Os Estados Unidos dispõem da mais sofisticada comunidade de informações alguma vez criada. Quando o seu presidente prefere confirmar junto de Vladimir Putin uma avaliação da sua própria comunidade de informações, não está apenas a desvalorizá-la: está a enfraquecer um dos pilares do poder estratégico americano. O mais surpreendente é que esta realidade continue a gerar tão pouco escrutínio político e mediático no país
A bordo do Boeing 747-8 doado pelo Governo do Catar ao Departamento de Defesa dos EUA, mais conhecido agora como o novo Air Force One, o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) foi questionado sobre a avaliação dos serviços de informações militares ucranianos de que Moscovo tem fornecido a Teerão imagens de satélite de instalações militares americanas no Médio Oriente. Segundo essa avaliação, essas informações têm sido utilizadas com relativo sucesso em ataques que causaram danos materiais significativos e baixas entre militares norte-americanos, incluindo mortos.
Antes de irmos à resposta de Trump, importa acrescentar que os serviços de informações militares ucranianos continuam a colaborar estreitamente com os seus homólogos americanos, mas também com diversas agências de países aliados, entre as quais a Defence Intelligence e o MI6 do Reino Unido, o Serviço de Informações Militares e a Agência de Informações da Polónia, o Serviço de Contraespionagem Militar da Alemanha e os serviços de informações dos Estados Bálticos, como o Serviço de Informações Externas da Estónia. Recentemente, o presidente Emmanuel Macron afirmou publicamente que a França fornece cerca de dois terços das informações de inteligência utilizadas pela Ucrânia na guerra contra a Rússia.
Voltando ao Air Force One, ainda no ar para efeitos desta crónica, ao contrário do que é habitual no presidente dos EUA, que, quando confrontado com temas que o deixam desconfortável, tende a hesitar, confabular ou ofuscar a resposta, desta vez foi direto e inequívoco: "Vamos descobrir se isso é verdade. Vou perguntar a Putin sobre isso. Vamos descobrir." Imagine agora, caro leitor, que é um analista de informações militares ao serviço do Governo americano, sentado no Pentágono, e ouve o comandante-em-chefe das Forças Armadas dizer: "Vou perguntar a Putin sobre isso."
Se o presidente dos EUA precisa de confirmar uma informação militar de um aliado (se Trump considera a Ucrânia um aliado é uma pergunta que não vamos especular nesta crónica), não é para Moscovo que tem de ligar. Basta pedir ao diretor da comunidade de inteligência americana, Jay Clayton (agora com a infame memória de se ter recusado a dizer, múltiplas vezes, na sua audiência de confirmação no Senado as palavras “O Presidente Biden ganhou a eleição de 2020”) para essa informação fazer parte do PDB, o Presidential Daily Brief (Relatório Diário Presidencial) do dia seguinte. Esse relatório consiste de um conjunto de informação secreta elaborado pelo Gabinete do Director (ODNI), lugar agora que Clayton ocupa.
Porém, se o presidente quiser mais detalhes, ou não ficar totalmente convencido, pode solicitar informação adicional à Defense Intelligence Agency (DIA), que recorre à Measurement and Signature Intelligence (MASINT) para detetar "assinaturas", desde a telemetria de mísseis iranianos até às frequências específicas de radares russos a operar no Médio Oriente, capazes de rastrear aeronaves ou drones americanos. E, se mesmo assim quiser ir mais longe, pode recorrer à National Security Agency (NSA), que monitoriza e interceta comunicações eletrónicas à escala global, incluindo comunicações rádio de militares russos e iranianos, através da recolha de sinais COMINT (Communications Intelligence) e ELINT (Electronic Intelligence).
No entanto, esta tendência para acreditar mais em Putin do que na própria comunidade de informações americana tornou-se evidente na Cimeira de Helsínquia, a 16 de julho de 2018. Após uma reunião à porta fechada de mais de duas horas, apenas com a presença dos intérpretes (as notas da intérprete americana terão sido posteriormente recolhidas pela Casa Branca), Trump foi questionado pelo jornalista Jonathan Lemire, da Associated Press, sobre a conclusão unânime da comunidade de informações dos EUA de que a Rússia tinha interferido nas eleições presidenciais de 2016. Em resposta, o presidente dos EUA afirmou: "Tenho o Presidente Putin; ele acabou de dizer que não foi a Rússia. Tenho grande confiança no meu pessoal de inteligência, mas dir-vos-ei que o Presidente Putin foi extremamente forte e convincente na sua negação de hoje."
Num outro exemplo, em 2020, quando a comunidade de informações dos EUA concluiu que uma unidade da inteligência militar russa (GRU, Unidade 29155) tinha oferecido recompensas a militantes ligados aos Talibã para realizarem ataques fatais contra tropas americanas e da NATO no Afeganistão, Trump desvalorizou essa avaliação, afirmando que a informação "não era credível" e que não tinha sido informado porque tudo "não passava de uma invenção da imprensa". Mais tarde, quando questionado sobre se tinha abordado o assunto numa chamada telefónica com Putin, confirmou que não o fizera, optando por ignorar os alertas da comunidade de informações e dos seus comandantes militares.
Portanto, chegamos ao ponto em que a nação com a maior capacidade de recolha de informações civis e militares do mundo, com um orçamento anual superior a 100 mil milhões de dólares (de duas fontes), milhares de profissionais altamente qualificados, a tecnologia mais avançada e uma rede de influência à escala global, depende do grau de "honestidade" do presidente da Rússia para validar uma informação junto da sua congénere americana. Evidentemnte, Putin dirá, com "muita força" e "muita convicção", que Moscovo nada tem a ver com os ataques, que existem potes de ouro no fim de todos os arco-íris em Mar-a-Lago, que Trump é um "génio muito estável" e que as melhores avaliações do Kremlin demonstram que é desejado por todas as mulheres e invejado por todos os homens. Tudo isto, naturalmente, com um elevado grau de confiança.
E os EUA assim continuam. De vergonha em vergonha. De humilhação em humilhação. De derrota em derrota. O que nunca deixa de espantar o vosso cronista é que a imprensa americana não transforme isto num tema de escrutínio permanente, durante dias ou semanas, ou que o Partido Republicano, o grande baluarte do patriotismo, da liderança americana, do poder da sua máquina militar e da excelência dos seus serviços de informações, assista a tudo isto sem condenar o presidente pela sua manifesta irresponsabilidade.
