Trump falou com Putin por telefone na quarta-feira e exigiu o começo imediato das negociações de paz. Só depois conversou com Zelensky
Primeiro ligou a Vladimir Putin e só depois a Volodymyr Zelensky. Donald Trump já começou a agitar as águas para meter em curso as negociações de paz na Ucrânia, mas ter ligado em primeiro lugar ao país agressor e só depois ao agredido mereceu uma crítica por parte do presidente ucraniano. Apesar de esta ordem não ser "normal", era a "expectável".
"Não seria normal no âmbito das Relações Internacionais na dimensão do eixo normativo", garante o especialista em Relações Internacionais José Filipe Pinto, explicando que estas se baseiam em três eixos - o normativo, que decorre do Direito; o economicista, ligado à Economia; e o polemológico, relacionado com a guerra.
De acordo com José Filipe Pinto, a Europa vive em torno do eixo normativo, mas os EUA, com Trump, alteraram essa ordem, pelo que já se esperava que Putin fosse a primeira pessoa na lista de contactos sobre a guerra na Ucrânia do presidente. "O regresso de Trump ao poder passou o eixo normativo para a terceira posição, colocando em primeiro lugar o eixo economicista, porque vê o Estado como uma empresa e tendo em conta o eixo polemológico que decorre da guerra", diz.
"Era expectável que Donald Trump telefonasse primeiro a Putin do que a Zelensky", continua, negando por isso que exista uma "inversão no processo", mas "o normal decurso de um processo que tem de ser interpretado no âmbito do mundo de múltiplas ordens".
Tudo se deve ao diferente "peso" que o presidente norte-americano atribui aos chefes dos dois Estados em guerra, sendo que Trump não reconhece ao homólogo ucraniano "mais do que uma autoridade decorrente da sua capacidade de resistência ao invasor" e que "nada mais tem para oferecer do que recursos naturais", enquanto reconhece a Putin "um estatuto que decorre do mundo múltiplas ordens", apesar de até agora o russo ter estado "condenado à condição de pária".
"Não sei se é normal. Em diplomacia não há coisas normais. Há iniciativas que se tomam e o presidente Trump decidiu que esta era a iniciativa que devia tomar", garante o embaixador António Martins da Cruz, questionado sobre a ordem dos telefonemas.
Trump está a cumprir com o prometido durante a campanha eleitoral, diz, e para tal "entendeu que devia entender-se diretamente com o presidente russo", lembrando que já aconteceram contactos prévios entre norte-americanos, russos e ucranianos "que não foram tornados públicos".
Também o embaixador Francisco Seixas da Costa fala de uma situação "completamente atípica": "Não é suposto que uma terceira parte se envolva no processo sem que seja feito um convite de ambas as partes. O processo está voltado do avesso".
Teoricamente, explica, num conflito surgem entidades internacionais multilateriais a intervir em prol da paz ou, a pedido das partes, um país ou um conjunto de países assumem esse papel para tentar encontrar mediação.
"Neste caso, ninguém pediu aos EUA para intervir neste processo. Os EUA, por manifestação da força objetiva no quadro internacional, entendem que têm o dever de intervir no conflito e fazem-no à sua maneira. É um momento sem precedentes", diz o comentador da CNN Portugal.
Zelensky parece não ter gostado que Trump tenha conversado em primeiro lugar a Putin. “Não vejo este telefonema como uma prioridade, uma vez que ele (Trump) falou primeiro com a Rússia. Embora não seja muito simpático de qualquer forma, porque sabemos como a sociedade ucraniana e os europeus reagem: nada sobre a Ucrânia sem a Ucrânia”, disse, em reação à Radio Free Europe/Radio Liberty na quinta-feira. De acordo com Zelensky, a prioridade de Kiev é a reunião entre a Ucrânia e os EUA, bem como o desenvolvimento de um plano “para travar Putin”. “Penso que é justo falar com os russos depois disso”, disse.
Para José Filipe Pinto, "simpático é um eufemismo". "Mostra claramente que Trump tem uma hierarquia de prioridades", diz. E, continua, Zelensky percebeu isso cedo: "Zelensky foi o primeiro a perceber a mudança da conjuntura, foi lesto a oferecer a Trump os dividendos possíveis da continuação do apoio norte-americano, teve consciência da sua fragilidade e trocou o discurso arrogante de exigência para dialogante e de exigência".
O embaixador António Martins da Cruz considera ainda que a posição ucraniana não vai ser determinante na resolução do conflito: "Nas negociações diretas entre russos e americanos, é óbvio que Zelensky vai ser ouvido, mas não terá nunca a última palavra".
Neste sentido, Francisco Seixas da Costa diz que a "Ucrânia não é um Estado independente hoje em dia", mas "um Estado dependente que não gere o seu próprio futuro, tendo em atenção que toda a sua defesa ao longo dos três anos foi feita graças ao apoio exterior".
Para António Martins da Cruz, também a Europa vai ficar fora do processo negocial: "Os europeus não foram tidos nem achados até agora". "E se continuar assim estará a Europa no final a enviar tropas para manter a segurança e passar o cheque para uma parte da reconstrução da Ucrânia", garante.
O embaixador não acredita que Trump chame a União Europeia (UE) como um todo para o processo negocial. O presidente dos EUA vai privilegiar "certamente" França e Alemanha e "talvez" a Polónia.
"A UE continua a colocar em primeiro lugar o eixo normativo, continua a falar de uma solução justa para o conflito, que não é a essência da história para resolver conflitos - é a lei do mais forte", prossegue José Filipe Pinto. Para o especialista em Relações Internacionais, isto mostra que "os líderes europeus continuam ainda presos à mundividência que saiu da Segunda Guerra Mundial".
Na quarta-feira, Donald Trump falou com Vladimir Putin por telefone. "Acordámos que as nossas equipas vão começar imediatamente as negociações", revelou Trump na sua rede social, Truth Social. Só depois é que o presidente dos EUA ligou e informou Volodymyr Zelensky da conversa.
Espera-se agora um encontro entre os líderes norte-americano e russo, que deve acontecer "num futuro não muito distante" na Arábia Saudita.