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Tem uma urgência médica em Portimão? Mais vale ir à Covilhã e voltar

13 jan 2025, 10:39

Situação nas urgências hospitalares continua crítica, sobretudo em Lisboa e no Algarve. FNAM diz que é espelho da falta de investimento

O título deste artigo contém ironia. Mas não deixa de ser verdade. Às 09:00 desta segunda-feira, o tempo médio de espera na urgência do Hospital de Portimão era de 15 horas e 8 minutos (mas chegou a ser de 17 horas logo no início da manhã) e no Hospital Amadora-Sintra passava as 9 horas. Em ambas as situações, dava mais do que tempo (e até sobrava) para ir à urgência do hospital da Covilhã, esperar 28 minutos para ser atendido, e regressar a casa. 

“Começamos a ficar cansados de dizer a mesma coisa, mas isto só demonstra a falta de recursos humanos que há, são completamente insuficientes, sobretudo [no que toca a] médicos, o que falta é a parte médica para dar resposta a todas as situações e casos que recorrem à urgência e que precisam de avaliação clínica”, começa por dizer Joana Bordalo e Sá, presidente da Federação Nacional de Médicos (FNAM), que lamenta que o cenário se repita “todos os invernos”, atirando ainda: “E fala-se muito em férias, mas [nós médicos] não estamos numa altura de férias”.

Em declarações à CNN Portugal, o bastonário da Ordem dos Médicos Carlos Cortes reconhece que era “expectável” um aumento da afluência às urgências à boleia da época gripal, mas fala em “banalização” e “aceitação” dos elevados tempos de espera nos hospitais portugueses, defendendo que tal é “absolutamente inadmissível”. “Há 10 ou 20 anos, quando uma urgência fechava era notícia de abertura de todos os telejornais e das primeiras páginas dos jornais, hoje em dia tempos de espera de 20 horas parece ser uma situação quase normal tendo em conta a sua frequência. E não podemos aceitar uma coisa destas”, vinca Carlos Cortes.

Tal como os sindicatos médicos, o bastonário apela a um maior investimento nos cuidados de saúde primários com a contratação de mais médicos de Medicina Geral e Familiar, uma vez que a falta de médicos de família continua a ser um dos calcanhares de aquiles do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Entre janeiro e dezembro de 2024, o número de pessoas sem médico de família continuava a estar acima dos 1,5 milhões de utentes no final do ano, segundo o portal da transparência do SNS.

“Em Lisboa e Vale do Tejo, no Alentejo e no Algarve há muita, muita falta de médicos de família. Há casos de doença aguda [em] que [o utente], não tendo médico de família, não tem onde recorrer que não seja a um servo de urgência”, diz a médica Joana Bordalo e Sá.

Ainda no que toca à carência de médicos de família, Joana Bordalo e Sá aponta “outro problema também grave”, acusando o Ministério da Saúde de não ter aberto “sequer o número vagas necessárias para contratar médicos nas unidades locais de saúde, seja para hospitais ou centros de saúde”. E dá o exemplo da ULS Almada-Seixal, “que tem cerca de 40 mil utentes sem médico de família, mas [o Ministério da Saúde] só garantiu [a abertura de] uma vaga”, quando o pedido tinha sido 15. “Mesmo que as vagas não sejam ocupadas, têm de abrir, tem de estar disponíveis”, vinca a médica, aproveitando para dizer que as vagas ficam por preencher pela falta de “atratividade”. “Que mensagem o Ministério da Saúde passa à população? A que não estamos aqui para investir no SNS”, acusa.

Para fazer frente aos constrangimentos nas urgências que se têm repetido ano após ano, sobretudo no inverno, o Governo adotou um modelo de pré-triagem através da linha SNS 24, que a ministra da Saúde diz que ainda vai ser avaliado, mas que representa já redução de 30% da afluência às urgências

Em entrevista ao Jornal de Negócios e à Antena 1, Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, defende que se deve “caminhar no sentido de uma urgência referenciada”, mas admite que os resultados do modelo implementado “são muito parcos” e que mostram apenas uma “pequena redução” da afluência. Os primeiros dados dão conta de que quase metade das pessoas que ligaram para a linha SNS 24 acabaram mesmo por ser direcionadas para as urgências dos hospitais, segundo o Diário de Notícias

Este modelo de pré-triagem implementado pelo Governo tem sido alvo de críticas por parte do Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos (MUSP), que diz que esta medida desumaniza o serviço e não resolve o problema das esperas, acabando por “atrasar ainda mais as intervenções médicas, mesmo nos casos mais urgentes, já que nos hospitais, os utentes, apesar da triagem, continuam sujeitos a longas horas de espera”.

Também a FNAM é crítica a este modelo, dizendo que “estas linhas telefónicas não reduziram as falsas urgências em nada” e que estas mesmas linhas “estão saturadas”. “O que acontece é inaceitável, depois tentam resolver com chamadas digitais”, atira. “Não é com linhas telefónicas que isto se revolve, a maior parte das situações mais ou menos graves carecem de observação clínica. Mas a senhora ministra só tem listas telefónicas para apresentar”, critica Joana Bordalo e Sá.

