A segurança europeia enfrenta um contexto crescente de pressão híbrida, marcado por incidentes no espaço aéreo, marítimo e em infraestruturas críticas. O debate sobre o papel da União Europeia na defesa do seu próprio espaço estratégico tem vindo a intensificar-se, num quadro de maior incerteza transatlântica. A União Europeia tem de ser, para além de um “projeto de paz”, um projeto de defesa ativa do seu território
Na última sexta-feira, um drone russo atingiu um prédio de 10 andares na cidade romena de Galati, resultando em dois feridos e danos materiais, segundo confirmaram as autoridades romenas. Esta não é a primeira vez que drones russos entram em espaço da União Europeia (UE). Na noite de 9 para 10 de setembro de 2025, pelo menos 21 drones penetraram no espaço aéreo polaco, obrigando à ativação de caças polacos, norte-americanos e neerlandeses. Já no início de 2026, drones russos caíram na Letónia e um deles chegou a embater numa chaminé da central elétrica de Auvere, na Estónia.
Estas incursões não se limitam ao espaço aéreo. No dia de Natal de 2024, o cabo elétrico Estlink 2, que liga a Finlândia à Estónia, e três cabos de fibra ótica foram cortados. As autoridades finlandesas detiveram o petroleiro Eagle S, que se acredita estar ligado à frota sombra russa. A investigação concluiu que o navio arrastou a âncora pelo fundo do mar ao longo de cerca de 90 quilómetros, cortando as ligações. Já o cargueiro Fitburg deixou um rasto de destruição de 10 quilómetros ao arrastar a âncora na zona económica exclusiva da Estónia.
Afirma-se frequentemente que a UE é um “projeto de paz”. Nascida das cinzas da Segunda Guerra Mundial, a UE viu líderes como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi procurarem substituir a lógica da agressão militar por uma cooperação económica e política. Desde então, o projeto de construção da UE tem-se expandido, consolidando um mercado interno robusto, um espaço de livre circulação de pessoas e capitais, políticas comuns em áreas como a agricultura, a indústria e o ambiente, bem como uma moeda única que simboliza a integração económica.
Ao mesmo tempo, a Federação Russa, sob a liderança de Vladimir Putin, tem adotado uma postura revisionista e imperial, recorrendo a operações nomeadas como medidas ativas, assim como ações de desestabilização nos países do seu flanco ocidental. A estas somam-se ações militares ofensivas, como as guerras na Chechénia e o conflito na Geórgia em 2008, bem como a anexação da Crimeia em 2014 e a tentativa de subjugar a Ucrânia, iniciada com a invasão de fevereiro de 2022.
As Administrações Obama e as duas Administrações Trump levaram os europeus a compreender que têm de acautelar a sua própria defesa. Planos como o ReArm Europe Plan / Readiness 2030 aumentaram de forma significativa o investimento e o ritmo de reforço das capacidades de defesa da União. O objetivo é mobilizar mais de 800 mil milhões de euros para reforçar esforços conjuntos na área da defesa, apoiar a indústria europeia de defesa e promover uma autonomia estratégica europeia mais sólida.
Como este cronista tem defendido, tanto em momentos de comentário na CNN como em reuniões com os seus pares em Bruxelas, a UE precisa de ir mais longe: temos de continuar a ser um projeto de paz, mas também um projeto de defesa ativa. Temos de ser um bloco preparado para entrar em conflito, se necessário, para defender o nosso espaço estratégico. Isso deve incluir a presença de forças militares europeias na Ucrânia em posições defensivas e criação de zonas de exclusão aérea, asseguradas pelas forças aéreas europeias.
Devem igualmente estar preparadas respostas proporcionais às ações do Kremlin. Já se verificou a interceção de navios da frota sombra por parte de Estados Membros como a Bélgica, Alemanha e Itália. De igual modo, quando o espaço aéreo da Dinamarca foi invadido por uma vaga de drones, obrigando ao encerramento do aeroporto de Copenhaga, e com incursões em bases militares na Suécia e em infraestruturas críticas no norte da Alemanha, a marinha francesa intercetou e apreendeu um petroleiro da frota sombra russa, suspeito de funcionar como plataforma móvel de lançamento de drones.
Pode argumentar-se que as ações apresentadas nesta crónica são ambiciosas e pouco realistas. Importa considerar que, com a atual Administração Trump, a UE poderá ter de contar mais rapidamente com as suas próprias capacidades do que com o apoio norte-americano. Na ausência de uma ativação do Artigo 5.º do Tratado de Washington, base da NATO, poderá ser necessário, em situações de conflito nas fronteiras da União, recorrer à invocação do Artigo 42.º, n.º 7 do Tratado da União Europeia.
Esse artigo define que "Se um Estado-Membro for objeto de uma agressão armada no seu território, os outros Estados Membros devem prestar-lhe auxílio e assistência por todos os meios ao seu alcance, em conformidade com o artigo 51.º da Carta das Nações Unidas." E apesar da UE não ter uma estrutura militar própria (apesar de haver cada vez mais quem peça o contrário) essa assistência pode prestada numa base bilateral entre Estados Membros, eventualmente coordenada a nível europeu.
Apesar de vivermos em relativa paz e conforto no espaço político construído por Schuman, Adenauer e De Gasperi, é importante perceber que há atores que nos são hostis, seja de forma política, diplomática, económica ou militar. É tempo de termos uma União Europeia de combate.
