«A investigação científica, tal como o futebol, é um trabalho de equipa»

20 abr 2021, 23:55

«Um Café com...» Elvira Fortunato, investigadora científica vencedora do Prémio Pessoa, candidata ao Prémio Nobel e sportinguista desde que se conhece, que tem em Cristiano Ronaldo o maior ídolo

Elvira Fortunato nasceu em Almada, há 56 anos. Cresceu numa casa com jardim, estudou em escolas públicas, viveu sempre na Margem Sul e licenciou-se em Engenharia dos materiais pela Universidade Nova. No terceiro ano do curso foi convidada a mergulhar na investigação científica e nunca mais de lá saiu.

Desde então desenvolveu uma carreira de sucesso, que justificou os maiores reconhecimentos internacionais: da medalha Blaise Pascal, ao prémio Horizont Impact Award. Até que este ano ganhou o Prémio Pessoa. Dizem que pode ser ela a trazer o terceiro Nobel da nossa história: na circunstância o Nobel da Física.

Para além da ciência, da investigação, do transístor de papel e dos nanomateriais, Elvira Fortunato é uma apaixonada pela cozinha, pelos trabalhos manuais e pelo Sporting, que começou a seguir ainda criança, quando o pai a levava a Alvalade, muito antes de casar com um sportinguista doente.

Desde então não parou de frequentar estádios, ela que diz que há mais semelhanças entre a investigação científica e o futebol do que as pessoas possam imaginar. Chegou aliás a tentar jogar, mas quando foi a Alvalade bateu com o nariz na porta. Nada que abalasse a paixão pelo clube. «Os meus ídolos sempre foram jogadores do Sporting», conta.

Quando era criança quis ser médica, depois quis ser engenheira, mas nos tempos livres também quis jogar futebol?

Tentei, mas na altura quando fui ao Sporting ainda não havia futebol feminino. Andava no Liceu e tinha um grupo de amigas que gostava de futebol e gostava do Sporting. Uma vez fomos a Alvalade para treinar, tinha para aí 16 anos, talvez, mas não havia futebol e tive de me contentar em continuar a ver os jogos na bancada.

Então não passou da porta?

Não passei da porta.

Mas jogava na rua, imagino...

Na rua não jogava muito. Jogava no Liceu, nos recreios e nas aulas de Educação Física. Mas tinha mais gosto, mais vontade, do que propriamente jeito.

Então e, antes disso, como é que o futebol apareceu na sua vida?

Não sei como é que surgiu. O meu pai sempre gostou de futebol e era do Sporting, eu desde pequena que o acompanhava aos jogos de futebol. Lembro-me perfeitamente de ir ao estádio com ele e acho que foi aí que nasceu este bichinho, que foi crescendo com o tempo. Depois há uma coisa fantástica: lembra-se de alguém que tenha mudado de clube?

Assim de repente, não...

Muda-se de partido, de mulher ou de homem, de namorado ou de namorada, mas de clube eu não conheço ninguém. Portanto o meu pai era do Sporting e meteu-me esse bichinho desde que era criança. Depois tive a felicidade de casar com um homem que, esse sim, é doente pelo Sporting e gosta muito de ir ao estádio, por isso íamos, antes da pandemia, com alguma regularidade a Alvalade, e até mesmo a outros estádios.

Costuma acompanhar o Sporting fora?

No estrangeiro não, até por causa das limitações profissionais. Mas, por exemplo, quando o Sporting vai aqui a Setúbal, ao Bonfim, costumamos ir. E depois depende, eu costumo dar muitos congressos em várias zonas do país e quando calha o Sporting jogar perto, damos sempre um salto ao estádio para ver o jogo.

E como é a experiência de viver um jogo no estádio para uma cientista dedicada ao pensamento?

É uma forma completamente diferente de viver o futebol. Para já, temos uma visão 360 graus. Na televisão somos obrigados a ver aquilo que a televisão nos mostra, no estádio podemos ver tudo. Depois é aquele ambiente, as claques, as pessoas, os cânticos, é completamente diferente. Aliás, também notei isso, e ainda talvez de uma forma mais poderosa, quando fomos com a nossa filha aos Estados Unidos e fomos ver um jogo da NBA. Não tem nada a ver estar no campo ou ver aquele jogo na televisão. As pessoas, os comentários, a emoção, o barulho, é tudo muito intenso. Com a diferença, para o futebol, de que os tempos mortos na NBA são muito mais animados.

