Porta-voz da UE: funcionários das embaixadas da Rússia "usam uma capa para esconder atividades de espionagem"

26 mai, 07:00
Rússia: Putin, Lavrov

Em entrevista à CNN Portugal, Peter Stano, porta-voz principal dos assuntos externos da União Europeia, explica como Putin coloca um número desproporcionalmente grande de funcionários "que fingem ser diplomatas" em embaixadas russas na União Europeia para espiar os estados anfitriões, incluindo Portugal. Este representante do serviço diplomático da União diz também que os partidos políticos nacionais têm a "enorme tarefa" de enfrentar aqueles que recusam classificar a situação como uma invasão russa

A Rússia tem enviado funcionários para as diferentes embaixadas da União Europeia com o intuito de conduzir ações de espionagem contra os países anfitriões, alerta Peter Stano, porta-voz principal da UE para os assuntos externos, sublinhando que terá sido esse o motivo que levou vários países, incluindo Portugal, a expulsar funcionários russos das missões diplomáticas.

Em entrevista exclusiva, Peter Stano garante que uma das estratégias de Putin para executar operações secretas é a de colocar “um número desproporcionado” de funcionários “que fingem ser diplomatas” em países em que a dimensão da população não o justifica. À CNN Portugal, o porta-voz da UE explica como o Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE), o serviço diplomático da União tutelado por Josep Borell, tem lutado contra a desinformação e propaganda diretamente ligadas ao Kremlin, um combate parecido ao travado entre David e Golias. “Não estamos a falar de centenas de milhares de pessoas como a máquina de propaganda russa tem ao seu serviço”.

Peter Stano garante também que a União Europeia, a partir de Bruxelas, tem observado e vigiado o “financiamento secreto de partidos políticos pela Federação Russa” e afirma que em Portugal há o “grande desafio” e a “enorme tarefa” de enfrentar-se os que põe em causa estar em curso uma invasão da Rússia na Ucrãnia.

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Na última semana, a Rússia decidiu expulsar cinco diplomatas portugueses da embaixada em Moscovo. Recentemente, o governo de Putin decidiu também afastar 18 membros da missão diplomática da União Europeia na Rússia. O que é que considera estar por trás deste tipo de movimentações?

São sempre medidas retaliatórias. Nestes casos, tanto a União Europeia como Portugal expulsaram, e é preciso enfatizar isto, pessoas que trabalham para a missão bilateral fingindo ser diplomatas, enquanto estão envolvidas em atividades de espionagem. Portanto, isto acontece depois de Portugal  ter expulso, há algum tempo, dez funcionários russos e a reação da Rússia nunca seria de pedir desculpa por estas pessoas terem sido expostas e não agirem dentro do protocolo diplomático. Em vez disso, dizem que a expulsão não é aceitável e dizem que vão tomar medidas. Isto é retaliação política, pura e dura.

O que quer dizer com atividades de espionagem?

As embaixadas russas, especialmente nos países da União Europeia, têm um número desproporcionalmente alto de diplomatas. Em países com, por exemplo 10 milhões de habitantes, eles acabam por ter dezenas e dezenas de diplomatas. Por exemplo, a embaixada de Portugal em Moscovo provavelmente tem no máximo dez diplomatas para lidar ativamente com vários assuntos, mas no caso da Rússia isto não acontece desta forma: o Kremlin tem 100 diplomatas na sua missão na União Europeia e depois tem outros  100 na missão bilateral com a Bélgica. Outro caso evidente é o da República Checa, que tem cerca de 11 milhões de habitantes e mais de 100 diplomatas russos. Na embaixada da Rússia na Eslováquia, há também entre 70 a 80 funcionários e só podemos supor o que todas essas pessoas estão a fazer. Portanto, nós apenas os expulsamos porque alguns deles usam uma capa para esconder o seu envolvimento em atividades de espionagem ou atividades impróprias que não estão de acordo com o status diplomático, ou com a Convenção de Viena.

Numa entrevista em 2020, referiu que, com a pandemia, foi possível observar uma maior concentração de tentativas de desinformar a população nos Estados-Membros para garantir apoio a Vladimir Putin. Este tipo de pico de desinformação foi observado pelos oficiais do Serviço Europeu para a Ação Externa nos meses ou dias antes da invasão da Ucrânia?

Não é que, de repente, haja muito mais desinformação por estes atores ligados ao Estado russo, porque essas tentativas são mais ou menos constantes desde que começámos, em 2015, a investigar este tipo de ações. Aqui, a questão é a concentração de esforços em tópicos que servem os interesses do Kremlin. Antes da invasão, estes atores de desinformação e de propaganda estavam focados em diferentes temas, países diferentes, mas agora podemos vê-los a conduzir um esforço coordenado em tentar convencer o público que a Ucrânia era governada por neonazis, que as populações russas estavam em risco na região do Donbass e que a NATO, agressiva e expansionista, estava a aproximar-se da Rússia. 

 

Peter Stano, porta-voz principal dos assuntos externos da União Europeia, durante uma conferência em Bruxelas/ AP

Portanto, a estratégia destes atores que tentam influenciar a opinião pública a favor das decisões tomadas por Putin muda consoante o objetivo do Kremlin?

Podemos sempre supor que a Rússia vai oficialmente, politicamente ou militarmente anunciar algo decisivo com base na atividade de desinformação. É uma forma de preparar o terreno porque, dependendo da reação política do mundo, o Kremlin recua ou desvia a atenção para outra questão. Muitas das vezes também, o conteúdo criado para fazer propaganda é também contraditório, porque o objetivo deles também é lançar muita confusão.

