opinião
Economista, investigador e professor universitário

A Segunda Guerra Mundial e a ofensiva russa na Ucrânia

21 out, 09:00

A 17 de maio de 1943, cerca de duas dezenas de bombardeiros da RAF penetraram no espaço aéreo alemão. Segundo Albert Speer, ministro do Armamento e Produção de Guerra da Alemanha nazi, os Aliados pretendiam “paralisar o centro da nossa produção de armamento atacando barragens da bacia do Ruhr”. Os resultados dos bombardeamentos foram significativos: “A maior barragem de todas fora destruída e estava a esvaziar-se” e “a central eléctrica que ficava do lado da barragem fora apagada do mapa com toda a sua maquinaria”. Consequentemente, “a indústria ficou paralisada e o fornecimento de água à população esteve prestes a ser interrompido”.

Este acontecimento levou Speer a questionar-se: qual o motivo para a Luftwaffe não realizar também ataques pontuais e cirúrgicos que causassem efeitos devastadores? Propôs por isso a Hitler a criação de uma comissão que incluísse civis do sector industrial, com vista a identificar alvos estratégicos nos territórios inimigos. Foi então seleccionado um alvo “de grande eficácia: as centrais de energia russas”. A opção era justificada pelo seguinte motivo: ao contrário das economias ocidentais, que tinham muitas “centrais de tamanho médio”, a União Soviética possuía “centrais gigantescas em pontos concretos, em geral no centro de grandes complexos industriais” que estavam bem identificadas. Se fossem destruídas “poder-se-ia paralisar de forma permanente a indústria do aço e a de tanques e munições”, o que provocaria enormes danos na “potência combativa” dos soviéticos.

O plano acabou, no entanto, por não avançar. Não só a ofensiva russa de inverno obrigou as forças alemãs a recuar, como Hitler continuou, de forma obstinada, a pensar num futuro que lhe permitisse retomar os ataques aéreos a Londres; “o facto de que no Leste se pudessem encontrar alvos muito mais proveitosos deixava-o indiferente”, concluía Speer no seu livro intitulado Por Dentro do Terceiro Reich – Memórias (título original: Erinnerungen).

Associar este episódio da Segunda Guerra Mundial aos recentes desenvolvimentos da ofensiva russa na Ucrânia é inevitável. De acordo com Zelensky, só nos últimos dias a Rússia conseguiu destruir 30% das centrais eléctricas ucranianas recorrendo essencialmente a drones, o que provocou apagões em todo o país. São os tais ataques pontuais e cirúrgicos a alvos de grande eficácia de que Speer nos falava e que certamente estão bem identificados pelas forças russas.

Não há dúvida de que a Rússia está a tentar obliterar a indústria eléctrica do seu vizinho. Se for bem sucedida, tentará, de seguida, destruir outras indústrias importantes empenhando meios idênticos. Creio que o objectivo será mesmo parar a máquina ucraniana para posteriormente lançar uma grande ofensiva no inverno. Os próximos meses serão decisivos para o curso da guerra.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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