E que adepta é que é?

Sou uma adepta moderada. O meu marido é doente, eu gosto de ver bom futebol. Quando o Sporting perde por jogar mal é evidente que fico triste, mas não fico chateada, porque acho que se jogou mal, não merece ganhar. Sigo com regularidade o Sporting, mas não sou doente.

E quando está no estádio aproveita para esquecer a investigação e dar descanso à mente?

É um bocadinho sair da rotina, é evidente que sim, mas eu gosto de futebol também porque tem algumas semelhanças com a investigação científica: é que a investigação científica, tal como o futebol, é um trabalho de equipa. Nós aqui no meu laboratório temos uma equipa de cientistas, que anda a tentar jogar o melhor que sabe, para marcar golos e ganhar projetos. Daí eu gostar de desportos de equipa: o sucesso de um jogo ou de um trabalho de investigação é o sucesso da equipa. Temos líderes, que são os treinadores, temos que ter jogadores, que são os investigadores, e temos que fazer golos, que aqui passa por ganhar projetos.

Mas no futebol há sempre uma estrela ou outra mais individualista...

Sim, mas nós também temos. Não somos todos superstars, mas também não somos todos iguais. Numa equipa de investigação, dentro do corpo de investigadores, há sempre umas estrelinhas que sobressaem mais, mas isso não quer dizer que o trabalho dos outros não seja importante.

E como vê aquele fenómeno dos analistas que olham para o futebol quase como uma ciência?

Aprecio o fenómeno tático no futebol, como aprecio as jogadas que se vê que são resultado de trabalho feito nos treinos. Até aquelas jogadas ensaiadas nas bolas paradas. O futebol evoluiu muito e está cada vez mais competitivo, todas as equipas estão a um nível muito superior e há que saber apreciar esse fenómeno.

Sim, mas não haverá um bocadinho de exagero ao comparar o futebol com uma ciência?

O futebol ser uma ciência... talvez não, acho que não é adequado fazer uma analogia entre um protocolo científico e o futebol, mas é verdade que que existe muita organização. Não é ciência porque no futebol não se está a descobrir nada, mas obviamente que há uma organização, há um método.

Uma cientista também tem ídolos?

Então não tenho? Neste momento o Cristiano Ronaldo é o meu ídolo. E acho que devia ser o ídolo de todos os portugueses. Não só pelo que ele joga, mas pela maneira de ele ser. Ele transporta o nome de Portugal pelo mundo inteiro. Agora não tenho viajado, por causa da pandemia, mas viajava muito e quando chegava à Tailândia, à China, à Coreia, dizia que era portuguesa e a primeira coisa que me respondiam era o nome dele. O nome dele é um símbolo nacional e eu, como portuguesa, fico muito orgulhosa.

E acha que os portugueses têm mais noção desse facto de Ronaldo ser um símbolo a nível mundial quando viajam para esses destinos longínquos?

Sim, porque em Portugal nem é preciso. Mas acima de tudo acho que ele é um símbolo em qualquer parte do mundo. Ele conseguiu transportar Portugal, e o nome de Portugal, para essas áreas extremamente remotas, onde não é frequente falar-se de Portugal.

E antes disso?

Os meus ídolos sempre foram jogadores do Sporting. Por exemplo o Jordão. O Damas. E os pontas de lança, aqueles que marcam golos, ficam sempre na memória, como o Manuel Fernandes.

Uma coisa que li é que a sua família é toda sportinguista: pai, marido, filha, cunhado, enfim...

O meu pai era, já não está entre nós. A minha mãe é um bocadinho pró-Benfica, mas como é toda a gente é do Sporting, ela não se manifesta. É pró-Benfica porque os irmãos eram todos do Sporting e ela queria ser do contra, só por isso.

E o seu marido é o maior sportinguista de todos, não é?

Ai, esse é doente, ele é mesmo doente. É fanático. Houve uma vez, já há mais de dez anos, em que o Benfica ganhou ao Sporting, nós estávamos a ver o jogo em casa dos meus pais e ele ficou tão furioso que saiu de casa desvairado e deixou-me ficar lá. [risos] Veio-se embora e deixou-me lá. Depois foi o meu pai que me veio trazer a casa. Ele, sim, é doente pelo Sporting.

«Um café com...» senta o Maisfutebol à mesa com figuras eminentes da nossa sociedade, nomes sem ligação aparente ao desporto, a não ser a paixão. A música, a literatura, o cinema ou a moda enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas.

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