A ideia de que a União Europeia está em declínio tornou-se quase um lugar-comum em conversas sobre o futuro do continente. No entanto, os dados mais recentes do Eurobarómetro e o crescente interesse de países europeus em aderir à União contam uma história bastante diferente. A UE já começou a responder a muitos dos desafios que enfrenta, mas o trabalho continua para tornar este projeto europeu mais forte para os que dele fazem parte e mais atrativo para os que a ele se querem juntar
Uma coisa com que o vosso cronista se confronta ocasionalmente, quando fala com europeus, de Varsóvia a Lisboa, passando por Bruxelas, é a ideia de que a União Europeia (UE) é um projeto de paralisia ou disfunção, esgotado ou até em colapso. Como em tantas outras situações em que prevalecem crenças e perceções, por muita evidência que se apresente em contrário, as pessoas continuam a acreditar naquilo em que querem acreditar.
O último Eurobarómetro da primavera de 2026, realizado junto de uma amostra de cerca de 26 mil inquiridos com 15 ou mais anos em todos os Estados Membros, revela que 74% dos cidadãos consideram que o seu país beneficia por pertencer à UE, igualando o nível mais elevado alguma vez registado, alcançado pela primeira vez no início do ano passado. Cerca de 58% afirmam sentir-se pessimistas quanto ao futuro do mundo, mas, em contraste, 59% dizem-se otimistas em relação ao futuro da UE.
Entre as prioridades que os inquiridos identificam para o futuro da UE destacam-se a defesa e segurança, a independência energética e a competitividade económica. É significativo que estas prioridades coincidam, em larga medida, com os domínios onde a União começou a concentrar o seu esforço estratégico. A UE lançou o plano Readiness 2030 (anteriormente designado ReArm Europe), uma estratégia de 800 mil milhões de euros destinada a reforçar as capacidades de defesa e a base industrial europeia. A iniciativa assenta na aquisição conjunta de equipamentos e no estímulo à produção interna, com efeitos positivos esperados para o tecido empresarial, o mercado de trabalho, a aplicação de fundos europeus e a investigação e desenvolvimento realizados na Europa.
No domínio da energia, destaca-se igualmente o REPowerEU, lançado pela Comissão Europeia em maio de 2022. O plano foi concebido para eliminar gradualmente a dependência europeia das importações de combustíveis fósseis russos e acelerar a transição para fontes de energia limpas. Já no plano económico, importa referir o Relatório Draghi, com o título O Futuro da Competitividade Europeia, apresentado em setembro de 2024 a pedido da Comissão Europeia. O documento traça uma estratégia para responder ao défice de produtividade e ao crescente atraso competitivo da UE face às restantes grandes economias.
Existe, porém, outro tipo de evidência quanto à importância da UE: a perspetiva do exterior. Se alguns europeus questionam o valor do projeto europeu, os países candidatos continuam a vê-lo como um objetivo estratégico. O alargamento para além dos atuais 27 Estados-membros não é apenas provável; é inevitável. Montenegro poderá tornar-se o próximo já em 2028, um objetivo assumido pelo governo montenegrino e igualmente defendido pela presidente da Comissão Europeia, pela Comissária para o Alargamento, Marta Kos, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Mais tarde, e na opinião do vosso cronista, seguir-se-ão a Ucrânia, a Moldávia e a Albânia e, num horizonte mais distante, a Macedónia do Norte e a Bósnia-Herzegovina. Também merece atenção a decisão do governo islandês de convocar um referendo para 29 de agosto de 2026 sobre o regresso às negociações formais de adesão à UE. Caso os islandeses votem favoravelmente, a Noruega passará a ser o único país nórdico fora da União, uma circunstância que poderá aumentar significativamente a pressão política para a realização de um novo referendo de adesão.
O vosso cronista tem o privilégio de conhecer muitos e bons europeus que olham para a UE não apenas como um motor de prosperidade económica, estabilidade financeira, segurança coletiva ou promoção dos valores da democracia liberal, mas como um projeto ao qual desejam genuinamente pertencer, precisamente por se reconhecerem como europeus. Da Geórgia à Macedónia, da Turquia à Sérvia, da Bósnia à Ucrânia, a ambição mantém-se viva. Enquanto uns perguntam "para que serve a UE?", outros respondem: "nós queremos fazer parte desse projeto". Depende de todos nós, os que acreditamos, defendemos e procuramos melhorar a UE, fazer com que esta esteja à altura dessa aspiração, tanto para os que dela já beneficiam como para aqueles que ainda esperam poder juntar-se a ela.
