«Nunca um portista me disse: 'O senhor não é um bom tripeiro'»

16 dez 2021, 09:12
Júlio Machado Vaz

«Um café com…» Júlio Machado Vaz: psiquiatra, portuense e benfiquista

É médico psiquiatra, mas também o sexólogo que falava ao país na TV. É professor e autor de mais de uma dezena de livros. É neto do antigo Presidente da República Bernardino Machado e comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Júlio Machado Vaz é uma série de coisas. Benfiquista também.

Cultivou o gosto pelo futebol nos tempos da telefonia, a ouvir relatos com os primos que eram também seus vizinhos num prédio da Rua do Bolhão.

Herdou o benfiquismo da avó e da mãe, a cantora Maria Clara, com o beneplácito do pai, professor universitário que, sendo portista, era acima de tudo «um democrata completo» que permitia desvios clubísticos entre portas.

Houve dias em que o levou às Antas e houve um outro em que o abraçou na casa de banho, num consolo após uma eliminação europeia – pouco ortodoxa – frente aos católicos do Celtic de Glasgow, por moeda ao ar.

Nasceu há 72 anos, no Porto, mas nunca se tentou pelos tons de azul e branco, embora a cada abordagem de conterrâneos seus sobre o assunto reconheça placidamente que «ninguém é perfeito».

Júlio Machado Vaz é também um comunicador notável, ou não se tivesse tornado ele também numa voz da rádio, que já não é telefonia, em rubricas como «O Amor é…».  

Na conversa com o Maisfutebol, a voz serena salienta-lhe a clareza no pensamento.

«O futebol mexe com a psique das pessoas», reflete, relativizando a importância de um jogo que tanto lhe pode passar despercebido como provocar insónias.

Ainda assim, atalha: «Durante 90 minutos ninguém tem o direito de me pedir isenção.»

Pelo meio, recorda uma fugaz passagem pelo comentário desportivo televisivo, cita Pedroto e recorda o ídolo de infância. E a conversa continua a fluir, umas vezes pontuada por um sorriso, outras por uma gargalhada.

Qual a primeira memória que tem de futebol?

Sou o mais novo da minha geração dos Machado Vaz. As memórias mais precoces que eu tenho são com os meus primos a ouvir os jogos do Benfica. A minha mãe e a minha avó eram lisboetas e benfiquistas. Eu cresci numa altura em que o Benfica ganhava quase sempre e os putos gostam de ganhar. O meu pai era portista, mas era um democrata completo. Cada um fazia e pensava o que queria lá em casa. Aliás, o meu tio integrou até órgãos diretivos do FC Porto.

Antigamente, essa ligação dos miúdos ao futebol vinha sobretudo pela rádio, não?

Exatamente. Ia para casa dos meus primos – eu morava no terceiro andar e eles no primeiro de um prédio na rua do Bolhão. Descia, sentávamo-nos à volta da telefonia, como se dizia na altura, e o meu primo mais velho, que era o mais louco de todos, saía disparado pelo corredor. As minhas tias, que não percebiam nada de futebol, também gritavam golo do Benfica. Era enternecedor vê-las. Não sabiam quantos jogadores estão de cada lado sequer, mas festejavam só por ver os filhos felizes. Também houve algum choro e ranger de dentes.

Que momento desses recorda?

Lembro-me de quando o Benfica foi eliminado por moeda ao ar frente ao Celtic Glasgow (1969). Fechei-me no quarto de banho e foi o meu pai que me foi buscar. Apenas olhou para mim, deu-me um abraço e eu vim a chorar para o quarto.

Na infância tinha algum ídolo?

Vou dizer uma heresia: o meu ídolo não era o Eusébio, mas o José Águas. Mas ainda tive o privilégio de ir às Antas com o meu pai e ver o Hernâni, o Monteiro da Costa, o Pedroto, essa geração de ouro do FC Porto.

Ir a um jogo era uma experiência muito diferente da dos dias de hoje?

Sem dúvida. Lembro-me dos tempos em que as famílias iam futebol às três da tarde de domingo. Hoje, tenho clientes meus no consultório que dizem: «Não levo os meus filhos ao futebol, tenho medo.»

Concorda que o futebol mexe em demasia com a psique das pessoas?

Mexe. É uma possibilidade de descarregar agressividade. Veja a facilidade com que um estádio inteiro desata a insultar uma senhora que nunca viu, que é a mãe do árbitro. Pessoas que têm de engolir sapos vivos no dia a dia têm ali uma hipótese de descarregar frustrações.

Alguma vez sentiu algum desconforto por ser benfiquista na cidade do Porto?

Nenhum. Lembro-me daquela descrição do Miguel Sousa Tavares – «Ser portista em Lisboa é como ser muçulmano na Bósnia» –, ora, eu ao contrário nunca senti isso. Depois de ir para um programa de TV defender o Benfica a única diferença é que os tripeiros como eu, que nasci aqui há 72 anos, passaram a abordar-me da seguinte forma: «O senhor só tem um defeito…» e desatavam-se a rir. E eu respondia: «Eu sei qual é. Mas ninguém é perfeito.»

O facto de ter participado num programa televisivo não o expôs a alguma animosidade de adeptos rivais?

