ENTREVISTA || Vem aí um acordo comercial UE-EUA estilo "queijo suíço", com muitos buracos, na forma de isenções e exceções sectorais, mas que deixará a guerra comercial em águas de bacalhau. É esta a aposta de Mujtaba Rahman, diretor executivo do programa Europa do Eurasia Group que, um dia antes da eleição de Donald Trump, defendeu que a vitória do empresário tornado presidente dos EUA era aquilo de que a UE precisava para acordar. "Na altura toda a gente gritou comigo", recorda o analista à CNN Portugal. Mais de meio ano depois, mantém o que disse: "Trump tem sido o catalisador da UE e para a UE" e até no que toca à Ucrânia "a Europa está agora numa posição muito melhor" perante a "mudança de postura" da administração norte-americana
Com todas as reviravoltas, trocas de ameaças e adiamento de prazos, o que podemos esperar das negociações comerciais entre a União Europeia e os Estados Unidos?
Penso que estamos a caminhar para uma trégua, e por trégua quero dizer um acordo entre os europeus e os americanos que vai estabelecer uma tarifa-base na ordem dos 10% a 15% com isenções significativas. Por outras palavras, um acordo tipo “queijo suíço”, com muitos buracos, que incluirá importantes exceções sectoriais e um compromisso da administração norte-americana de que não é provável que haja mais restrições tarifárias. Isso não será totalmente possível à partida, mas haverá um sinal dos EUA para lá chegar. E suspeito que tal permitirá à UE não retaliar e dar continuidade às negociações ao longo deste terceiro trimestre.
Considerando os acordos comerciais já alcançados pela administração Trump, nomeadamente com o Canadá e com o Reino Unido, onde diria que o acordo com a UE vai situar-se? Por um lado, o Canadá foi acusado de capitular perante a chantagem dos EUA, por outro muitos analistas dizem que o Reino Unido conseguiu um acordo mais favorável às empresas britânicas do que às norte-americanas porque Trump estava ansioso para ter alguma coisa que pudesse anunciar como uma vitória…
Quando o acordo EUA-Reino Unido foi anunciado, a reação dos responsáveis da UE foi que era um desastre, que nunca na vida aceitariam aquele valor de referência… Mas agora os europeus estão desesperados por alcançar um acordo e o acordo do Reino Unido é o melhor cenário possível no atual contexto.
A questão é que é pouco provável que seja equivalente ao acordo com o Reino Unido, em parte porque Trump está ideologicamente predisposto a não gostar da UE, ele acha que a Europa é uma fortaleza comercial, que a UE é fraca, que é fundamentalmente inimiga dos interesses americanos – e quer castigar a Europa, expor a Europa, porque ideologicamente não gosta da UE, pelo que um acordo ao estilo do do Reino Unido é difícil de alcançar.
Há rumores de que a retaliação da UE pode vir a passar pelos serviços – um setor no qual, ao contrário do que acontece com o comércio de bens, os EUA registaram um excedente comercial de 76 mil milhões de dólares em 2024. É uma possibilidade realista?
A retaliação sobre as exportações de bens dos EUA para a UE demorou muito tempo a ser acordada, e retaliar tendo como alvo as exportações de serviços americanos para o mercado único europeu seria muito mais controverso. Diria que essa possibilidade está bem no topo de uma escada longa de escalada tarifária. A UE irá provavelmente encontrar um equilíbrio para taxar 21 mil milhões de euros [de bens norte-americanos exportados para o mercado único] numa primeira ronda e, posteriormente, trabalhar de forma muito gradual nos restantes 72 mil milhões de euros. Só depois disso, num período de tempo muito longo, é que a UE contemplaria taxar os serviços. Esse é um último recurso.
Paralelamente a esta guerra comercial, a UE parece estar a prestar mais atenção a outros mercados e possíveis alianças – está a tentar acelerar o acordo com o Mercosul, que está a marinar há 25 anos, está a renovar o foco no Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífico (CPTPP)... Este azedume da relação transatlântica – também considerando que o comércio UE-EUA corresponde à maior relação comercial bilateral do mundo – representa uma oportunidade para os europeus diversificarem as suas fontes de comércio?
Sim, essa é uma ótima pergunta. Os traumas causados à aliança transatlântica e, em particular, os danos causados ao comércio, representam oportunidades para a revitalização económica da UE. Há três áreas – comércio, defesa e competitividade – em que a administração Trump já criou oportunidades, e já estamos a ver isso com as despesas adicionais com a defesa ao nível nacional, com a tentativa real de consolidar a base industrial europeia, e também estamos a ver isso no comércio, com a Comissão a esforçar-se para conseguir fechar o acordo com o Mercosul até ao final deste ano.
