Se, durante a Guerra Fria, a Europa colocou-se ao lado dos Estados Unidos face a Moscovo, também pelo seu próprio interesse de proteção, hoje parece estarmos a entrar numa nova Guerra Fria, mas com Washington como o novo polo de ameaça. A União Europeia não pode agir como um aliado incondicional de uma América sob a Administração Trump
Numa participação no programa Central CNN, no segmento Arena, a jornalista Rita Rodrigues convidou-me para discutir a relação entre a União Europeia (UE) e a exigência da Administração Trump de envio de navios militares para o Estreito de Ormuz. Perante a recusa dos líderes europeus em ceder à pressão da Casa Branca, a Rita deixou-me a pergunta: “É este um momento de viragem?”
O pedido da Administração Trump para o envio de meios navais europeus para o Estreito de Ormuz não é apenas mais um momento de tensão geopolítica, mas um teste: à relação transatlântica, à coerência política europeia e, acima de tudo, à capacidade da Europa de definir a sua ação geoestratégica sem dar cobertura a uma Administração que não respeita o direito internacional nem alianças históricas.
A Europa, e por extensão a EU, reconhece que esta não é a sua guerra, como sublinhou a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas. Os europeus não participaram na decisão que levou à escalada no Golfo, não foram consultados no momento crítico e continuam sem ver uma estratégia clara que justifique um envolvimento militar direto.
Durante décadas, a lógica de apoio aos Estados Unidos seguiu uma equação simples: perante uma crise liderada por Washington, a Europa alinhava, apesar de divergências e hesitações internas. O alinhamento acabava, quase sempre, por prevalecer. Esse padrão, que foi definidor de grande parte da arquitetura de segurança do pós-Guerra Fria, está agora a ser reavaliado em tempo real.
O meu colega na CNN Internacional, Miguel Baumgartner, faz aqui um argumento sofisticado sobre a falácia da Casa Branca de que navios e tropas da NATO devem participar em patrulhas no Estreito de Ormuz. Eu acrescentaria a desfaçatez do Presidente Trump ao afirmar que os países da NATO não estão ao lado dos Estados Unidos quando este precisa. Mais um momento de indecência a somar ao longo historial de comportamentos que já nos habituou. Recorde-se que a única vez que o Artigo 5 do Tratado da Aliança do Atlântico Norte, que estabelece o princípio da defesa mútua, foi invocado pelos Estados Unidos foi após os ataques de 11 de setembro de 2001, e todos os aliados europeus se prontificaram a ajudar.
Existe também uma dimensão política interna que não pode ser ignorada. As sociedades europeias, marcadas pelas lições de intervenções passadas, mostram-se pouco disponíveis para novos envolvimentos militares em cenários pouco claros. Além disso, a prioridade estratégica europeia permanece centrada no próprio continente: a guerra na Ucrânia e a ameaça russa moldam a alocação de recursos militares e financeiros.
E é precisamente aqui que reside o verdadeiro significado deste momento. A autonomia estratégica europeia não se constrói apenas com declarações ou documentos: exige decisões difíceis, tomadas sob pressão, com custos políticos e riscos reais. A relação com Washington poderá entrar numa fase de maior tensão, especialmente sob uma liderança americana que privilegia a lógica transacional e a lealdade cega.
Se, durante a Guerra Fria, a Europa colocou-se ao lado dos Estados Unidos face a Moscovo, também pelo seu próprio interesse de proteção, concedo, hoje parece estarmos a entrar numa nova Guerra Fria, mas com Washington como o novo polo de ameaça. Os sinais têm sido abundantes, e, sem ser exaustivo, destacam-se:
- As ameaças de Trump de não sair em defesa da Europa, se necessitarmos de ajuda militar;
- As vezes repetidas que o Presidente disse querer tirar o país da NATO (o qual não tem poder para fazer);
- O abandonar progressivo do apoio à Ucrânia, no momento a frente de defesa da Europa contra as tendências imperialistas de Putin;
- A notável servidão de Trump para com Putin com a constante defesa, acomodação e ajuda à Rússia;
- O enfraquecimento da NATO no continente europeu;
- A ambições expansionistas absurdas com a Gronelândia;
- A extorsão económica com a aplicação errática e caprichosa de tarifas;
- A declarada intenção de apoiar partidos conservadores e populistas radicais, antidemocráticos, iliberais e hostis à UE como está constituída atualmente;
A Europa e a UE têm, ao contrário do que disse, despropositadamente, a Presidente da Comissão Europeia, de ser garantias da ordem mundial e do respeito pelo direito internacional. No caso do Irão, isso passa por iniciativas diplomáticas, mecanismos de segurança limitados e bem definidos, e por resistir a que os Estados Unidos utilizem o continente para ações militares ofensivas à revelia do direito internacional.
A UE não precisa de hostilizar os Estados Unidos. Mas também não pode agir como um aliado incondicional de uma América sob a Administração Trump. Ou de um Congresso dominado por isolacionistas America First inimigos do poder económico e regulatório da União, ou da sobrevivência da Ucrânia como país independente e europeu. Estas “viragens”, mesmo que às vezes sejam de 360.º, abrem caminho para que surjam novas opções, rumo a uma Europa resiliente, unida e determinante.
