Documentos exclusivos mostram uma estratégia que consistiu em táticas de adiamento conciliadas com uma intensificação da pressão política
Novos documentos revelam que a Copa Cogeca, conhecida como o mais poderoso lobby agrícola da Europa, conseguiu atrasar, ou mesmo inviabilizar, algumas das principais reformas agrícolas da União Europeia (UE).
As informações tornadas públicas remontam a 2020, ano em que o coletivo europeu anunciou planos para reformar o setor agrícola profundamente, sobretudo devido às alterações climáticas e à crise da biodiversidade, segunfo o The Guardian.
Um plano que visava a redução para metade da utilização de pesticidas, a diminuição do consumo de carnes vermelhas e a valorização do bem-estar animal, foi bastante enfraquecido pela confederação, que entrou em ação essencialmente no ano seguinte.
A estratégia da Copa Cogeca consistiu na sua maioria em táticas de adiamento conciliadas com uma intensificação da pressão política exercida através do lobbying. “As eleições para o Parlamento Europeu realizam-se em 2024. Talvez valha a pena adiar até lá. Temos de obrigar a Comissão [Europeia] a abandonar os seus objetivos”, lê-se numa nota de setembro de 2022.
E conseguiu fazê-lo, exigindo, inicialmente, uma nova avaliação de impacto da política, que resultou num atraso de seis meses do processo legislativo. Mais tarde, o grupo classificou um relatório apresentado pelo Parlamento Europeu como “ofensivo”, respondendo com um estudo que destacava os impactos económicos das medidas.
O foco da sua ação de lobbying começou por ser a proteção do uso de pesticidas nocivos para as abelhas e do glifosato, substância que o organismo da Organização Mundial da Saúde especializado no cancro classificou como provavelmente cancerígena. O regulamento acabou por ser retirado em fevereiro de 2024, apenas alguns meses antes das eleições.
“A Copa Cogeca concentrou-se em sabotar, atrasar e, por fim, eliminar o regulamento relativo à utilização sustentável dos pesticidas. Está a agir no interesse das grandes multinacionais agroquímicas e contra o bem-estar dos pequenos e médios agricultores”, denunciou Thomas Waitz, eurodeputado austríaco do Partido Verde e membro da Comissão da Agricultura.
O lobbying também “deu frutos”, nas palavras da própria confederação, no impedimento das medidas que visavam o consumo de carnes. A Comissão Europeia terá tentado reduzir o financiamento da indústria de carne vermelha e transformada - como parte de um plano de luta contra o cancro -, mas sem sucesso.
A proposta foi encarada como uma ameaça existencial, tendo a Copa Cogeca convocado os lobbies do vinho e do álcool como aliados, cujos membros instruiu a pressionarem os respectivos governos.
Em relação à exploração pecuária intensiva, fazia parte dos objetivos europeus endurecer a legislação, mas o grupo de lobbying conseguiu enfraquecê-las mesmo antes de estas se tornarem públicas.
Um memorando interno de 2022 mostra que, depois de terem sido enviadas cartas a altos comissários, foi alcançado um aumento de 50% do limiar que define o que é uma exploração pecuária industrial, antes da publicação da proposta. Uma análise concluiu que essa alteração custou ao público 1,8 mil milhões de euros por ano em benefícios para a saúde que deixaram de ser obtidos.
A confederação prometeu ainda travar propostas que poderiam comprometer produtos de origem animal controversos, como o foie gras e as peles, tendo o secretário-geral da Copa Cogeca, Pekka Pesonen, afirmado que os defenderia “da mesma forma que o tabaco”.
Delara Burkhardt, eurodeputada alemã e membro da Comissão do Ambiente, criticou as posições do lobbying, sublinhando que “o interesse do grande agronegócio não é simplificar o Pacto Ecológico Europeu, é desmantelá-lo”.
O impacto do poderoso grupo deve-se em parte ao peso que a sua voz tem, tendo em conta que, junto dos decisores políticos da UE, representa 22 milhões de agricultores por todo o continente. A confederação chegou mesmo a ser descrita como uma autêntica “parceira” na elaboração de medidas, devido à sua dimensão.
