Um Natal "entre o céu e o inferno". Ucranianos em Portugal preparam-se para as festividades longe de casa

Agência Lusa , AM
22 dez 2022, 09:34
Natal

Na Ucrânia, uns festejam o Natal na data ortodoxa, a 7 de janeiro, e outros na data ocidental, adotada por Kiev para "ficar mais próxima" da Europa. Este ano, a quadra natalícia faz-se com o sonho de voltar a casa, tradições e saudades

À mesa das famílias ucranianas em Portugal vão juntar-se dois países numa partilha de tradições, doces, cantigas e “orações pela paz” num Natal passado “entre o céu e o inferno” e os quatro mil quilómetros que os separam.

Anastaciia, 17 anos, Nicolas, 23, Pietri, 62 e Sofya, 82 anos, estão longe de casa. Deixaram a Ucrânia, fugiram da guerra e refugiaram-se no Norte de Portugal, no Porto e na Maia. Da Ucrânia trouxeram o sonho de lá voltar e as tradições que, "mesmo a quatro mil quilómetros de casa”, prometem cumprir.

Em conversa com a Lusa, à volta de uma mesa cheia de açúcar e canela em forma de tradições de Portugal e da Ucrânia, estes refugiados falam do Natal em Portugal e do que deixaram na Ucrânia. Na Ucrânia, uns festejam o Natal na data ortodoxa, a 7 de janeiro, e outros na data ocidental, adotada por Kiev para "ficar mais próxima" da Europa. 

“Eu festejo o Natal pelo calendário velho, a 7 de janeiro. Mas este ano vou festejar pelo daqui, de 24 para 25 de janeiro em sinal de respeito por quem me abriu a porta”, explicou Pietri, natural dos arredores de Berdyansk, uma cidade que “ora está tomada pela Rússia, ora não está”.

Sabe que a casa dele, “lá na terra”, já não existe e que as ruas, que recorda cobertas de neve por esta altura, estão diferentes: “Na minha terra o Natal é uma festa muito importante, de família. Cantamos muitos, comemos e bebemos. Acho que é assim em todo o lado. Este ano não vou ver as crianças da terra mascaradas de anjos, pastores ou reis a cantar 'Kolhadkas' pelas ruas”, diz, com a tristeza da saudade no olhar.

“É uma das nossas tradições mais bonitas”, volta a sorrir. “A nossa ceia começa com a primeira estrela no céu e acaba com o ultimo copo de vinho”, conta, enquanto a voz baila entre uma cantiga e outra. “Com a estrela chega Cristo e brindamos a ele enquanto anunciamos o seu nascimento. Kristos narodevsia”, diz, simulando com o copo de sumo o brinde que este ano não vai fazer com o “vinho de sempre”.

Comer “muito e bem” é outra tradição, lá e cá. “É a noite em que tudo vai para a mesa, carne, peixe, vegetais, poupamos muito tempo para esta ceia”, explica, enquanto o paladar da saudade enuncia o nome de alguns dos pratos tradicionais que “não podem mesmo faltar” na ceia. São eles o 'borch', 'varenyky', 'golutsi', “sempre com um belo pedaço de 'kalacth'”, uma espécie de pão.

Neste Natal em ano de guerra, Pietri vai cear com “a família portuguesa que a boa sorte” lhe deu. Já sabe que vai comer bacalhau, bolo-rei e aletria, que diz gostar muito. “Mas vai-me faltar o cheiro da minha terra”, lamenta, e perde novamente o olhar para o vazio.

Aos 23 anos, Nicolas confessa-se triste. É o primeiro Natal sem os pais, que estão na Ucrânia. Apressa-se a esclarecer que não fugiu: “Eu estava em Londres quando a invasão começou. A minha mãe fez-me prometer que não voltava e acabei por vir parar ao Porto com a ajuda de amigos portugueses que conhecia lá [em Inglaterra]”, explica.

“Vai ser um Natal triste. Vou estar entre amigos mas não vou ter o cheiro dos doces da minha mãe, nem ver as crianças a cantar. Também sinto falta da neve, nunca pensei que ia sentir falta do frio”, brinca, com os olhos postos no telemóvel onde vai percorrendo a galeria com fotografias enviadas pelos pais, amigos e pela namorada, todos na Ucrânia.

Aos 17 anos, Anastaciia, que fez os quatro mil quilómetros entre Kiev e a Maia em março, ao abrigo de uma missão humanitária da autarquia, diz-se feliz: “Para mim é diferente, vejo as coisas de outra forma, como uma oportunidade. E aqui estou em paz, mas tenho saudades de lá e de quem lá ficou”, diz, entre um bolo de batata-doce, “feito à forma de Kiev” e uma fatia de bolo de noz, também receita ucraniana.

“Eu sei como vou passar o meu Natal. Mas não sei como a minha família que está lá vai passar. Está muito frio e está tudo muito caro. Isso angustia-me”, conta.

Aos 82 anos, para Sofya a guerra não é uma novidade. “Já passei o Natal no meio de tiros e fome”, diz, com a calma e a memória que a idade dá, enquanto olha para a cara da neta, tradutora nesta conversa.

“É um inferno. Lá está um inferno, aqui estamos no céu, estamos em paz. Mas tenho lá filhos. Vai ser [um Natal] entre o céu e o inferno. Vamos rezar, vamos rezar muito”, chora.

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