Lituânia no centro da maior crise diplomática Europa/China

17 dez 2021, 05:53
Lituania
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Relações com Taiwan provocaram a fúria de Pequim. Depois da retirada do pessoal diplomático, a China está a retaliar economicamente contra a Lituânia e empresas de países europeus com produção do estado báltico

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A Lituânia está no centro de um braço de ferro diplomático com a China que representa o mais grave momento de tensão entre países europeus e Pequim em muitas décadas. Esta semana o governo lituano chamou a Vilnius toda a sua representação diplomática na capital chinesa, para “consultas”, o que no código diplomático representa quase uma rutura oficial de relações entre dois países. 

Neste momento, a embaixada da Lituânia em Pequim está completamente vazia, e de portas fechadas. O embaixador da China em Vilnius também não está no seu posto - foi chamado a Pequim ao mesmo tempo que as autoridades chinesas ordenaram ao principal representante da Lituânia que abandonasse território chinês.

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A crise entre o minúsculo país europeu e o gigante asiático começou quando a Lituânia reforçou a sua ligação diplomática a Taiwan, a ilha que reclama independência da China desde 1945, que tem governo próprio, eleições livres e uma democracia funcional, apesar de oficialmente continuar a ser território chinês.  

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São poucos os países que reconhecem a independência de Taiwan, mas a Lituânia é o Estado da UE que está mais próximo desse passo. A 18 de novembro, permitiu a abertura na sua capital de uma representação diplomática de Taiwan, à semelhança do que acontece nos outros Estados-membros da UE. Com uma diferença crucial: em todas as outras capitais dos 27 existe uma representação de Taipé, a capital de Taiwan; apenas em Vilnius esse escritório é reconhecido como representação oficial de Taiwan. Em contrapartida, a Lituânia abriu uma embaixada em Taipé. 

Para a China, esta diferença equivale ao reconhecimento da soberania de Taiwan - algo que as autoridades chinesas não admitem, por pôr em causa o princípio de “um país”, que inclui a ilha rebelde.

Cenas dignas da guerra fria

Por causa deste conflito o embaixador da China na Lituânia foi chamado de volta a Pequim, e o embaixador da Lituânia foi convidado a voltar ao seu país. A China rebaixou o estatuto das duas embaixadas, passando a classificá-las apenas como meras representações, chefiadas por um encarregado de negócios, e não por um embaixador. 

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Com o seu pessoal em risco de perder a imunidade diplomática, Vilnius optou por repatriar toda a equipa e fechar a representação (embora sem ser de forma permanente). A retirada aconteceu esta quinta-feira, numa cena digna de um filme de espionagem dos tempos da guerra fria, com os diplomatas e funcionários lituanos, e respetivas famílias, “escoltados” por diplomatas de países amigos, para prevenir qualquer tentação de uma ação mais musculada da parte chinesa.

Mais: a China decidiu usar todo o seu peso económico contra o pequeno Estado europeu, deixando de aprovar licenças para entrada de produtos lituanos em território chinês. E não só: a ameaça estende-se a todos os países europeus que queiram exportar para a China produtos que incorporem componentes lituanas ou que tenham passado pela Lituânia nalguma fase da sua produção. Isto inclui fábricas de grandes potências europeias como a Alemanha e a França - não há um boicote declarado, mas a prática já revelou que o descarregamento desses produtos em portos chineses não está a ser autorizado.

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Uma "pulga" esmagada por um elefante

Segundo a versão europeia do jornal online Politico, dois fabricantes alemães de automóveis (não identificados) não estão a conseguir descarregar viaturas na China por terem produção na Lituânia. Empresas suecas e francesas têm-se queixado do mesmo. Por enquanto, as autoridades chinesas alegam desconhecimento da situação.

Emmanuel Macron já declarou publicamente o seu apoio à Lituânia neste braço-de-ferro, defendendo que a solidariedade da posição europeia deve ficar à frente dos interesses económicos. Olaf Scholz, o novo chanceler alemão, já indicou que levantará esta questão na primeira chamada telefónica que tenha com Xi Jinping. E altos responsáveis da UE já afirmaram que o bloco poderá acusar a China de estar a violar as regras da Organização Mundial do Comércio.

Desde 1981 que não existe um embate diplomático desta dimensão e gravidade entre um país europeu e a China. Nessa altura, a razão foi também Taiwan: o governo holandês vendeu submarinos à ilha, provocando a fúria de Pequim. Agora, a imprensa chinesa ligada ao Partido Comunista retrata a Lituânia como “um rato, ou mesmo uma pulga”, que será esmagada por um elefante.

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Apesar da gravidade da situação, o tema praticamente passou ao lado do Conselho Europeu desta quinta-feira, pressionado por questões mais urgentes: a nova vaga de Covid, a crise energética e as ameaças colocadas a Leste pela Rússia. 

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