Um raro apelo público: chefes militares da Alemanha e do Reino Unido pedem "escolhas difíceis" aos europeus para reforçar a defesa face à Rússia

CNN , Brad Lendon
16 fev, 10:32
O chefe da defesa da Alemanha, General Carsten Breuer, e o chefe do Estado-Maior da Defesa do Reino Unido, Marechal do Ar Sir Richard Knighton. SIPA/Getty Images

Na última década, os Estados-membros da União Europeia já duplicaram as suas despesas com defesa, mas é necessário gastar mais, argumentaram dois chefes militares

Chefes da Defesa de dois importantes aliados dos Estados Unidos lançaram um raro apelo público para que as populações em toda a Europa apoiem aumentos significativos nas despesas com defesa, de forma a dissuadir uma possível guerra com uma Rússia cada vez mais voltada para o Ocidente.

Os mais altos responsáveis militares da Alemanha e do Reino Unido alertaram que as nações europeias “têm agora de enfrentar verdades desconfortáveis” sobre a sua segurança e fazer “escolhas difíceis” em matéria de despesa, num artigo publicado conjuntamente no The Guardian, no Reino Unido, e no Die Welt, na Alemanha.

“O reforço militar de Moscovo, combinado com a sua disposição para fazer guerra no nosso continente, como dolorosamente evidenciado na Ucrânia, representa um risco acrescido que exige a nossa atenção coletiva”, escreveram o chefe da Defesa da Alemanha, general Carsten Breuer, e o chefe do Estado-Maior da Defesa do Reino Unido, marechal do ar Sir Richard Knighton.

“As intenções de Moscovo vão além do atual conflito”, acrescentaram, defendendo que o público deve apoiar o aumento das despesas com defesa, mesmo que isso signifique que outros programas de serviços públicos - o “dividendo da paz” resultante do fim da Guerra Fria - possam ser prejudicados.

Na última década, os Estados-membros da União Europeia - da qual o Reino Unido não faz parte - já duplicaram as suas despesas com defesa, mas é necessário gastar mais, argumentaram os chefes militares.

“É claro que as ameaças que enfrentamos exigem uma mudança significativa na nossa defesa e segurança”, escreveram.

“O rearmamento não é belicismo; é a ação responsável de nações determinadas a proteger o seu povo e a preservar a paz”, afirmaram.

O artigo surge na sequência da Conferência de Segurança de Munique do fim de semana, onde o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, apelou à Europa para que assuma mais responsabilidade pela sua própria defesa, depois de durante décadas ter contado com o apoio de Washington como pilar da sua segurança.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, discursa durante a 62ª Conferência de Segurança de Munique (MSC), em Munique, Alemanha, a 14 de fevereiro de 2026. Thomar Kienzle/AFP/Getty Images

O artigo dos chefes militares assinala que os líderes da NATO já se comprometeram a gastar 5% do produto interno bruto em defesa até 2035.

“As pessoas têm de compreender as escolhas difíceis que os governos têm de fazer para reforçar a dissuasão”, escreveram os dois responsáveis.

Mas mesmo nos seus próprios países, a mensagem poderá ser difícil de vender.

Apenas cerca de 25% dos britânicos defendem o aumento de impostos para financiar a despesa com defesa ou cortes nos serviços públicos para direcionar mais verbas para armamento, segundo uma sondagem de janeiro da empresa de estudos YouGov.

Na Alemanha, apenas 24% da população é favorável ao aumento das despesas com defesa se outros programas forem prejudicados, de acordo com uma recente sondagem da Politico.

Esse público cético terá de ser convencido para alcançar um objetivo central apresentado pelos chefes militares: “uma abordagem de toda a sociedade” à defesa.

“A defesa não pode ser responsabilidade exclusiva do pessoal fardado. É uma tarefa para cada um de nós”, escreveram.

Para além do compromisso de aumentar as despesas com defesa, os chefes militares afirmaram que os seus países estão a tomar medidas concretas para melhorar a prontidão e a dissuasão, com o Reino Unido a construir seis novas fábricas de munições e a Alemanha a reposicionar tropas junto à sua fronteira oriental.

O Ministério da Defesa britânico anunciou também, durante o fim de semana, que enviará um grupo de ataque de porta-aviões liderado pelo HMS Prince of Wales para o Atlântico Norte e o Ártico este ano, “para dissuadir a agressão russa e proteger infraestruturas submarinas vitais”.

O grupo de ataque, que incluirá os caças F-35 do porta-aviões, trabalhará com forças dos Estados Unidos, europeias e canadianas durante o destacamento, indicou o ministério em comunicado.

“Este destacamento ajudará a preparar o Reino Unido para o combate, reforçará a nossa contribuição para a NATO e fortalecerá as nossas operações com aliados-chave, mantendo o Reino Unido seguro em casa e forte no estrangeiro”, afirmou o secretário da Defesa, John Healy, em comunicado.

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