Guerra com a Rússia transformou a Ucrânia numa superpotência. O país produz atualmente cerca de quatro milhões de drones por ano.Os Estados Unidos, por exemplo, não passam os 100 mil
A Ucrânia emergiu como uma das maiores potências tecnológicas militares do mundo, produzindo cerca de quatro milhões de drones por ano, segundo um relatório citado pela Bloomberg. O conflito prolongado com a Rússia transformou o país num verdadeiro centro global de inovação em veículos aéreos não tripulados (UAVs), exportando tecnologia e conhecimento para toda a Europa.
“Não é apenas a quantidade de drones, é a variedade”, afirma àquela agência o analista da RAND, Michael Bohnert. “Provavelmente mais variedades do que todos os países da NATO combinados neste momento.”
Essa mesma força ficou clara quando o presidente da Ucrânia tentou utilizá-la como trunfo. Na mais recente visita à Casa Branca, que acabou mal para Volodymyr Zelensky, o líder ucraniano sugeriu o envio de "milhares de drones" para os Estados Unidos em troca dos tão desejados Tomahawk. Donald Trump não aceitou, mas admitiu que os drones ucranianos são algo que pode interessar aos norte-americanos.
Os modelos produzidos vão desde drones de ataque de longo alcance até versões FPV (First-Person View), mais acessíveis, operadas remotamente através de câmaras a bordo. Enquanto os Estados Unidos produzem aproximadamente 100 mil drones militares por ano, a Ucrânia multiplicou essa capacidade em 40 vezes, de acordo com o Kyiv Post e com o The New York Times.
Oleksandr Hrachov, diretor da fabricante de drones TSIR, está a construir uma fábrica de drones táticos na Finlândia, em parceria com a empresa local Summa Defence Plc. “A guerra obrigou-nos a inovar mais depressa”, explica o responsável à Bloomberg, acrescentando que os drones ucranianos já passaram por três gerações de melhorias desde o ínicio da invasão em larga escala por parte da Rússia.
A nova unidade fabril integra o consórcio FlyWell, que reúne várias empresas ucranianas dedicadas a desenvolver sistemas aéreos, terrestres e marítimos capazes de atingir alvos russos até dois mil quilómetros de distância. O grupo procura angariar cerca de 50 milhões de dólares para expandir a produção na Europa e investir em novas tecnologias, como drones movidos a hidrogénio.
Segundo Jussi Holopainen, CEO da Summa Defence, a empresa já tem três protótipos prontos para a produção em massa, após testes de campo na Ucrânia. “Alguns serão fornecidos a aliados da NATO, mas a prioridade continua a ser a Ucrânia”, sublinha.
Com a corrida europeia ao rearmamento em curso, o conhecimento técnico ucraniano está a ter muita procura. Empresas como a Skyeton e a Fire Point estão a abrir fábricas na Eslováquia, Dinamarca e Reino Unido, muitas vezes com apoio direto de governos europeus.
A Dinamarca, por exemplo, destinou 500 milhões de coroas (cerca de 67 milhões de euros) para ajudar empresas ucranianas a realocar e expandir a produção. O míssil de cruzeiro ucraniano Flamingo, com alcance de três mil quilómetros, já começou a ser fabricado em território dinamarquês.
O vice primeiro-ministro Mykhailo Fedorov disse que a indústria de defesa da Ucrânia aumentou exponencialmente a produção, tendo passado de dez produtores de drones em 2022 para mais de 500 atualmente. “Não se está no mercado global de tecnologia de defesa se o seu produto não tiver sido testado na Ucrânia”, acrescentou.
A experiência em combate da Ucrânia está também a influenciar as doutrinas militares ocidentais. O secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, referiu o exemplo ucraniano ao redefinir os drones como “ativos descartáveis, como balas”, sinalizando uma mudança para a guerra em massa com drones de baixo custo.
“Os drones ucranianos são simplesmente mais capazes”, afirma o engenheiro espanhol Konrad Iturbe, que colabora com unidades ucranianas na modificação de drones comerciais, em declarações citadas pela Bloomberg. “São feitos para serem reparados no terreno e combinados com outros drones.”
Com o fim do conflito, analistas esperam que a Ucrânia se torne um parceiro estratégico central para os países da NATO e líder mundial na produção de drones acessíveis. “Vão ter as fábricas e as peças - de forma muito económica”, conclui Michael Bohnert.
Impulsionada por um contexto de guerra que já vai completar quatro anos, a Ucrânia, que continua a ser ajudada pela NATO, pode ter encontrado aqui uma forma de ser também ela uma ajuda para os seus aliados.
Olhando novamente para os Estados Unidos, a agência Reuters noticiava há poucos dias a intenção de comprar um milhão de drones. A julgar pela capacidade da Ucrânia e pelas palavras de Donald Trump depois do encontro com Volodymyr Zelensky, Kiev pode bem ser a origem de muitas das unidades.