Zelensky encurralado. "A cedência de territórios será a única saída para a Ucrânia"

24 nov, 18:00
Zelensky de visita a Espanha

Analistas não veem outra solução para que se alcance a paz sem que esta "linha vermelha" seja derrubada. Assim o indica também a contraproposta alcançada em Genebra durante o fim de semana

As conversações deste fim de semana em Genebra pela paz na Ucrânia produziram “avanços significativos” para Trump, Zelensky e para a Europa, mas Moscovo já veio dizer que rejeita as alterações europeias.

Da reunião na Suíça saiu uma contraproposta ao plano dos EUA, com os mesmos 28 pontos, mas com alterações significativas e mais favoráveis ao lado ucraniano. Uma das mais polémicas é a cedência dos territórios ocupados, que a Ucrânia teria de comprometer-se a não recuperar “através de meios militares”. “As negociações sobre trocas territoriais terão início a partir da Linha de Contacto”, pode ler-se no documento da União Europeia.

Mas, já esta segunda-feira, o presidente do parlamento ucraniano, Ruslan Stefanchuk, veio avisar que as “linhas vermelhas” ucranianas se mantêm: o reconhecimento formal dos territórios ocupados, os limites às forças de defesa ucranianas e as restrições a futuras alianças do país.

Diana Soller, especialista em assuntos internacionais e comentadora da CNN Portugal, considera que nem todas essas linhas serão assim tão vermelhas. “Há algumas linhas vermelhas ucranianas que me parecem inultrapassáveis. Tais como a questão da soberania e a redução das forças armadas ucranianas. Quanto à questão territorial, já não sei se será uma linha vermelha absoluta”, diz.

“Ouvimos dizer durante toda a guerra que a União Europeia e os Estados Unidos estavam a armar a Ucrânia para ela estar mais forte na mesa das negociações. E sempre houve vozes dentro da Ucrânia sobre a cedência de território. Creio que a Ucrânia não estará totalmente intransigente nesta matéria”, acrescenta Diana Soller, sublinhando mesmo que “a cedência de territórios será a única saída para a Ucrânia”.

O tenente-general Rafael Martins, especialista em assuntos militares da CNN Portugal, concorda com Diana Soller sobre a questão da cedência de território. “Zelensky é a parte mais fraca. Especialmente quando Trump aceitou quase na totalidade aquele primeiro plano, que é um plano gizado em Miami e que algumas fontes dizem que terá sido gizado pela Rússia e depois entregue aos Estados Unidos para apresentarem ao mundo. Com a intervenção dos europeus, esse plano está a sofrer uma recalibração. Mas, ainda assim, creio que sairá um pouco melhor à Rússia do que propriamente a Ucrânia”, defende.

“Temos de ter consciência de que o lado mais frágil é o lado ucraniano-europeu, a menos que os EUA abandonem o papel de impor a paz e adotem o papel de verdadeiro mediador”, concorda Diana Soller.

A investigadora sublinha, contudo, que “a Rússia também tem as suas fragilidades, incluindo fragilidades económicas”. Mas não chegam para obrigar a Rússia a aceitar a contraproposta europeia: “Todo o comportamento até este momento indica que a Rússia é profundamente inflexível na negociação.”

Acordo implementado "antes do Natal"

Marco Rubio, secretário da Defesa dos Estados Unidos, assegurou no final das conversações em Genebra que ainda há pontos pendentes a rever no plano com a Ucrânia, mas que “nenhum deles é insuperável” e que está confiante de que se vai chegar a um acordo. “O secretário de Estado Marco Rubio diz que foi a melhor reunião de sempre. Rubio terá mais informação do que nós teremos neste momento e terá também informação daquilo que é a eventual recetividade por parte da Rússia”, adianta Rafael Martins.

“Se esta proposta calibrada pela Europa for aceite, creio que haverá aqui condições por parte de Zelensky (e os sinais têm sido dados) para que o plano seja implementado, não diria que nas próximas semanas, mas eventualmente na entrada de dezembro ou em aproximação ao Natal”, considera o tenente-general.

Esta segunda-feira, os líderes europeus, reunidos em Luanda, Angola, reuniram-se informalmente, com a Ucrânia em agenda. No final do encontro, o presidente do Conselho Europeu falou em "progressos significativos" nas negociações sobre um plano de paz para a Ucrânia e sublinhou que decisões como sanções, alargamento e congelamento de ativos têm de passar pela União Europeia. "A reunião de ontem [domingo] em Genebra, entre Estados Unidos, Ucrânia, instituições da União Europeia e seus representantes, ficou marcada por progressos significativos", disse António Costa, numa conferência de imprensa ao lado de Ursula von der Leyen.

Enquanto os líderes europeus estavam reunidos em Luanda a falar da Ucrânia, Donald Tump recorria à Truth Social para dizer que “algo de bom está a acontecer”. "Será realmente possível que estejam a ser feitos grandes progressos nas negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia??? Não acredita até ver, mas algo de bom pode estar a acontecer", escreveu.

O tenente-general Rafael Martins não tem dúvidas de que algo está a acontecer e, apesar de estar otimista de que um plano de paz possa ser implementado ainda este ano, tem algumas reservas: “A Europa chega-se à frente. Eventualmente os Estados Unidos podem recuar na sua aproximação à Rússia. Mas os Estados Unidos querem estar bem com a Europa, não querem estar propriamente mal com a Ucrânia, mas, essencialmente, querem estar de bem com a Rússia.”

“Temos agora aqui agora um período de indefinição. Enquanto a contraproposta europeia é discutida, é natural que existam, de parte a parte, bombardeamentos, lançamentos de mísseis e a intensificação das ações no terreno, inclusivamente por parte da Rússia. O que a Rússia tem feito é criar dificuldades à Ucrânia para o inverno que se aproxima”, acrescenta Rafael Martins.

O especialista em assuntos militares sublinha também que ainda há muito território que a Rússia gostaria de conquistar e fala de cidades como Pokrovsk, Kramatorsk e Sloviansk.

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