Um ano depois do discurso incendiário de JD Vance na Conferência de Segurança de Munique, chefes de governo, líderes empresariais e outros voltam a rumar à capital da Baviera para debater o "novo normal" nas relações transatlânticas, agora que a União Europeia já não pode contar com o tradicional parceiro norte-americano. Em entrevista à CNN Portugal, o historiador de Munique Kiran Klaus Patel diz que a conferência deste ano "talvez sirva, na melhor das hipóteses, para ganhar tempo no pior cenário" e perante fissuras expostas dentro da UE assume: "A situação continuará confusa"
O Relatório de Munique não poupa palavras no diagnóstico à atual ordem geopolítica. Publicado na terça-feira em preparação da Conferência de Segurança de Munique (CSM), a decorrer entre esta sexta e domingo naquela cidade bávara, o documento ressalta que, “mais de 80 anos após o início da sua construção, a ordem internacional pós-1945, liderada pelos EUA, está agora num processo de destruição” e que o atual presidente norte-americano, Donald Trump, é “o mais poderoso de entre aqueles que estão a destruir as regras e as instituições existentes”.
Há um ano, foi precisamente a CSM o palco onde a nova administração Trump lançou as sementes da reinvenção das relações transatlânticas que acabaria por ser oficialmente confirmada na Estratégia de Segurança Nacional e, semanas depois, na Estratégia de Defesa Nacional, da autoria de Elbridge Colby, subscretário do Departamento de Defesa para os Assuntos Políticos - e a segunda mais alta autoridade presente nos encontros deste ano a seguir a Marco Rubio, o chefe da diplomacia.
Ao contrário do que tem sido a tradição, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, não foi a Munique este ano, depois de ter sido ele a lançar as ditas sementes, com um discurso demolidor que, à data, apanhou muitos líderes de surpresa. Desde então, e depois de um último semestre particularmente "terrível", já quase nada do que vem da administração Trump apanha a União Europeia (UE) de surpresa, assume Kiran Klaus Patel, historiador especializado na história da UE e cátedra da Universidade de Munique.
"Acho que os europeus realmente entenderam que não haverá um recomeço sério das relações [transatlânticas], no sentido de que tudo estará bem novamente e de que voltaremos a ser amigos como dantes", refere à CNN Portugal a partir de Munique na véspera de a CSM arrancar. "Nesse sentido, esta conferência talvez sirva, na melhor das hipóteses, para ganhar tempo no pior cenário, evitando o caos que tivemos na última conferência de segurança."
O que diria que podemos esperar da Conferência de Segurança de Munique deste ano?
Devo dizer que consegui acompanhar as notícias um pouco menos do que gostaria, mas acho que o ponto crucial será, claro, o discurso de Marco Rubio. Será interessante ver o que ele tem a dizer, mas também não devemos levar isso muito a sério, porque ele é o ministro dos Negócios Estrangeiros, não é o presidente – e com o presidente, nunca sabemos o que ele fará em seguida.
Nesse sentido, acho que todos estão ansiosos para ouvir o que Rubio tem a dizer talvez também em vista de uma possível era pós-Trump, certo? Contudo, acho que devemos encarar isso com cautela. A ausência de qualquer grande catástrofe, por assim dizer, já será uma boa notícia, mas é uma boa notícia apenas para aquele dia, e o dia seguinte pode trazer algo novo.
Aqui nos media alemães, tem havido superlativos por toda a parte, “mais de 60 chefes de Estado e de governo”, Wolfgang Ischinger [que presidente à CSM] também a falar de uma “coisa realmente importante” e com este potencial todo... Mas, sabe, acho bem provável que daqui a 10 anos já ninguém se lembre do que aconteceu nesta conferência.
Estes encontros acontecem um ano depois de JD Vance ter feito aquele discurso completamente inesperado e completamente demolidor. Há quem veja na sua ausência, por um lado, um rebaixamento do nível da missão diplomática, por ser tradição ter o vice-presidente a presidir à comitiva norte-americana, mas por outro lado também uma oportunidade, por se considerar que Rubio é mais conciliador e menos propenso a atacar a Europa. O presidente da Finlândia acredita até que esta conferência vai servir para “recomeçar” a relação transatlântica… Como olha para tudo isto?
Em primeiro lugar, acho que os europeus realmente entenderam que o último ano, em particular o último semestre, foi terrível e que não haverá um recomeço sério dessas relações, no sentido de que tudo estará bem novamente e de que voltaremos a ser amigos como dantes. O que aí vem será algo novo, será diferente. Vimos isso também nas recentes decisões da NATO, com as mudanças não ao nível mais alto, nos órgãos de escalão mais alto, mas nos lugares imediatamente abaixo.