Uma das questões que temos observado em Portugal é a construção de ligações entre associações que têm acolhido refugiados da guerra e organizações como a agência de propaganda Rossotrudnichestvo e a fundação Russkiy Mir. Em ambos os casos, verificámos que o trabalho destes agentes também passa por organizar conferências e eventos com o intuito de propagar a língua e a cultura russa. Isto é uma forma de “preparar o terreno”, como mencionou?

Claro, claro, toda a propaganda e desinformação, tudo isso está muito concentrado. Preparar o terreno significa criar simpatias e a abertura das pessoas para receber as mensagens que os agentes de desinformação está a inundar para mudar a opinião pública. E isso é feito em colaboração com a Russkiy Mir, com institutos russos, com a Russky Dom, a casa russa para a língua. Todos eles fazem parte desta máquina de criar simpatias pelo Kremlin e criar terreno fértil para desinformação e propaganda. E também nisto, as embaixadas russas estão a ser muito agressivas e ativas na sua própria comunicação, seja através da comunicação social, seja através de perfis na web e perfis no Facebook e Twitter. 

Por exemplo, no caso de Portugal, a Embaixada da Rússia em Lisboa tem divulgado os resultados de um barómetro sobre a opinião pública referente à invasão da Ucrânia com base em alegadas cartas e e-mails enviados por portugueses. Esta estratégia é uma tendência na União Europeia?
 

Sim, faz parte deste tipo de esforços concentrados. Exatamente, este é um dos exemplos de como a Rússia opera para justificar as suas ações e obter mais apoio público para as ações danosas da liderança no Kremlin.

O mecanismo de propaganda da Rússia é alimentado por muitos agentes, esse fator tem sido a principal dificuldade da União Europeia neste combate?

Essa é uma das questões, sem dúvida. Por um lado, este trabalho de desinformação e de propaganda é realmente impulsionado pelo Estado e o que descobrimos é que ele é financiado pelo Estado russo, por exemplo através do conglomerado do canal Russia Today, que tem vários trabalhadores empenhados nessa missão. Por outro lado, a Rússia está a aproveitar-se das liberdades e avanços tecnológicos do mundo ocidental. Ou seja, se decidirmos fazer algo da mesma forma que eles fazem, não conseguiríamos penetrar no mercado, porque há censura, há limitação de uso de tecnologias e de redes sociais, como Facebook e o Twitter. Dessa forma, estão a abusar das nossas liberdades, que obviamente não queremos limitar para impedi-los de fazer propaganda. É o dilema clássico do polícia e do criminoso, em que este último está a aproveitar todas as vantagens por não cumprir o estado de direito. Nós não podemos realmente ordenar que a Comunicação Social em toda a União Europeia informe apenas sobre o quão estúpido Putin é, ou o quão má é a invasão da Ucrânia. Mas eles podem.

Há um conceito de David contra Golias?

Bem, considerando o departamento que lida com a desinformação, ao abrigo do Serviço Europeu para a Ação Externa, e que desde 2015 tem a missão de catalogar, analisar e vigiar atividades de desinformação e propaganda com conexões à Rússia e ao Kremlin, estamos a falar de 40 a 50 pessoas no máximo. Não estamos a falar de centenas de milhares de pessoas como a máquina de propaganda russa tem ao seu serviço.

O Parlamento Europeu tem alertado, em relatórios e questões públicas, para o financiamento secreto de partidos políticos pela Federação Russa. Esta é uma preocupação central, neste momento, para a União Europeia?

Claro que estamos preocupados porque vemos muita interferência estrangeira, obviamente também através de financiamento de partidos políticos. É claro, isso é algo que podemos sinalizar se detectarmos, como refletido na desinformação e propaganda, mas não é realmente algo em que nos possamos estar a fixar, devido à natureza do mandato dado ao Serviço Europeu para a Ação Externa. Mas vemos e vigiamos o impacto negativo disso, claro. Isso conseguimos observar.

A guerra na Ucrânia colocou em evidência os laços de longa data entre alguns partidos políticos europeus e o governo russo. Em Portugal, por exemplo, o Partido Comunista tem-se abstido de chamar o que aconteceu uma invasão. E o ex-deputado João Oliveira chegou a dizer que as Forças Armadas da Ucrânia estão a desenvolver uma limpeza étnica na região do Donbass. Isto complica o trabalho dos oficiais que lutam contra a desinformação?

Isso não interfere com o nosso trabalho, porque enquanto houver governos responsáveis ​​e conscientes dos riscos que a manipulação da informação e a narrativa construída pela Rússia estão a causar nas nossas sociedades, continuaremos. O nosso trabalho é decorrente do mandato dado pelos estados-membros, enquanto tivermos o mandato, continuaremos a desmascarar a desinformação e a expor estes atores. Quando a desinformação é usada e difundida nos estados-membros por atores institucionais, como disse, deputados, partidos políticos ou funcionários municipais, isso é um problema interno do país. No caso de Portugal, este é um grande desafio e uma enorme tarefa para os partidos políticos enfrentarem aqueles que questionam tratar-se de uma invasão russa. Confrontem-nos com factos, confrontem-nos com realidades! Escolas, académicos, grupos de reflexão, fact-checkers independentes, igrejas, todos têm um papel a desempenhar aqui, porque se trata da proteção de nossas sociedades, dos nossos valores.

 

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