Confundir ocorrência, recurso e reserva não é prudência técnica. É apenas uma forma elegante de falar sem medir
Há frases que circulam em Portugal com a serenidade preguiçosa dos dogmas herdados. Fórmulas repetidas tantas vezes que acabam por adquirir a aparência de verdade elementar, como se a simples repetição lhes desse espessura técnica. Uma delas é esta: Portugal tem muito, as maiores, ou então, na versão inversa, Portugal tem poucas, ou nenhumas, reservas de isto ou daquilo.
Raramente, quase nunca, essa frase vem acompanhada de definição, de contexto, de método, ou sequer de uma noção mínima do que está realmente a ser dito. Surge como um reflexo condicionado, como se fosse um facto tão autoevidente que dispensasse o incómodo do trabalho e a disciplina da explicação.
O problema é que, tecnicamente, a frase está mal formulada.
O que Portugal tem de forma reconhecida e reportada não é a mesma coisa que o que Portugal tem em termos geológicos. E quando se confunde ocorrência com recurso, e recurso com reserva, a discussão deixa de ser séria e transforma-se em retórica com verniz institucional. Umas vezes rosa, outras laranja, e cada vez mais frequentemente de um verde esbatido por uma ideologia que gosta muito da palavra ciência, desde que não seja preciso suportar o peso do raciocínio científico.
Ocorrência, recurso e reserva não são a mesma coisa
Uma ocorrência é precisamente isso: uma ocorrência. Um local onde se reconheceu mineralização, uma manifestação, um indício, um corpo com interesse geológico. Não é, por si só, uma tonelagem quantificada, muito menos um inventário económico.
Um recurso já exige outra coisa, outra disciplina, outra densidade de conhecimento. Exige continuidade, geometria, teor, enquadramento geológico, confiança suficiente na informação e uma base mínima para pensar em extração eventual.
E uma reserva é mais exigente ainda. Já não basta saber que a mineralização existe e que pode ter interesse. É preciso demonstrar que a parte em causa é passível de extração económica, depois de passar pelo crivo da engenharia, da metalurgia, dos custos, do ambiente, do enquadramento legal, das condicionantes operacionais e da licença social para operar.
Quem usa estas palavras como se fossem sinónimos ou não percebe do que fala, ou percebe perfeitamente e acha útil que o público não perceba.
Onde a discussão portuguesa se desvia logo no início
É aqui que a discussão portuguesa começa torta, não no fim, logo no princípio.
Quando alguém diz que Portugal tem, por exemplo, poucas reservas de urânio, pode até estar, num sentido estrito e burocraticamente confortável, a repetir um número formalmente correto. O salto abusivo vem a seguir, quando esse número é transformado numa sentença geológica sobre o país inteiro, como se uma categoria contabilística fechasse a discussão sobre uma realidade natural que nunca foi estudada de forma homogénea.
Reservas pequenas não significam, por definição e só por si, um país pobre em urânio. Significam, antes de mais, que o país levou poucas ocorrências até ao nível de estudo necessário para as converter sequer em recursos, quanto mais em reservas.
Isto é o facto mais básico da mineração, a pedra de toque de todo o conceito de recurso mineral, e no entanto continua a ser tratado no espaço público como se fosse um detalhe dispensável.
O caso português é quase didático
O caso do urânio português é quase didático. Tão didático que chega a ser desconfortável.
Portugal produziu urânio durante décadas, identificou muito mais locais com mineralização do que aqueles que alguma vez chegaram a produzir, desenvolveu campanhas sérias de prospeção, abriu frentes, perfurou, cartografou, mediu radiometricamente e estudou províncias inteiras.
E, ainda assim, nunca fez, de forma nacional, consistente e prolongada, a passagem da carta de ocorrências para um inventário moderno de recursos qualificados e, a partir daí, para reservas.
O que temos hoje é um retrato enviesado por uma amostra histórica. Os distritos que foram sendo abertos, trabalhados, tratados e industrializados herdaram conhecimento, infraestrutura e prioridade. O resto, que em geologia costuma ser a parte mais incómoda e mais cara, ficou largamente pelo caminho.
