David Bruno: «Gaia é os Balcãs do futebol»

17 nov, 09:12
David Bruno (créditos: Francisco Lobo)

«Um café com…» David Bruno: músico, «antropólogo da era digital», «olheiro da portugalidade» e adepto do «underdog» Paços de Ferreira

Cantor romântico 2.0, produtor musical, comercial em part-time numa empresa de Serzedo, analista social de Gaia e mais além e, no futebol, adepto do Paços de Ferreira. Convertido por vibrar com «underdogs», atraído por clubes que fazem da superação um modo de vida.

David Bruno autointitula-se de «antropólogo da era digital, iconoclasta, olheiro de portugalidade» ou então apenas como «Um indivíduo de Gaia que faz pela vida». É por esse fio que puxamos a meada da conversa num café junto ao campo de jogos do Sporting Clube Coimbrões, clube que tem como desígnio ser «o orgulho de Gaia», um epíteto que assenta bem igualmente ao artista em nome próprio que se dá também a conhecer ao público em projetos como Conjunto Corona ou a dupla David & Miguel.

Diferentes abordagens para um dos artistas mais criativos da nova música portuguesa, autor e intérprete de temas como «Inatel» ou «Festa da Espuma» até à recente áudio-novela «Sangue e Mármore», que tem um vilão com ligações à bola: Crespo, também conhecido como «o Vítor Baía de Sandim».

David Bruno fala sobre futebol com um sorriso, conta histórias, atalha para reflexões sociais, numa conversa que, pela proximidade, teria de contrariar uma regra não escrita e fazer-nos tratar por tu.

Em Coimbrões, um exemplo da mais de uma vintena de clubes de Gaia que praticam futebol federado em todos os escalões. Centenas de atletas, dezenas de equipas. A cada esquina, um rival. Uma profusão de agremiações desportivas que faz do município mais populoso do Norte de Portugal, provavelmente, a capital mundial dos dérbis. A cada fim de semana, há vários em diferentes campeonatos.

É por isso que, tendo a população da Islândia, para «DB» «Gaia é os Balcãs do futebol». Uma divisão que soma riqueza, num sítio que «tem qualquer coisa no ar que gera pessoas especiais».

MAISFUTEBOL - Em miúdo sonhavas ser músico ou jogador de futebol?

DAVID BRUNO - Jogador de futebol não, apesar de jogar muito com os meus amigos. Pratiquei a sério karaté, mas sempre gostei da bola, como quase todos os miúdos.

Já torcias por algum clube?

A minha família é do interior, do distrito da Guarda, e eram todos benfiquistas. O meu avô era ferrenho, o meu pai não liga muito e, quando chegou a mim, eu já nem gostava de nenhum clube em particular. Gostava muito de jogar no recreio, quando cada um de nós inventava que era um jogador.

Qual era o teu?

Stoichkov.

Pela personalidade rebelde?

Por tudo. Eu adorava o Stoichkov. Na altura, não havia possibilidades. Se fosse hoje, de certeza que eu pediria ao meu pai a camisola dele do Barcelona. De resto, sempre tive uma paixão pelos clubes pequenos que fazem furor e que se safam. Daí a minha grande paixão pelo Paços de Ferreira. Tornei-me sócio na altura em que aquela equipa do Zé Mota foi à Taça UEFA.

Como surgiu essa paixão?

Começou por um amigo meu, que me convidou para ir lá ver um jogo. Gostei da proximidade do relvado, de ver os jogadores que faziam asneiras virarem-se para o banco a pedir desculpas ao Zé Mota. E depois há aquela história da casa dele ser ao lado do campo de treinos e de quando era hora de almoço a mulher vir à janela chamá-lo para almoçar. Sempre gostei muito desse tipo de clubes.

Tornaste-te sócio, portanto, muito antes de no estádio do Paços começarem a passar as tuas músicas em dias de jogo.

