Obstetrícia na Península de Setúbal: em ano e meio urgências estiveram encerradas o equivalente a quase um ano

17 dez 2025, 07:00
Ginecologista/obstetra a fazer ecografia

Relatório da IGAS revela que entre 2024 e julho de 2025 os hospitais tiveram os serviços de urgência mais de metade do tempo fechados para as grávidas que ali chegavam. O do Barreiro encerrou 324 dias, o Garcia de Orta 296 e o de Setúbal teve as portas fechadas ao público em 371 dias.

As três urgências de obstetrícia da península de Setúbal estiveram encerradas, entre elas, o equivalente a quase um ano, entre janeiro de 2024 e junho de 2025. Ao longo destes 547,5 dias, o serviço do Hospital Garcia de Orta, em Almada, esteve fechado em 296,5; o do Barreiro em 324 e o de Setúbal em 371.

Os dados constam de um relatório da Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) que esteve a avaliar a capacidade das urgências de obstetrícia na Península de Setúbal, onde a ministra da Saúde, Ana Paula Martins prometeu avançar já em janeiro de 2026 com a concentração de serviços e criação de uma urgência regional, exatamente por serem cada vez mais os casos de grávidas da Margem Sul que têm de percorrer muitos quilómetros para conseguirem receber assistência médica. 

Segundo o documento, o principal problema é a falta de especialistas em obstetrícia nos três estabelecimentos de saúde: o Garcia de Orta está dependente dos internos para conseguir ter escalas, no Hospital de Setúbal dos 11 especialistas que ali trabalham só três têm menos de 50 anos e, por isso, fazem todo o tipo de urgências e no Hospital do Barreiro dos 9 que fazem urgências há 4 que têm mais de 59 anos e que realizam “bancos” sem qualquer obrigação.

A lei estipula que a partir dos 50 anos os médicos estão livres de fazer bancos noturnos e após os 55 podem não fazer quer de noite quer de dia.      

Este relatório foi feito depois de se sucederem os casos de grávidas sem resposta na Península de Setúbal e mostra que a situação piorou de 2024 para 2025.

Comparando os primeiros seis meses de cada um destes anos, verificou-se que o Garcia de Orta passou de 62 dias de fecho para 89,5; em Setúbal, o aumento foi de 102 para 148 dias e, no Barreiro, de 98 subiu para 112 o número de dias sem funcionar. 

De resto, os números de dias em que as urgências de obstetrícia estiveram fechadas ao público, isto é, às grávidas que ali se deslocavam, são reveladores do problema: em 2004, o Garcia de Orta fechou 207 dias, Setúbal 223 e Barreiro 212.

Já nos primeiros seis meses de 2025, o Garcia de Orta encerrou 89,5 dias, Barreiro 112 e Setúbal 148. Este último hospital, muitos destes dias, estava a funcionar só para encaminhamento de grávidas pelo CODU, mas sem a porta aberta.  

Os três hospitais têm um modelo de rotatividade de funcionamento das urgências de Obstetrícia, mas muitas vezes nem uma delas consegue abrir por não ter o número de profissionais exigidos pela Ordem dos Médicos. Ou seja, em alguns dos dias, os encerramentos dos hospitais foram coincidentes, o que levou a que, naquela zona do país, não houvesse qualquer urgência de obstetrícia a funcionar. O alerta parte da IGAS que avaliou de forma detalhada um período de tempo entre 13 de abril e 4 de maio de 2025 - apanhando os feriados de 25 de abril e 1 de maio.

E nessa análise detetou que em três dos 22 dias analisados toda a região ficou sem qualquer urgência de obstetrícia e ginecologia. Isto porque a 20, 25 e 26 de abril nenhum hospital abriu o respetivo serviço de urgência.

A IGAS fez três relatórios diferentes para cada uma das Unidades Locais de Saúde, mas o cenário que encontrou foi idêntico em todas: uma elevada falta de médicos especialistas em obstetrícia, o que se traduziu a fechos contínuos de urgências e dependência de tarefeiros.

Nestes 22 dias, a urgência de obstetrícia de Garcia de Orta esteve encerrada 14 dias e as do Barreiro  e de Setúbal fecharam em 17 dias cada uma. No entanto, segundo refere o documento, o Hospital de Setúbal esteve em 15 dias com a possibilidade de receber grávidas encaminhadas pelo CODU. Mas, aberta ao público e durante 24 horas, todas  as urgências estiveram fechadas mais de metade dos dias analisados.

"Vazio geracional preocupante"

A falta de médicos, assim como a idade dos que trabalham nestes hospitais, são apontadas como as causas de um grave problema.

No Hospital de Setúbal (que integra a Unidade Local de Saúde da Arrábida) há 11 médicos e cinco internos, mas, dos especialistas, quatro têm entre 50 e 60 anos e outros quatro mais de 60. Uma situação que leva a IGAS a alertar para o “vazio geracional preocupante”.  E são precisamente alguns destes médicos com mais de 50 anos que têm garantido a abertura de portas das urgências, pois quatro deles (com 59, 61, 63 e 65 anos) aceitam fazer bancos de urgência mesmo podendo recusar por lei. É com eles que o hospital conta com nove médicos para as escalas.  

Foi esta carência de obstetras que levou a que no período entre 13 de abril e 4 de maio só em dois dias a urgências estivesse a funcionar em pleno.  Durante 15 dias também só recebeu utentes encaminhadas pelo CODU, mas não podia atender as grávidas que ali fossem pelo seu pé.  Foi precisamente o que sucedeu na grande maioria dos dias do primeiro semestre desta ano em que esteve com as portas fechadas: em 117 seria possível encaminhar pelo CODU, caso houvesse disponibilidade.

No meio de todo o caos, os inspetores deixam um elogio à forma como no Hospital de Setúbal se planeou os dias de férias de alguns médicos naquele período que incluiu o 25 de abril e 1 de maio deste ano. Diz a IGAS que apesar de haver dias em que um terço dos médicos estavam a gozar férias, tal não comprometeu a assistência médica por ter havido sempre um planeamento e facilidade de ajustes de turnos entre profissionais.

Seriam precisos 21 médicos para assegurar escalas

No Hospital do Barreiro (que integra a Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho) o relatório também sublinha o "risco" que existe neste momento: dos 11 obstetras, três têm mais de 63 anos. E só sete fazem urgências, pois há quatro excluídos, devido a uma licença de maternidade, uma licença sem vencimento e duas situações de redução de horário por causa dos filhos.

Por isso, nota a IGAS, a insuficiência significativa de profissionais obriga a um recurso constante de tarefeiros. Segundo o documento, seriam precisos 21 médicos para assegurar as escalas e a abertura da urgência cumprindo os números impostos pela Ordem dos Médicos.

O mesmo se tem vivido no Garcia de Orta (que integra a Unidade Local de Saúde de Almada-Seixal), onde ficará a nova urgência regional a criar pelo Governo. Segundo a IGAS, as escalas estão totalmente dependentes de internos, médicos em formação. Aliás, no período analisado, quatro especialistas rescindiram com o hospital.

Mas além da falta de profissionais, no Garcia de Orta a IGAS detetou, entre 13 de abril e 4 de maio, uma situação mais crítica em relação à organização e planeamento. Não só não havia direção clínica, como as escalas, turnos e férias não estavam devidamente organizadas -  o que levou a que 50% dos médicos estivessem de férias na Páscoa, quando o país assistiu a grávidas a não terem serviços de urgência abertos na Península de Setúbal.

Os hospitais já tiveram, entretanto, conhecimento do resultados da análise da IGAS. 

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