocar novas eleições numa tentativa desesperada de conter o avanço da extrema-direita. No entanto, essa manobra revelou apenas a abordagem egocêntrica de Macron perante a crise: embora tenha conseguido, por meio de alianças eleitorais temporárias, conter parcialmente a extrema-direita, tal foi alcançado ao custo de uma instabilidade sem precedentes. Os novos resultados não só fortaleceram os extremos como também consolidaram o cenário de polarização, deixando claro que Macron estava mais preocupado em provar que tinha razão do que em oferecer uma solução efetiva para a crise política.
Na Alemanha, a situação não é muito diferente. O Alternative für Deutschland (AfD), partido que promove a "remigração" - um eufemismo para a deportação forçada de imigrantes e refugiados -, carrega no seu histórico figuras que minimizaram o passado nazi alemão e mantiveram ligações com grupos neonazis e extremistas, como a facção Flügel, liderada por Björn Höcke, já classificada como uma ameaça pelo Departamento Federal para a Proteção da Constituição alemã.
Quando surgiu, em 2013, o AfD obteve apenas 4,7% dos votos, insuficientes para ultrapassar a barreira dos 5% necessários para ingressar no Bundestag, o Parlamento alemão. No entanto, em 2017, esse mesmo partido conquistou 94 assentos, e em 2024 avançou ainda mais, com vitórias em eleições regionais em estados do Este, como a Saxónia, Brandenburg e Turíngia, onde, pela primeira vez, foi o partido mais votado numa eleição estadual.
Hoje, o AfD não só deixou de ser uma força marginal como ensaia abertamente a sua entrada no protagonismo político. Nas eleições nacionais marcadas para 23 de fevereiro de 2025, surge, de acordo com diversas sondagens, em segundo lugar, ultrapassando o SPD, partido do atual chanceler Olaf Scholz.
Vale a pena salientar que, na Alemanha, o extremismo e a aproximação com o autoritarismo não são exclusividade da extrema-direita. Tal como em França, a extrema-esquerda também tem ampliado a sua influência de forma que levanta preocupações sobre os valores liberais. A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), fundada em janeiro de 2024, combina simpatia por ditaduras como Cuba e Venezuela com uma retórica antiglobalização e anti-imigração, inspirada em tradições marxistas e críticas ao neoliberalismo. No seu primeiro ano, o partido alcançou 6,2% dos votos nas eleições europeias, garantindo 6 dos 96 assentos alemães no Parlamento Europeu.
Nas sondagens atuais, a BSW, que combina conservadorismo nos costumes com um entusiasmo nada disfarçado pelo regime de Putin, já ultrapassou os 5% das intenções de voto, indicando que deverá estrear-se no Bundestag a partir de 2025.
Outra vítima da escalada da direita nacionalista em 2024 foi a Áustria. Nas eleições de 2017, o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) garantiu 51 dos 183 assentos no Parlamento. Em 2019, o partido foi abalado pelo escândalo de Heinz-Christian Strache, o então líder, apanhado num vídeo em Ibiza a oferecer favores políticos em troca de doações - um episódio que lhe custou 20 assentos. No entanto, o FPÖ não só sobreviveu ao escândalo como regressou com determinação. Sob a liderança de Herbert Kickl, mergulhado no radicalismo e recuperando termos como Volkskanzler, que caiu em desuso após a Segunda Guerra devido à sua associação direta ao nazismo, o partido venceu as eleições nacionais de 2024 com 29,2% dos votos - o maior percentual alguma vez alcançado pela extrema-direita na Áustria desde o fim da guerra.
Nos Países Baixos, o Partido para a Liberdade (PVV), liderado por Geert Wilders, seguiu um percurso semelhante: uma ascensão lenta, mas certeira. Em 2017, o PVV tornou-se o segundo maior partido político, com 20 dos 150 assentos no Parlamento. Apesar disso, estava longe de governar, uma vez que outros partidos fragmentaram o cenário político e mantiveram o PVV isolado. Em 2023, esse isolamento foi rompido: o partido praticamente duplicou a sua representação para 37 assentos e assumiu finalmente o poder, pondo fim a 14 anos de governo centrista liderado por Mark Rutte. Agora, ironicamente, Rutte tenta defender os valores ocidentais como Secretário-Geral da NATO, enquanto Wilders transforma os Países Baixos num laboratório de experimentos nacionalistas.
Exemplos da ascensão de partidos e líderes radicais não faltam. Em Portugal, o Chega estreou no Parlamento em 2019 com um único assento, mas em 2024 ampliou a sua influência para 40 cadeiras na Assembleia da República, demonstrando que o populismo reacionário encontrou terreno fértil até mesmo no coração da Europa Ocidental. Do outro lado do Atlântico, na Argentina, Javier Milei tomou posse em dezembro de 2023, após obter 55% dos votos, tornando-se o primeiro presidente autodeclarado anarcocapitalista.
Ainda assim, o maior troféu da ascensão do extremismo nos últimos anos foi, sem dúvida, a reeleição de Donald Trump, o “mestre da vitória” em explorar falhas democráticas e transformar caos em capital político. Em 2016, Trump chegou à presidência mesmo perdendo no voto popular — Hillary Clinton teve mais 3 milhões de votos. Já em 2024, o espetáculo foi ainda mais “the best, believe me”: apesar de destruir políticas ambientais, alimentar teorias da conspiração durante a pandemia, minar a confiança no sistema eleitoral, incitar a invasão do Capitólio a 6 de janeiro e acumular processos e acusações criminais, Trump não só regressou ao poder, mas fê-lo com o respaldo direto das urnas, superando a candidata democrata por mais de 2 milhões de votos.
