"Tenho colegas que trabalham o dia todo e nem às aulas conseguem ir". Há cada vez mais estudantes a sofrer de ansiedade por não conseguir pagar alojamento em Lisboa

25 mar 2025, 13:10

Ano académico já vai a meio, mas muitos estudantes deslocados não tiveram a sorte de conseguir casa

Há cada vez mais estudantes universitários a sofrerem de ansiedade e depressão. A Associação Académica de Lisboa lançou o alerta e garante que esta situação se deve sobretudo à angústia provocada pela dificuldade em conseguirem alojamento e dinheiro para pagarem as despesas de estarem deslocados.

O ano académico já vai a meio, mas muitos estudantes deslocados não tiveram a sorte de encontrar um alojamento que possam pagar.

É o caso de António, que soube o que isso era quando veio dos Açores em 2022 para estudar Direito em Lisboa.

“Eu fiquei o primeiro semestre todo a contar os trocos, sem saber se ia ter bolsa ou outros tipos de apoios", conta à TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), lembrando que "no primeiro ano o passe ainda era pago" e que "gastava mais de 500 euros por mês".

Atualmente faz parte dos 20% que consegue partilhar quarto numa residência pública e é bolseiro, mas conhece vários relatos de sobrevivência que fazem as estatísticas de um estudo da Associação Académica de Lisboa, segundo o qual 58% dos bolseiros considera que o valor não cobre de forma eficaz as despesas mensais.

"Temos relatos de estudantes a pagarem 700 e 880 euros de renda sem contrato", revela o presidente da Associação, Diogo Ferreira Leite.

A falta de dinheiro é um fator que também contribui para a ansiedade, que 43% destes jovens assume sentir sempre.

Maria trata a ansiedade por tu desde os 13 anos. “A nossa geração tem menos ferramentas a nível da frustração. Nós temos uma grande dificuldade, porque não aprendemos lidar com a frustração", conta.

A estudante de serviço social conhece o "cheque psicólogo", mas não pode aceder à medida estatal por ter uma patologia que excede o número de sessões previstas.

De resto, a larga maioria dos estudantes nem sequer aderiu por desconhecimento da medida, ou mesmo que aderisse não seria difícil ter acompanhamento por falta de reforço dos profissionais de saúde, como nos explicou o presidente da Associação, Diogo Ferreira Leite.

Mesmo sendo bolseira e a viver em casa dos pais, trabalhar a meio tempo foi a única alternativa para Maria.

“Tenho colegas que trabalham o dia todo e nem às aulas conseguem ir", conta.

De acordo com os dados, 41,5% dos bolseiros só recebem resposta em outubro, 19,5% em novembro e vários após essa data.

Simão veio de Leiria para o curso de planeamento e gestão do território e para ter uma oportunidade, fez um empréstimo com a ajuda dos pais e que está a pagar. Por isso tem de trabalhar, apesar de já ter bolsa e quarto na mesma residência de António.

“As pessoas mesmo que entrem se não arranjarem casa nem sequer vêm para cá. Sinto que todo o processo de entrada no Ensino Superior começa e acontece todo muito tarde", lamenta.

Uma realidade que custa a digerir, a partir da qual espreitam o futuro muitos destes estudantes.

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