Putin anunciou com pompa: milícias da Síria, Chechénia e Arménia juntam-se aos russos. Que impacto é que isto vai ter na guerra? "Nenhum"

4 mar, 10:00
Vladimir Putin (AP Images/Andrei Gorshkov)

"Se tivesse o meu exército, altamente disciplinado e treinado, não iria querer esses indivíduos a combater ao lado dele. Não faz qualquer sentido", refere um especialista ouvido pela CNN. "É apenas propaganda", acrescenta um general

Num discurso dedicado ao povo russo e às tropas, Vladimir Putin anunciou esta quinta-feira que ia começar a ser apoiado por milícias da Síria, Chechénia e Arménia. O presidente russo fez ainda questão de esclarecer que as operações militares estavam "a correr conforme planeado". Verdade ou apenas propaganda?

Uma vez que Putin já perdeu a guerra na opinião pública, para o general Leonel de Carvalho isto é uma estratégia para mostrar que existem outros países que concordam com esta invasão. "É apenas propaganda, uma forma de Putin mostrar que tem pessoas noutros países que concordam com esta iniciativa e de mostrar ao mundo que não estão sozinhos. É tudo parte da propaganda russa."

Leonel Carvalho, antigo líder do Gabinete Coordenador de Segurança, sublinha que a inclusão destas milícias "não iria ter impacto nenhum" porque não têm "de maneira nenhuma a qualidade do exército russo - que, além dos elementos que tem na Ucrânia, ainda possui mais umas centenas de milhares de efetivos". "Se tivesse o meu exército, altamente disciplinado e treinado, não iria querer esses indivíduos a combater ao lado dele. Não faz qualquer sentido."

O major-general Carlos Branco, também ouvido pela CNN Portugal, acredita que Ramzan Kadyrov, presidente da Chechénia, está envolvido nesta guerra contra a Ucrânia e já demonstrou o seu apoio a Putin. "Da Chechénia são cerca de 70 mil combatentes. Mas da mesma forma que nós aqui no Ocidente estamos a apoiar a população ucraniana, eles também estão a fazer a mesma coisa".

Carlos Branco ressalva que estes apoiantes não podem ser colocados em qualquer região da Ucrânia: "Estes chechenos estão combater em Mariupol, não vão por exemplo para Kiev. Porquê? Porque são colocadas em zonas nas quais se prevê combates mais intensos". O major-general diz, ainda assim, que a Chechénia, a Síria e a Arménia "não podem ser colocadas no mesmo pé de igualdade", uma vez que "a Chechénia é uma república da Federação Russa e os outros países são independentes". "Para todos os efeitos, os chechenos é como se fossem militares russos."

Por sua vez, o general Garcia Leandro diz à CNN que é possível que Putin já esteja a contar com o apoio destes países porque, a certa altura do discurso que proferiu quinta-feira, o presidente russo deu a entender que já existiam algumas baixas. "Uma coisa que me impressionou foi o apoio aos soldados. Isto demonstra que as tropas russas estão a ter baixas. Tudo o que pode ser usado para aumentar a brutalidade de uma guerra, dadas certas condições, será usado."

Garcia Leandro lembra ainda que "as linhas de comunicação da armada russa já são excessivamente longas", algo que se consuma numa operação logística enorme com um consumo de recursos, como combustíveis, que se pode tornar incomportável. "Sobretudo porque, do outro lado, está uma população que continua a resistir e a afetar vários ataques espalhados por todo o país", acrescenta. O general considera que, com o passar do tempo, o presidente russo corre o risco de ter de lidar com a contestação interna - algo que se tem vindo a verificar com nomes como Alexei Navalny, Dmitry Muratov e Garry Kasparov a apelarem à desobediência civil e revolta interna. "Nestes regimes autocráticos, a história demonstra como isto acaba: Putin pode vir a ter um problema - a contestação interna."

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