Tudo isto demonstra que os sinais dados há cerca de 10 anos foram completamente ignorados e que aqueles que dizem defender a democracia fracassaram - um fracasso que simplesmente não tinham o direito de cometer. Quando a única alternativa era conter o avanço dos extremistas, a sua incapacidade de agir, de ouvir as exigências populares ou a sua relutância em passar o bastão permitiram que sinais tenebrosos se transformassem em realidade.
Por que me refiro a “aqueles que defendem a democracia”? Porque um dos estudos que gosto de citar nas minhas análises, conduzido por Yascha Mounk e Jordan Kyle, analisou 46 partidos e líderes populistas em 33 países entre 1990 e 2018. E o que revelou? Algo assustador, mas evidente para quem acompanha movimentos autoritários: esses líderes e movimentos são mestres em agarrar-se ao poder, permanecendo no governo, em média, o dobro do tempo dos líderes e partidos não populistas e apresentando quatro vezes mais probabilidades de desmantelar instituições democráticas.
Os partidos e líderes que, na última década, saíram das margens para ocupar posições centrais seguem exatamente o mesmo manual: concentração de poder a qualquer custo, não importa quem ou o que precise ser esmagado pelo caminho. Exemplos não faltam, com a Hungria liderando o clube autoritário sob o comando de Viktor Orbán, o principal exportador deste modelo na Europa. Orbán não só consolidou o poder dentro das suas fronteiras, como também se tem empenhado em fortalecer alianças com outros líderes populistas, promovendo uma rede transnacional de autoritarismo que ameaça os valores democráticos em toda a região.
Orbán, pró-Rússia semideclarado, atua frequentemente contra os valores ocidentais que a União Europeia tenta sustentar. Durante meses, bloqueou ajuda à Ucrânia, enquanto alinhava a sua narrativa com os interesses de Moscovo, deixando claro que a sua prioridade não é a segurança europeia, mas sim a perpetuação da sua própria agenda autoritária.
E qual é o truque usado para justificar tudo isso? Há sempre um inimigo a ser combatido. A Hungria, como outros exemplos de regimes populistas, criou bodes expiatórios perfeitos, frequentemente direcionando a sua retórica contra imigrantes ou minorias, apresentando-os como ameaças existenciais. Tanto é que outros aliados de Orbán pela Europa, muitos deles mencionados ao longo do texto, também adoptam os mesmos argumentos: um inimigo externo ou interno fabricado para justificar a concentração de poder e a erosão das instituições democráticas. A população, então, é levada a acreditar que apenas essas figuras extremistas podem protegê-la, enquanto o verdadeiro objetivo é a centralização total do poder.
Tudo isto ocorre enquanto esses grupos extremistas promovem uma sobrecarga de informações e desinformações, criando uma confusão deliberada que sufoca qualquer possibilidade de reflexão crítica. Se, em 2016, a palavra do ano foi “pós-verdade”, em 2024, o Oxford Dictionaries acertadamente escolheu como palavra do ano o termo brain rot.
O termo, que em português pode ser livremente traduzido como “mente atrofiada”, refere-se ao impacto do uso excessivo de tecnologia e do consumo desenfreado de conteúdos mediáticos na saúde mental e no funcionamento cognitivo. Descreve o hábito de passar horas em redes sociais, aplicações de entretenimento ou jogos, consumindo conteúdos que exigem pouco ou nenhum esforço intelectual. O resultado? Uma sensação de entorpecimento mental.
Além disso, o excesso de informações, especialmente aquelas sensacionalistas ou projetadas para cliques rápidos e sem análise profunda, alimenta esta degradação mental coletiva. Isto não é por acaso: esta degradação cognitiva em massa é a ferramenta perfeita para lideranças populistas consolidarem o poder. Mantêm a população desorientada, incapaz de pensar criticamente, presa num estado de paranoia generalizada e controlada, onde a manipulação não só se torna possível, mas extremamente eficaz.
O ano de 2024 não trouxe surpresas, mas sim a confirmação do óbvio: a consagração de um modelo autoritário que, há anos, vinha testando os limites das democracias. Os indícios estavam à vista de todos, mas muitos preferiram ignorá-los - seja por conveniência, desconhecimento ou pela crença arrogante de que as instituições seriam sempre capazes de resistir. Agora, ao olharmos para 2025, com eleições programadas em países como a República Checa, Alemanha, Moldávia, Polónia e Roménia, o cenário está mais claro do que nunca: forças que veem no autoritarismo o modelo ideal não só ganharam espaço, como têm reais possibilidades de triunfar, alimentadas por um eleitorado exausto de promessas incumpridas e atraído por discursos inflamados.
Já não se trata de compreender como chegámos a este ponto - isso foi amplamente debatido. A questão central é quem ainda ousará aparentar espanto quando os extremos consolidarem o seu avanço e 2025 se tornar mais um marco no lento processo de desmantelamento das democracias. A ingenuidade deixou de ser uma desculpa válida: estamos perante a execução de uma estratégia fria e calculada, onde o autoritarismo se disfarça de legitimidade eleitoral enquanto corrói os alicerces da liberdade e do pluralismo. O descaso de ontem transforma-se na conivência de amanhã, e, se há uma lição clara de 2024, é que ignorar os sinais deixou de ser uma falha esporádica para se converter num padrão profundamente perigoso.