Então não antevê essa possibilidade de um reset como apresentada por Alexander Stubb?
Acho que podemos esperar que as discussões com Rubio levem a uma transição mais tranquila e racional para um novo cenário, com uma divisão de trabalho ligeiramente diferente e algum tipo de continuidade do que existe. Mas acho que os europeus seriam completamente ingénuos se esperassem que, mesmo que os próximos dias corram bem, tudo volte à normalidade. Então, nesse sentido, esta conferência talvez sirva, na melhor das hipóteses, para ganhar tempo no pior cenário, evitando o caos que tivemos na última conferência de segurança, como você bem disse com Vance aqui no ano passado.
Na véspera do arranque da CSM, os líderes europeus estiveram reunidos em retiro a debater caminhos e estratégias agora que a União Europeia (UE) já não pode contar com os Estados Unidos. Que rota lhe parece que nós, europeus, vamos conseguir traçar para a autossuficiência?
Acho que estamos a assistir a mudanças tectónicas também dentro da União Europeia, como, por exemplo, uma reaproximação entre Berlim e Roma a um nível nunca antes visto. Além disso, mencionaste Alex Stubb antes, o que mostra que pequenos países que nunca desempenharam um papel assim tão importante, como a Finlândia, estão a desempenhar um papel maior. E, claro, estamos a assistir ao fim, ao ocaso, por assim dizer, da presidência de Emmanuel Macron, já não é levado tão a sério como era há dois, três ou quatro anos, devido aos seus problemas de política interna, mas também porque este é basicamente o último ano de seu mandato, e fica claro que tudo o que ele diz tem menos peso do que antes.
Macron deu uma grande entrevista em antevisão da Conferência de Munique a defender, entre outras, a necessidade de a UE apostar nos eurobonds para financiar a competitividade do bloco e “desafiar” a hegemonia do dólar americano nos mercados mundiais – mas a Alemanha de Friedrich Merz continua declaradamente contra isto. O que prenunciam estas fissuras entre Paris e Berlim?
Infelizmente, a situação, ou melhor, o relacionamento entre Macron e Merz não é bom. Não acho que muitas novas iniciativas surgirão ou que irão desenvolver-se a partir dessa relação. Coisas como os eurobonds trazem-nos de volta às antigas trincheiras entre a França e a Alemanha. Não estou a dizer que seja uma má opção, é apenas evidente que todos sabem exatamente qual é a posição de cada um. Além disso, com as iniciativas francesas em matéria de políticas industriais, que, como sabemos, também geram certas reações por parte da Alemanha, pergunto-me se este não seria o momento para superarmos isso e criarmos novas iniciativas que não conduzam as pessoas aos seus velhos reflexos.
Que tipo de novas iniciativas?
O mercado de capitais é um exemplo onde, creio eu, provavelmente há mais potencial de consenso do que em questões de comércio internacional, mas também certamente em eurobonds e outras questões mais militares, no sentido estrito da palavra.
Infelizmente, sob pena de estar a soar repetitivo, a situação continuará confusa, mas acredito que haverá realinhamentos – só ainda não se sabe se serão permanentes. Mas, novamente, quem imaginaria, quando Giorgia Meloni assumiu o cargo, que ela ainda estaria aqui depois da sequência de breves mandatos dos primeiros-ministros em Itália, e que se tornaria uma figura importante na política internacional e europeia?
Dito isso, acho que também não devemos esquecer que, em certas questões, estes realinhamentos representam uma reorientação ainda maior para a direita na política europeia, seja em questões de migração e asilo, mas também em outras questões, como as ambientais. Portanto, embora se possa esperar que surjam novas alianças para enfrentar os novos desafios à escala global – e particularmente, mais uma vez, o enfraquecimento das relações transatlânticas – acho que também vemos um certo preço a pagar.
Sendo o preço a pagar esta crescente viragem à direita?
Sim. Esse preço é, para mim – esta é uma declaração normativa, obviamente, mas é esta guinada à direita defendida por Meloni e quanto à qual alguém como Merz está disposto a fazer concessões. E é interessante – Merz não é exatamente amigo de Manfred Weber [eurodeputado alemão que dirige o Partido Popular Europeu], mas Weber e a sua equipa têm vindo a preparar o terreno para esta “substituição de alianças”, por assim dizer, com a Itália há algum tempo. Nesse sentido, é interessante que algumas movimentações feitas em Bruxelas por alguns atores alemães estejam agora a concretizar-se, apesar de todas as tensões entre as pessoas envolvidas, inclusive entre as capitais.