Dito de outra forma: o que está publicado sobre o urânio português reflete sobretudo os sítios onde a história se deu ao trabalho de aprofundar, e não uma avaliação uniforme de todo o universo de ocorrências conhecidas.
Isto é, em termos metodológicos, um problema clássico de enviesamento amostral. A amostra observada não é um retrato neutro da população geológica. É um subconjunto condicionado pela história produtiva, pela infraestrutura disponível, pelos ciclos de preço, pelas prioridades políticas de cada época e também, convenhamos, pelo apetite que cada geração teve para olhar para o subsolo sem primeiro pedir licença ao preconceito.
Quem pega nessa amostra enviesada e a apresenta como se fosse o país inteiro está, no mínimo, a cometer um erro de método. E esse erro, quando é repetido com ar grave e a gravitas de quem governa, não se torna mais respeitável. Torna-se apenas mais nocivo.
A resposta honesta é mais desconfortável
É por isso que a resposta honesta à pergunta “quanto urânio há em Portugal?” não é simplesmente um número decalcado de trabalhos técnicos, repetido com solenidade doutoral por quem raramente distingue recurso de reserva, mas gosta de soar como se os distinguisse desde o berço.
A resposta honesta é bastante mais desconfortável: não sabemos.
Pura e simplesmente, não sabemos.
Não sabemos com o grau de rigor que seria necessário para sustentar uma conclusão fechada. Não sabemos com a densidade de informação que permitiria separar, com segurança, o que é manifestação, o que é recurso, o que é reserva e o que é mera hipótese promissora.
E não sabemos porque nunca fizemos esse trabalho até ao fim e porque, na maior parte das ocorrências conhecidas, mal o começámos.
Portugal não provou que tem pouco. Portugal, acima de tudo, deixou por fazer o programa que permitiria saber quanto tem de facto em termos economicamente caracterizáveis.
O problema já não é geológico. É intelectual.
Quem se sente ofendido por esta formulação tem normalmente um de dois problemas. Ou confunde linguagem técnica com slogan político, ou prefere que a linguagem técnica permaneça suficientemente enevoada para que o slogan político continue a parecer razoável.
Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: um debate nacional construído sobre categorias mal usadas, sobre palavras repetidas fora do seu domínio de validade, sobre uma aparência de rigor que desaparece ao primeiro contacto com a definição certa.
E talvez não haja nada mais triste, nem mais tipicamente português, do que um país que quer parecer racional sem se dar ao incómodo de pensar tecnicamente até ao fim.
O mais irónico, e talvez o mais revelador, é que este mal-entendido não diminui apenas o urânio e as opções estratégicas portuguesas. Diminui a própria seriedade com que Portugal pensa os seus recursos endógenos, minerais ou de outra natureza.
Um país que não compreende a diferença entre encontrar, estudar, quantificar e converter não está apenas a falhar um debate sobre energia nuclear. Está a confessar uma relação imatura com a geologia económica, seja ela sobre as províncias uraníferas, sobre o lítio, sobre os hidrocarbonetos ou sobre qualquer outro recurso que exija mais do que slogans de ocasião.
E quando essa imaturidade se apresenta como prudência, ou pior ainda, como virtude moral, convém puxar-lhe o tapete. Porque prudência sem método é apenas ignorância bem penteada.
A pergunta que devia abrir o debate
O debate, portanto, não devia começar com a frase “Portugal tem pouco urânio”.
Devia começar com uma pergunta bastante mais incómoda, e por isso mesmo bastante mais útil: quanto do urânio que sabemos que existe foi realmente estudado ao ponto de poder ser reportado com as categorias modernas que todos invocam com tanta facilidade?
É aí que a discussão se torna séria. E é também aí que se torna politicamente inconveniente.
Porque essa pergunta obriga a admitir aquilo que muitos preferem contornar: que a escassez oficialmente repetida é, em larga medida, uma escassez de qualificação, de continuidade de trabalho e de vontade de medir.
E quando um país confunde a falta de medição com a prova de ausência, o problema já não está no minério.
Está na inteligência com que escolhe não o procurar.