Sim, tornei-me sócio em 2008. Fiquei fascinado com um clube pequeno que foi pela primeira vez à UEFA. Pela história de superação. Fiquei impressionado pelo ambiente e sobretudo pela incrível a confiança das pessoas. Paços estava numa terra pequena e tinha tantos recursos, sei lá, como aqui o Coimbrões, até que alguém acreditou que podiam ser um clube de primeira, ir à UEFA, etc… E aquilo levou toda a gente atrás. As pessoas lá dão por adquirido que o Paços tem de ganhar seja contra quem for.

Essa relação com o clube estreitou-se mais recentemente?

Reaproximei-me nos últimos anos. Fiquei amigo do gestor de redes sociais do Paços, eles começaram a passar a minha música e houve um dia em que fui lá atuar no intervalo de um jogo. Além disso, vi lá o melhor jogo da minha vida.

Qual?

O Paços ganhar ao Tottenham, por 1-0, para a Liga Conferência. O ambiente era incrível, cada corte parecia um golo, o pessoal em euforia. Valeu também pelo feito. Posso dizer: «Eu já vi o Paços ganhar ao Tottenham.»

E hoje já podes dizer, como é lema do clube, «dos grandes sou do Paços»?

Dos grandes sou do Paços! Adoro lá ir. Esperemos que o Zé Mota ainda nos safe esta época.

Concordas que esse espírito de associativismo é algo que os clubes vão perdendo à medida que ganham maior dimensão?

Sim. Além disso, sempre gostei dos «underdogs», que no fundo é aquilo que eu sou como músico. Não tenho nenhuma banda, nem grandes recursos, mas tento estar na I Liga... [risos] Sempre que tenho amigos que me convidam para ir ver um clube pequeno, eu vou. Adoro esse futebol. Tenho algumas boas histórias.

Conta-nos uma.

O presidente da Junta da aldeia dos meus avós foi jogador de futebol e contou-me a história de um moço que representou a Académica nas camadas jovens e depois até chegou a jogar na I Divisão. Esse rapaz era central e tinha um problema na visão: quando olhava para cima, não conseguia ver nada por causa dos holofotes do campo. Nada! Quando ele foi treinar à Académica, disseram-lhe «tu não digas que tens esse problema! Fazes assim: ouves a bola no ar, encostas-te ao “gajo” que estás a marcar e agarras-lhe no braço. Quando ele saltar, saltas também». [risos] Ele fez a carreira toda como central! Sempre que jogava com holofotes ligados não via para cima e agarrava-se ao avançado para saltar. E foi profissional de futebol!

Como olheiro da portugalidade inspirado por Gaia nas tuas músicas reconheces aqui a importância do papel do futebol?

Aqui o futebol tem um papel social incrível. Gaia é os Balcãs do futebol!

Como assim?

Em cinco minutos de carro passamos por quatro ou cinco clubes. Coimbrões e Candal são rivais dentro da mesma freguesia – Santa Marinha. Clubes que são de lugares, que nem freguesias são, mas todos têm o seu estádio e têm uma rivalidade enorme. Não é fácil em Portugal encontrar clubes rivais dentro da mesma freguesia.

A lista de clubes federados em Gaia é interminável: Coimbrões, Candal, Vilanovense, Canidelo, Valadares, Canelas, Grijó, São Félix da Marinha…

Oliveira do Douro, Avintes, Dragões Sandinenses...

Gervide, Serzedo, Leverense, Crestuma…

Lever e Crestuma, então, esses nem se fala! Mesmo saindo de Gaia, lembro-me de perguntarem em Inglaterra ao Carlos Carvalhal qual era o maior dérbi do mundo e ele disse que era o Freamunde-Paços de Ferreira. [risos]

Porquê?

