Ao contrário do cabelo sintético, este produto é biodegradável, durável e pode ser facilmente penteado, tratado e pintado. Também pode ser lavado com água morna e amaciador
Durante uma visita a uma quinta local, enquanto trabalhava com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a empresária ugandesa Juliet Tumusiime apercebeu-se de que uma enorme quantidade de caules de bananeira era deitada fora após a colheita das bananas. Procurando uma forma de utilizar o desperdício, teve uma ideia de negócio inovadora.
Quase uma década depois, agora com 42 anos, Tumusiime é a diretora executiva e cofundadora da Cheveux Organique, que fabrica cabelo feito a partir de fibras de bananas, como alternativa às extensões sintéticas.
As tendências da moda entre a população mais jovem, e o aumento do poder de compra, impulsionaram o mercado de extensões de cabelo e perucas em África e no Médio Oriente, que poderá valer 710 milhões de dólares (651 milhões de euros) até 2028, de acordo com a Research and Markets.
As extensões são normalmente feitas de cabelo humano ou de materiais sintéticos, como nylon, poliéster, acrílico e PVC. Os materiais sintéticos são populares no Uganda porque são muito mais baratos, mas não são biodegradáveis nem fáceis de reciclar. Algumas pessoas queixam-se de que o cabelo sintético pode irritar o couro cabeludo e um estudo na Nigéria sobre o cabelo sintético revelou a presença de metais pesados e produtos químicos potencialmente nocivos.
"Conversei com amigos e colegas, tanto homens como mulheres, e perguntei-lhes como se desfazem do cabelo quando o tiram", diz Tumusiime. "Muitas vezes, é simplesmente deitado ao lixo. O nível de consciencialização é muito baixo - a maioria das pessoas não percebe que está a usar plástico na cabeça, o que pode irritar a pele e causar poluição.”
"A nossa missão é transformar a indústria da beleza, oferecendo alternativas que beneficiem a saúde e o ambiente. Queremos capacitar as mulheres para que tomem decisões informadas sobre o cabelo que usam e o que é melhor para elas."
Tumusiime afirma que, ao contrário do cabelo sintético, o seu produto é biodegradável, durável e pode ser facilmente penteado, tratado e pintado. Também pode ser lavado com água morna e amaciador. Quando seco, o cabelo hipoalergénico pode ser oleado e resiste a secadores e a temperaturas até 400 graus, durando mais semanas do que as alternativas sintéticas, segundo Tumusiime.
E acrescenta que, uma vez que é feito a partir de caules de bananas deitados fora, também é uma forma de ajudar a reduzir esse desperdício.
O Uganda é o maior produtor e consumidor de bananas de África, produzindo cerca de 10 milhões de toneladas de bananas por dia. Os ugandeses consomem quase um quilo do fruto por pessoa, por dia, com mais de 75% da população a depender das bananas como alimento básico, de acordo com o Fórum Económico Mundial.
A Cheveux Organique trabalha em estreita colaboração com os produtores locais de bananas, comprando os caules que, de outra forma, seriam deitados fora. Os caules são divididos e as fibras são extraídas à máquina. As fibras extraídas são depois secas e tratadas, antes de serem penteadas, o que resulta numa textura semelhante à do cabelo.
O "cabelo" é tingido em três tonalidades: preto, castanho e louro. Tumusiime explica que tem um brilho natural, é suave ao toque e pode ser usado para fazer tranças e penteados. Também é adequado para climas quentes e húmidos, observa.
A empresa não é a única a produzir cabelo à base de plantas. Nos EUA, a Rebundle, sedeada em St. Louis, também vende extensões de cabelo feitas a partir de fibras de banana, enquanto a Nourie Hair oferece uma alternativa de cabelo para entrançar, feita a partir de extrato de raiz de ginseng e alecrim.
No entanto, transformar os resíduos de banana num produto de qualidade superior não é uma tarefa isenta de desafios para a Cheveux Organique. "O processo de trabalho intensivo - desde a colheita dos caules, o seu transporte para as instalações, a extração e tratamento das fibras, bem como toda a energia necessária para o fazer - faz com que o produto se torne caro", esclarece Tumusiime.
A Cheveux Organique vende o seu cabelo à base de plantas no Uganda, bem como nos Estados Unidos, França e Reino Unido. O preço de venda é de 50 dólares (46 euros) por 150 gramas, o que, segundo Tumusiime, é mais barato do que os típicos 185 dólares (170 euros) por uma quantidade semelhante de cabelo humano. Mas o cabelo sintético pode ser comprado por apenas um dólar (92 cêntimos) por embalagem.
"Isto é algo que nos preocupa bastante, e estamos a tentar encontrar formas de mecanizar o negócio e produzir volumes de cabelo enquanto tentamos equilibrar as contas", justifica Tumusiime. "As pessoas que pagam estes preços estão a receber um produto de qualidade superior - e trata-se dos benefícios a longo prazo que este produto traz."
Tumusiime diz que a sua empresa, que emprega atualmente 25 funcionários permanentes e 100 trabalhadores a tempo parcial para a recolha de resíduos, está no processo de criação de centros regionais, que funcionarão como centros de extração, bem como pontos de educação para os jovens. Os centros darão formação às gerações futuras sobre os impactos positivos da gestão de resíduos, além de fornecerem competências aos jovens - como a extração e a operação de máquinas - preparando-os para futuras carreiras.
"Queremos garantir que esta marca será conhecida em todos os lares ", ambiciona Tumusiime. "Queremos tornar-nos líderes neste sector, apesar dos desafios. Mas sou apaixonada pelo que estou a fazer. Não estou disposta a desistir. Farei tudo o que está ao meu alcance para alcançar os meus objetivos e realizar a visão com a qual criei esta organização."