Constrangimentos de norte a sul

Fazer um plano geral do tempo médio de espera nas urgências hospitalares públicas para casos de pulseira amarela é uma tarefa hercúlea e nem sempre de análise correta, uma vez que nem todas as unidades hospitalares partilham publicamente essa informação no site Tempos do Serviço Nacional de Saúde, podendo, por isso, haver casos mais críticos que não são conhecidos. De qualquer modo, olhando para a informação disponível - que foi consultada às 09:00 desta segunda-feira - é possível perceber que os constrangimentos são sentidos, sobretudo, na região de Lisboa e Vale do Tejo e no Algarve. As regras ditam que os utentes considerados urgentes (pulseira amarela) devam ser atendidos em 60 minutos e os muito urgentes (pulseira laranja) em 10 minutos, mas são muitas as situações em que o tempo de espera ultrapassa largamente o recomendado.

O Hospital de Portimão é o que apresenta o tempo de espera para pulseiras amarelas mais elevado: 15 horas e 20 minutos, mesmo estando apenas nove pessoas a aguardar. Já para quem vai à urgência e é triado com pulseira verde, menos urgente, o tempo de espera é de 20 horas e 41 minutos. O Hospital de Faro não partilha essa informação.

Em Lisboa, o Santa Maria apresenta um tempo de espera de 2 horas e 14 minutos, com cinco pessoas a aguardar. Este hospital, que no primeiro fim de semana do ano chegou a ter um tempo médio de espera de 17 horas, nega que haja falta de médicos, mas aumentou o número de camas para internamento

No Amadora-Sintra (Hospital Fernando Fonseca) tem um tempo de espera de 9 horas e 44 minutos para pulseiras amarelas, estando 11 pessoas à espera. O mesmo tempo de espera foi registado na passada quinta-feira

No Hospital Vila Franca de Xira, o tempo médio de espera para casos urgentes é de 4 horas e 46 minutos, estando 12 pessoas nessa situação. Já no Hospital São Francisco Xavier o tempo médio de espera é de 11 minutos e há quatro pessoas com pulseira amarela. Em Cascais, são 36 minutos de espera para três pessoas. 

O Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, e dos que tem apresentado mais constrangimentos, não tem de momento disponíveis os tempos de espera, mas a situação nesta unidade continua crítica devido à elevada afluência. Este fim de semana, por exemplo, a capacidade de macas ficou esgotada e foi necessário usar temporariamente as macas das ambulâncias, “durante períodos de tempo superiores ao desejado”, como se lê no comunicado enviado às redações pela Unidade Local de Saúde de Loures-Odivelas (ULS).

“[As urgências] No Beatriz Ângelo estão muito entregues a prestadores de serviço. À noite, os médicos internos, em formação e que deviam fazer uma medicina tutelada, estão sozinhos e sem um médico nos quadros, o que é de alta insegurança”, acusa Joana Bordalo e Sá, instando os colegas que trabalham nestas condições e com carência de recursos materiais “a apresentarem escusas de responsabilidade”, defendendo que “não podem ser responsabilizados por tempos de espera deste nível, se algum doente descompensar com estes tempos”.

Em Évora, a informação que consta no site Tempos dá um tempo médio de espera de 3 horas e 3 minutos, mas sem qualquer pessoa com pulseira amarela neste hospital. No Hospital Garcia de Orta, as sete pessoas com pulseira amarela têm um tempo de espera médio de 2 horas e 27 minutos. Já no Hospital São Bernardo, em Setúbal, as oito pessoas com pulseira amarela podem ter de esperar 1 hora e 5 minutos.

Com tempos de espera inferiores temos os hospitais mais a norte. No Hospital de Braga há três pessoas com pulseira amarela e um tempo de espera que ronda os 28 minutos apenas. Em Guimarães, o tempo médio de espera para estes casos de urgência é de 2 horas e 48 minutos, estando quatro pessoas a aguardar.

Já no Hospital de Santo António, no Porto, há três pessoas com pulseira amarela e um tempo de espera de 42 minutos. Ainda no Porto, no São João há apenas mais uma pessoa com pulseira amarela nas urgências gerais (quatro) e o tempo de espera é de 1 hora e 32 minutos. Quem está numa urgência no Hospital Padre Américo, em Penafiel, e tem pulseira amarela, espera 1 hora e 15 minutos (e estão duas pessoas nessa situação).

Nos Hospitais da Universidade de Coimbra, quem tem pulseira amarela (duas pessoas) espera 1 hora e 59 minutos. No Hospital Pêro da Covilhã, o tempo de espera para casos urgentes é de 23 minutos, estando duas pessoas a aguardar atendimento.

No Hospital da Guarda, o tempo médio de espera para pulseiras amarelas é de 1 hora e 36 minutos (havendo três pessoas a aguardar). Em Leira, o tempo médio de espera no Hospital Santo André é de 1 hora e 54 minutos, estando dez pessoas na sala de espera.

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