Por causa da proximidade, porque fazem parte do mesmo concelho. É uma rivalidade social, mais até do que Braga e Guimarães. Estão é em ligas diferentes. Procura na net por um vídeo de uma reportagem em Freamunde em que se pergunta às pessoas «diga-me como é viver aqui em Paços de Ferreira»… E depois vê as reações. Outra grande rivalidade aqui bem próxima é Lourosa-União de Lamas. Quando um desce de divisão, os rivais pegam num caixão e vão até ao limite da freguesia fazer o funeral do outro clube. Esta realidade é muito engraçada, desde que não se passe dos limites. Em Portugal, as pessoas têm duas religiões: são católicas e adeptas de futebol.

Voltando um pouco atrás, é interessante essa ideia de balcanização gaiense…

No outro dia, vi um artigo que dizia que Gaia era dos maiores concelhos na Europa que nunca teve uma equipa na I Divisão do seu país. Imagina o que seria haver um grande clube gaiense. Temos a população da Islândia, mas cada um tem o clube do seu sítio. Imagina agora reunificar os países da ex-Jugoslávia e juntar-lhe os jogadores que estão noutros países europeus. Era candidata ao título mundial e uma potência desportiva. À sua escala, Gaia podia ser uma potência desportiva, mas acho que isso não vai acontecer.

Como músico, afirmas que Gaia é a tua musa inspiradora. Em que é que esta cidade é diferente dos outros sítios?

Há aqui qualquer coisa no ar. Desde logo, há uma população muito grande, portanto, é normal haver mais diversidade. Mas há muitas histórias e pessoas especiais, algumas que são mediáticas: o «Ninja de Gaia», o «Diabo de Gaia», o cantor Jorge Martinez... Todos os dias há histórias. Gaia deve ser das maiores contribuintes de notícias para a CMTV. Para quem aprecia esse tipo de portugalidade, viver aqui é só ouro. É muito fácil andar aí na rua, rir-me muito e apanhar conteúdo para as minhas músicas.

No entanto, essa identidade local contrasta com o facto de fazer parte de uma grande malha urbana como é o Grande Porto.

Sim, mas como é possível dizer que um sítio com a grandeza de Gaia não tem cultura própria? Claro que tem, as pessoas é que podem não conhecer.

Regressando à música, o que se segue na tua carreira?

Nos últimos cinco anos estive sempre a fazer música. Lancei uns sete álbuns. A última coisa que eu fiz foi uma áudio-novela fora da caixa, que tem uma ligação ao futebol, porque o vilão da novela foi guarda-redes do Dragões Sandinenses: o Crespo, também conhecido como o Vítor Baía de Sandim. Isto foi inspirado num rapaz que eu conheci. A áudio-novela chama-se «Sangue e Mármore» e suscitou interesse de gente do cinema e do teatro, que são áreas às quais não tenho ligação nenhuma. Tenho uns projetos em aberto para transformar aquilo numa série e numa peça de teatro. Além disso, o que quero fazer agora é tocar ao vivo – David Bruno vai dar um concerto a 25 de novembro no Coliseu dos Recreios. Deixar de me atropelar a mim próprio e preparar o próximo lançamento e o regresso do Conjunto Corona.

Fechando com futebol, agora que está a chegar o Mundial. No último Europeu, fizeste a música «Até à Final» de apoio à seleção. Como surgiu essa ideia?

Foi um convite da Solverde. Fui gravar o vídeoclip ao estádio do Paços de Ferreira. Tenho lá umas boas fotos no banco. É uma música que fala do povo, das pequenas coisas de ser português, da gente que a seleção representa, «do tio Zé Manel que é empresário, da avó que reza o terço com o rosário, do primo Joaquim eletricista, pendurado num poste da Boavista».

«E agora quê? Agora, vamos mostrar o que é PT.»

 

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«Um café com...» senta o Maisfutebol à mesa com figuras da nossa sociedade, nomes sem ligação aparente ao desporto, a não ser a paixão. A música, a literatura, o cinema ou a política enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas.

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