Estudava a "segurança no Ártico", recusava-se a usar o Whastapp e só falava por Telegram: quem é o "investigador brasileiro" suspeito de ser um espião russo na Noruega?

26 out, 09:42
José Assis Giammaria, o investigador brasileiro suspeito de ser um espião russo

O advogado do suspeito, Thomas Hansen, negou qualquer irregularidade do seu cliente, afirmando mesmo que Giammaria "não entende as acusações" de que está a ser alvo.

A polícia norueguesa deteve esta segunda-feira um homem com documentos de identidade brasileiros por suspeitas de se tratar de um espião russo. As autoridades acreditam que o homem, que trabalhava na Universidade de Tromsø, no norte da Noruega, se fazia passar por um investigador brasileiro e que estaria no país ao serviço das autoridades russas.

“Fizemos um pedido para que um investigador brasileiro na Universidade de Tromsø fosse expulso da Noruega porque acreditamos que ele representa uma ameaça aos interesses nacionais fundamentais”, disse o vice-chefe do serviço de segurança da polícia (PST), Hedvig Moed, à estação televisiva estatal NRK.

Um tribunal local ordenou entretanto que o suspeito ficasse sob custódia durante quatro semanas, avança o The Guardian, que contactou dois funcionários daquela universidade que trabalharam de perto com o homem, identificando-o como José Assis Giammaria, e que teria "entre 30 a 40 anos".

Gunhild Hoogensen Gjørv, professora do departamento de segurança daquela universidade, começou por contar que Giammaria entrou em contacto com ela em 2021 através de um e-mail no qual dizia estar "interessado em aprender mais sobre a segurança no Ártico".

“Ele foi recomendado por um professor que eu conheci no Canadá, onde ele estudou. Fizemos uma pesquisa padrão no seu histórico e contactámos as referências que ele enumerou [no currículo]", acrescentou. Giammaria tinha concluído uma licenciatura no Centro de Estudos Militares, de Segurança e Estratégia na Universidade de Calgary, em 2018.

O suspeito começou a trabalhar na Universidade de Tromsø em dezembro de 2021, mas, segundo  Gjørv, não estava oficialmente empregado na instituição, embora ajudasse na organização de palestras e seminários enquanto trabalhava na sua investigação "autofinanciada".

Gjørv acredita que Giammaria não teve acesso a informações confidenciais na universidade, mas esteve presente nalguns debates sobre segurança. "Ele estava no terreno na altura em que estava a decorrer uma investigação importante", disse, notando que a maior parte da investigação desenvolvida naquele departamento se focava em ameaças híbridas.

"O que é interessante - ou irónico mesmo - é que investigamos como o domínio civil é alvo de ameaças híbridas. Eu não estava a contar fazer parte daquilo que investigamos”, acrescentou.

Um outro colega de Giammaria, que falou com o Guardian sob condição de anonimato, descreveu-o como uma pessoa “amigável”, mas extremamente protetor da sua privacidade.

“Ele dizia que era contra as redes sociais e nem sequer queria usar Whatsapp, só queria falar através do Telegram. Ao mesmo tempo, fazia muitas questões, incluindo questões de natureza pessoal”, disse o colega, acrescentando que Giammaria tinha um “sotaque engraçado” que o fazia lembrar a língua russa, mas não conseguia “identificar com exatidão”.

Este comportamento de Giammaria começou a levantar suspeitas entre os colegas da universidade, e uma vez chegaram mesmo a fazer uma piada com ele, perguntando-lhe se era algum espião. 

O advogado do suspeito, Thomas Hansen, negou qualquer irregularidade do seu cliente, afirmando mesmo que Giammaria "não entende as acusações" de que está a ser alvo.

Mas este não é um caso único: nas últimas semanas, as autoridades da Noruega detiveram vários cidadãos russos, incluindo três homens e uma mulher que estariam a tirar fotografias em zonas restritas do país.

Recentemente, também um espião russo tentou sem sucesso assegurar um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, utilizando a falsa identidade de um cidadão brasileiro que tinha construído durante uma década, de acordo com os serviços secretos holandeses.

Sergey Vladimirovich Cherkasov, 36 anos, acusado de ser um agente dos serviços secretos militares russos do GRU, voou para os Países Baixos em abril acreditando ter tido sucesso num esforço extraordinário para obter acesso interno ao tribunal de crimes de guerra.

As detenções acontecem numa altura em que a Noruega, que é agora o maior fornecedor de gás da Europa Ocidental, está em alerta de segurança máximo após a suspeita de sabotagem no mês passado dos gasodutos Nord Stream na Suécia e Dinamarca.

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