Córnea feita com colagénio de porco devolveu a visão a pessoas cegas. Este pode ser o caminho para uma cura

CNN Portugal , DCT
12 ago, 22:40
Pessoa a fazer um exame de visão (BSIP/Universal Images Group via Getty Images)

Num ensaio piloto, cujos resultados foram apresentados esta semana, uma técnica de bioengenharia permitiu restaurar a visão a 20 pessoas

Córneas feitas a partir de colagénio de pele de porco permitiram restaurar a visão a 20 pessoas cegas ou deficientes visuais que participaram num ensaio piloto levado a cabo pela Universidade Linköping, na Suécia. O procedimento aconteceu há dois anos e até agora não foi relatado nenhum efeito colateral, nem um retrocesso a nível de visão, dizem os cientistas num artigo publicado na revista Nature Biotechnology.

Através de uma técnica de bioengenharia, os cientistas suecos, em parceira com a empresa LinkoCare Life Sciences AB, criaram uma espécie de lente de contacto flexível e resistente, uma imitação da córnea humana, e após terem realizado testes em laboratório, cujos resultados já se mostravam promissores,  avançaram para um ensaio em humanos. Para esta fase, contaram com a participação de 20 pessoas do Irão e da Índia com ceratocone, doença degenerativa do olho em que a córnea toma uma forma cónica saliente. Do total de participantes, 14 eram cegos e seis tinham a visão bastante prejudicada.

Espécie de lente de contacto flexível e resistente, feita de colegénio de pele de porco, que é uma imitação da córnea humana (Créditos Thor Balkhed)

O procedimento para a colação da córnea artificial é classificado no estudo como “minimamente invasivo” e, ao longo dos dois anos de avaliação, foram documentadas “melhorias na espessura da córnea” e na acuidade visual, sendo que alguns dos participantes cegos tiveram de usar óculos ou lentes de contacto (mas este é mais um bónus deste ensaio: os pacientes selecionados tinham intolerância a lentes e passaram a conseguir usá-las). De qualquer modo, a visão foi recuperada nestes 24 meses: no caso dos pacientes indianos o ganho de visão foi de 90% e nos pacientes iranianos foi de 95%.

“Os ganhos visuais que relatamos representam resultados equivalentes aos resultados históricos da cirurgia padrão de transplante de córnea penetrante para ceratocone com córneas de dadores humanos”, lê-se no estudo.

Para os autores do estudo, a eficácia da criação não é apenas um avanço na luta contra a cegueira - uma vez que o colagénio não possui células individuais e, por isso, o sistema imunitário não o irá rejeitar -, é também uma vitória social, uma vez que poderá ajudar países em condições financeiras mais deficitárias a conseguir dar um tratamento adequado a pessoas com problemas de visão ao nível da córnea.

Segundo o ScienceDaily, estima-se que 12,7 milhões de pessoas em todo o mundo sejam cegas devido a problemas na córnea.

Ciência

Mais Ciência

Patrocinados