Quando fui despedido [na RTP, em 2012] recebi muitas mensagens e telefonemas e os que mais me enterneceram eram de portistas e sportinguistas a dizer-me que eu era justo nas análises que fazia. Muitas vezes, nesses programas o que se privilegia é o espetáculo. Se alguém chega lá e se limita a conversar, acaba por não ter muito interesse.

Foi por isso que saiu?

Presumo que sim. A justificação oficial era tão descabelada: foi dizer que era preciso renovar o programa quando eu era o comentador mais recente… [risos] Já agora, digo outra coisa: não tenho a menor dúvida que houve gente dos corpos dirigentes do Benfica que ficou muito satisfeita por eu sair. Estou convencido, aliás, de que saí com o beneplácito da direção do Benfica da altura.

O facto de o futebol não lhe toldar o raciocínio era, neste caso, uma desvantagem?

As pessoas desenvolvem um espírito tribal, faccioso, que impede qualquer avaliação isenta. Eu dizia meio a brincar que durante 90 minutos ninguém tem o direito de me pedir isenção: qualquer jogador do Benfica que cai na área do adversário é penálti, qualquer jogador do adversário que caia na área do Benfica é ‘fita’. Assim que chega ao fim do jogo, eu volto a ser um ser pensante e aí tento ser justo.

Sendo portuense e nortenho, a assunção do FC Porto também como bandeira de um território nunca o tentou?

Não, porque nunca houve um portista que me dissesse na cara: «O senhor não é um bom tripeiro.» Quem apoia o Boavista ou o Salgueiros também é tripeiro. Agora, evidentemente, o FC Porto pelas conquistas nacionais e internacionais tornou-se numa bandeira sobretudo da cidade. Isto porque o Minho tem benfiquistas que nunca mais acabam. Aí, está muito dividido. E em Trás-os-Montes também. Quem inventou isso foi o Pedroto, que tive o prazer de conhecer.

De que forma?

Nessa altura [décadas de 1970 e 1980], quando a equipa do FC Porto ia para Lisboa de comboio, lembro-me de ele me dizer: «Ó Doutor, eles chegam às Devesas e já só jogam metade.» [risos] Ele utilizou essa sensação de o Benfica e o Sporting dominarem tudo para moralizar o FC Porto. E foi altamente eficaz.

É dessa forja que nasce um rival à medida dos grandes de Lisboa?

Ainda há pouco tempo estava a ver um programa desportivo antes do Benfica-Sporting, que para mim foi uma tragédia, e alguém dizia: «O dérbi é o jogo mais importante do país.» E imediatamente alguém do lado corrigiu: «Nem pensar! O jogo mais importante do país é o Benfica-FC Porto.» Ora, há 40 anos, era evidente que era o Benfica-Sporting.

Hoje ainda sente aquele encantamento pelo futebol que tinha na sua juventude?

Já havia menos antes e agora passou a haver muito menos com a pandemia. Esta situação limite em que vivemos faz-nos rever as hierarquias. Olhe, durante a pandemia aconteceu uma coisa que seria impensável há uns tempos: de repente, telefonaram-me a dizer «não estamos a jogar nada» e eu tinha-me esquecido que o Benfica estava a jogar a essa hora. Agora, continuo a ser suficientemente benfiquista para uma derrota me dar uma noite de insónias.

É daqueles benfiquistas que apoia Jorge Jesus?

Hoje [segunda-feira] já me ri muito, porque entre as consultas fui ao computador e vi que o Real Madrid tinha calhado ao Benfica [nos oitavos de final da Champions]. Pensei: «Pronto, Jesus disse que se saísse o Real Madrid nós passávamos, isto vai ser hilariante.» Passando um bocado, voltei de uma consulta e vi que foi tudo refeito. «Pronto, não quiseram meter o Jesus em trabalhos: contra o Ajax ele não disse nada.» [risos]

O momento do Benfica não o tranquiliza?

O Benfica neste momento está encostado à parede. No Natal, arrisca-se a estar fora da Taça de Portugal, a estar no campeonato a uma distância de sete pontos dos dois rivais, o que é praticamente irrecuperável, portanto, isso significa que a corrente anti-Jesus terá muito mais argumentos para contestar.

E a seleção, acompanha com algum interesse ou menos do que o Benfica?

Acompanho, mas muitas vezes desconsolado. Causa-me engulhos ver jogadores que nos respetivos clubes me enchem o olho e que depois chegam à seleção e praticam um futebol às vezes deprimente e muitas vezes tristonho. É uma coisa que não me entra na cabeça.

Há algum jogo especial que guarde na memória?

Seguramente. A minha mãe, que não era para brincadeiras, deixou-me ir sozinho a Lisboa. Deus estava lá em cima a zelar por mim e eu vi o Benfica dar cinco ao Real Madrid. Mas também cheguei a ir lá e a apanhar cinco do Manchester United. É como dizem: «Deus não dorme, mas de vez em quando também faz uma sesta.» [risos]

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«Um café com...» senta o Maisfutebol à mesa com figuras eminentes da nossa sociedade, nomes sem ligação aparente ao desporto, a não ser a paixão. A música, a literatura, o cinema ou a política enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas.

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