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Doutorado em Filosofia da Ciência, Mestre em Relações Internacionais e autor em ciência política

Sabemos quem quer uma UE mais unida

10 ago, 14:58
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Os europeus parecem querer mais união na União Europeia. Alguns dos seus líderes parecem querer exatamente o contrário. A recente crise migratória em Ceuta colocou em causa a confiança no espaço Schengen e no projeto europeu. Será que estas posições dos políticos refletem realmente a vontade dos seus eleitores? Fica a sugestão para o Eurobarómetro começar a fazer essa pergunta: queremos nós mais “união entre Estados-Membros”, tanto em questões externas como internas?

Na semana passada, foi publicado o Eurobarómetro EP Spring 2026 Survey, encomendado pelo Parlamento Europeu, com dados recolhidos no período entre abril e maio de 2026, com uma amostra de 26 421 europeus, distribuídos pelos 27 Estados-Membros, e centrado na questão de saber em que áreas deve a “União Europeia (UE) concentrar os seus esforços para fortalecer a sua posição no mundo”.

Dez resultados notáveis foram reunidos e podem ser encontrados aqui. Sumariamente, os cidadãos da UE consideram a União um “espaço seguro” e querem-na mais ambiciosa e independente. Igualmente, tendem a estar satisfeitos com a sua qualidade de vida, o que parece contrariar a narrativa de crescimento dos populismos, embora esse não seja o foco desta crónica. Ao mesmo tempo, o custo de vida continuará a ser uma prioridade.

Olhando para a matriz de respostas, que vulgarmente se denomina “mapa de calor”, podemos ver os pesos relativos que cada país dá às diferentes variáveis de interesse que fazem parte da sondagem. Esta é uma técnica muito utilizada não só a nível macro, em assuntos que interessam a todos os europeus, mas também uma ferramenta de análise muito usada pelos partidos com assento no Parlamento Europeu para perceber onde se encontram, percentualmente, os seus eleitores em questões-chave.

 

 

Interessantemente, podemos ver que os assuntos com maiores percentagens de resposta (com mais “calor”) são “defesa e segurança” e “independência energética”. Curiosamente, para os portugueses, nenhum desses é o número um em termos de percentagem, mas sim “aumento da competitividade económica” (por razões óbvias). Outros temas que interessam aos europeus vão desde segurança alimentar até educação e investigação, migração e envelhecimento demográfico, ação climática, trocas comerciais e dois dos favoritos do vosso cronista: valores europeus e relações internacionais.

Seria de esperar que a ação climática tivesse percentagens de resposta mais altas (apenas a Suécia acima dos 30%). Também com menos ênfase está a questão das migrações e do envelhecimento dos europeus, com a República Checa e a Croácia como os únicos Estados-Membros acima dos 30%. Naturalmente, estas respostas são pré-crise de Ceuta e ao que temos visto nesta primavera-verão, com as “cúpulas de calor”, os caudais dos rios historicamente baixos e os incêndios devastadores no espaço da UE. Será de esperar (ou talvez não) que no próximo Eurobarómetro possamos ver resultados mais altos, ainda mais com as oportunistas e falaciosas campanhas que temos visto por parte de partidos de extrema-direita e do populismo radical na questão da emigração.

Por esta altura, já quase tudo foi escrito (e dito) sobre o que aconteceu em Ceuta. Dois exemplos são de acentuar. A vergonhosa ação do governo italiano liderado por Meloni e Tajani, com a reintrodução temporária de controlos nas fronteiras internas do espaço Schengen com Espanha durante um mês, incluindo controlos de passaporte e identidade em voos e ligações marítimas vindas de Espanha. A “carta de 22 países”, com críticas abusivas às políticas de Pedro Sánchez para a regularização de migrantes em Espanha, que foram descritas, absurdamente, como “um fator de atração” para a invasão de Ceuta por marroquinos, que se desconfia ter razões bem mais prosaicas.

O facto de o Comissário Europeu para os Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, ter confirmado, expressamente, que a zona de livre circulação Schengen não esteve em causa nem foi afetada do ponto de vista do fluxo migratório real a partir de Ceuta, devia ter servido de ponto de ignomínia para líderes como Meloni, os primeiro-ministros Andrej Babiš da República Checa e Ulf Kristersson da Suécia, o chanceler austríaco Christian Stocker e a ministra do Interior finlandesa Mari Rantanen. Como disse, e muito bem, o ministro dos Assuntos Internos do Luxemburgo, Léon Gloden: “Schengen está a ser feito refém do populismo”, e fechar fronteiras internas destrói a confiança no projeto europeu.

Assim, o vosso cronista aproveita para fazer uma humilde sugestão ao Parlamento Europeu. Para além das variáveis incluídas neste Eurobarómetro, seria útil incluir “união entre Estados-Membros”, tanto em questões internas como externas. Teríamos, assim, uma noção real de quanto estas reações extemporâneas e provinciais de líderes europeus, como foi o caso do dirigente do CHEGA, se refletem verdadeiramente na maior parte dos eleitores, ou se estão a falar para minorias que não partilham os mesmos valores que o resto dos seus vizinhos.

É revelador que, nos dez resultados mais notáveis referidos acima, um deles seja transcrito como: “Uma vasta maioria de europeus gostaria que os Estados-Membros da UE estivessem mais unidos no contexto atual e defende que a UE deve promover o respeito pelo direito internacional por parte de todos os países (ambos com 90%). Além disso, 73% querem que a União disponha de mais meios para enfrentar os desafios globais”.

Seria interessante ver quais as percentagens entre os membros da UE que defendem uma maior união entre europeus e entre países, e comparar esses resultados com as decisões políticas que promovem o isolamento, a disrupção e, como disse o ministro Gloden, a destruição da confiança no projeto europeu. O vosso cronista acredita que seriam mais aqueles que querem solidariedade do que os que querem divisão.

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