opinião
Coordenador do Fórum Nacional de Psicologia

Psicologia em tempo de guerra. Não há um caminho para a Paz, a Paz é o caminho!

19 mar, 14:00

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

“Não há um caminho para a Paz, a Paz é o caminho!” é uma frase de Gandhi, com a qual intitulei a obra que criei para participar num conjunto de exposições coletivas, intituladas “Artistas pela Paz” (2018-21), a convite do “Conselho Português para a Paz e Cooperação” (CPPC), em colaboração com a “Peace and Art Society”.

PAZ é a palavra que mais vezes aparece nos dias a comemorar ao longo do ano. Assim, temos o Dia Mundial da Paz (1 de janeiro), o Dia Escolar da Não Violência e da Paz (30 de janeiro), o Dia Internacional do Desporto ao Serviço do Desenvolvimento e da Paz (6 de abril), o Dia Internacional dos Soldados da Paz das Nações Unidas (29 de maio), o Dia Internacional da Paz (21 de setembro), o Dia dos Jornalistas Pela Paz (27 de outubro) e o Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento (10 de novembro).

No entanto, vivemos numa sociedade cada vez mais caracterizada pela violência, entre países, entre gerações, entre géneros, etc.

Há quem diga que sempre houve violência ou guerras na história da humanidade, pelo poder, pela conquista de território, pelo desejo de posse, etc, mas o problema adicional é que os meios usados são cada vez mais mortíferos, atingindo muitos inocentes. Esta é uma questão central quando pensamos o futuro da humanidade.

Tal como as questões ambientais, as questões ligadas à paz são fundamentais para podermos pensar na vida no nosso planeta a médio/longo prazo.

Aliás, um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estipulados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a década 2020-30 intitula-se precisamente “Paz, Justiça e Instituições Eficazes” (ODS nº 16), evidenciando a importância da Paz para o desenvolvimento sustentável dos povos no planeta Terra.

Naquele que é considerado o mais antigo tratado militar do mundo, "A Arte da Guerra", escrito no século IV aC, pelo chinês Sun Tzu, é referido que a guerra pode ser o caminho para a ruína de um povo. Ao longo dos séculos, a história tem demonstrado que a ruína é precisamente o denominador comum de qualquer guerra, com destruição do tecido social, comunidades, famílias, bem como do tecido económico, provocando pobreza, migração forçada, perda de liberdade, para além da destruição de marcos culturais, artísticos e civilizacionais.

Infelizmente, isto tem sido esquecido frequentemente ao longo da história da Humanidade.

E volta a acontecer novamente, com a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Após dois anos de pandemia em que o mundo tem procurado combater a Covid-19, eis que somos confrontados com esta guerra.

Medo, raiva, ansiedade, angústia, insegurança e desânimo são algumas das emoções vivenciadas pelas pessoas do mundo inteiro, mesmo aquelas que se encontram a largos milhares de quilómetros da zona de conflito armado.

Diversos estudos revelam que a perceção de incerteza e de insegurança tem vindo a aumentar ao longo dos anos, contribuindo para um locus de controlo cada vez mais externo, com o consequente desânimo e ansiedade.

Esta situação acentuou-se com a imensa a cobertura noticiosa durante estas três semanas, quase que provocando uma imersão no ambiente de guerra, mesmo sem estar fisicamente na Ucrânia. Para além do excesso de informação, levanta-se a questão da veracidade da informação, pois somos “bombardeados” com informação e contrainformação. Há assim uma guerra híbrida, pois também ocorre no “território” dos media, em particular nas televisões e nas redes sociais.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses tem formulado vários documentos úteis para lidar com esta situação, nomeadamente “A guerra afeta-nos a todos”, “Gerir emoções e sentimentos em situação de crise” e “Dar notícias sobre a guerra. Recomendações para os Media”.

Os períodos difíceis também podem ser oportunidades para o desenvolvimento de resiliência e outras qualidades humanas positivas. Nesse sentido, esta situação também aumentou as manifestações de empatia, solidariedade, voluntariado, participação cívica, compaixão e gratidão.

Mas, para além de todas as manifestações que têm ocorrido a favor da paz, considero importante destacar uma outra faceta neste processo que diz respeito à paz consigo próprio, ao desenvolvimento da espiritualidade, pois só em paz consigo mesmo é que o ser humano consegue estar em paz com os outros. A paz está em cada um de nós e é fundamental que cada um de nós a encontre com equilíbrio e serenidade!

Esta ideia é sintetizada por Dalai Lama na frase “Só conseguiremos obter a paz no mundo exterior quando estivermos em paz com nós mesmos (...) Felicidade significa paz de espírito”.

Convém termos sempre presente que a Paz é uma conquista, não um bem adquirido. Neste sentido, é fundamental a educação para a paz, nesta sociedade em que é cada vez mais importante educar para princípios éticos universais e para valores humanistas, como sejam a honestidade e o respeito pelos outros.

A PAZ é, efetivamente, o caminho!

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