A Comissão está a trabalhar com os franceses e com os polacos no domínio da agricultura, mas tenho a sensação de que, se essa colaboração não resultar, tentará passar por cima da França e da Polónia. Há também um novo impulso para incluir as disposições em matéria de investimento no acordo com o Canadá – para já, abrange apenas mercadorias, mas há um desejo de que passe a abranger também os investimentos. E diria que, se o acordo com o Mercosul for concluído até ao final do ano, as perspetivas de um acordo UE-Índia e de outros com os Estados do Golfo ganharão força.
No que toca à competitividade, também estamos a começar a ver a agenda avançar, com a simplificação, a consolidação da indústria da defesa e o relançamento da discussão sobre a união do mercado de capitais, que está há muito paralisada. Nada disto teria acontecido sem Trump – Trump tem sido o catalisador da UE e para a UE.
Um dia antes da eleição de Trump, assinou um artigo no Politico a defender que ter o antigo presidente de volta à Casa Branca poderia ser “a coisa certa para trazer a UE de volta ao seu objetivo”.
E na altura toda a gente gritou comigo! [risos]
Portanto, mais de meio ano depois de Trump ter tomado posse, mantém essa opinião?
Totalmente. Trump criou absolutamente uma oportunidade para Tornar a Europa Grande Outra Vez. Através das ameaças que elevou em relação à NATO, em relação à Ucrânia, em relação ao comércio, através de tudo isso, Trump forçou a Europa a pensar seriamente em formas de reforçar o seu poder comercial global. É um catalisador importante, embora o desafio em termos políticos seja difícil.
Nessa senda das oportunidades, também há quem argumente que esta guerra comercial é uma oportunidade para corrigir algumas barreiras que continuam a existir no mercado único, no comércio entre os diferentes Estados-membros da UE. Concorda?
Repare, o Relatório Draghi é a bíblia, certo? Toda a gente na Europa aceita o prognóstico, e a questão agora é saber se a Comissão pode avançar com essa agenda à luz dos constrangimentos fundamentais, dos constrangimentos políticos ao nível nacional. Mas o que já se vê, no que toca à agenda de Draghi, é que alguns elementos estão a avançar, como aqueles que já referi, nomeadamente a política industrial de defesa, e também a transição para as energias renováveis iniciada no primeiro mandato de Von Der Leyen. As áreas em que ainda estamos com dificuldades são a União dos Mercados de Capitais e as políticas tecnológicas em matéria de Inteligência Artificial – em comparação com os EUA, as startups europeias continuam a enfrentar dificuldades, mas é errado pensar que a agenda de Draghi não está a avançar.
Em março passado, no contexto do apoio à Ucrânia, escreveu que a UE tem “um problema de longa data chamado Viktor Orbán” que precisa de ser resolvido rapidamente...
Penso que ele vai perder o poder, em abril do próximo ano haverá eleições na Hungria, e é muito possível que Péter Magyar ganhe, por isso é possível que esse problema se resolva por si só; haverá possivelmente um governo minoritário e uma oposição muito bem organizada, pelo que há uma boa hipótese de grande parte do problema se resolver por si próprio. Dito isto, se não for esse o caso, é muito provável que a UE tenha de reforçar as sanções contra a Hungria e, eventualmente, ativar o artigo 7.º que suspende direitos como o direito ao voto.
Falando na Ucrânia, como olha para a mais recente ameaça de Trump, de aplicar tarifas de 100% aos países que fazem negócios com a Rússia se Moscovo não fechar um acordo de paz em 50 dias?
Todas as administrações norte-americanas precisam de aprender a lidar com a Rússia do zero e isso também se aplica à administração de Trump. Esta ideia de que os EUA são o árbitro [na guerra da Rússia contra a Ucrânia] está acabada e já ninguém acredita que existam oportunidades de negócio na normalização das relações com a Rússia. Veja-se o que aconteceu com o projeto-lei do [senador republicano] Lindsey Graham, que prevê sanções à Rússia, que está a ser apoiado pelos dois partidos e que a administração Trump está agora a considerar.
Penso que a posição de Trump em relação a Putin está a mudar, a posição desta administração em relação à Rússia e à Ucrânia está a mudar – em primeiro lugar, porque já não há vontade de normalizar as relações, dado que não há oportunidades reais de negócio e, em segundo lugar, porque há um enorme apoio político e popular [dentro dos EUA] à Ucrânia e contra a Rússia. Por isso, acho que a posição evoluiu. E isso também coloca a Europa numa posição muito melhor do que aquela em que estava há alguns meses.