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Primeiro é preciso "partir pedra". Chegou a vez de a UE falar com a Rússia mas ainda não é tempo de mandar alguém como Costa dialogar com Putin

21 mai, 07:00
Volodymyr Zelensky, Angela Merkel, Emmanuel Macron e Vladimir Putin em 2019 (Ludovic Marin/Pool via AP)
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Há movimentações nos corredores de Bruxelas para se retomar negociações diplomáticas diretas com a Rússia, com notícias de que estará próxima a escolha de um "enviado especial" que fale com o Kremlin em nome da Ucrânia e da UE. Mas o facto é que "há muito mais perguntas do que respostas" e falta uma "estratégia clara para esse contacto"

Passaram dez dias entre o presidente do Conselho Europeu dizer que há “potencial” para negociações diretas entre a União Europeia (UE) e a Rússia com o objetivo de pôr fim à guerra na Ucrânia e Angela Merkel deixar críticas ao bloco por não manter um canal de comunicação aberto com Moscovo. 

“A UE não está a fazer uso suficiente do seu potencial diplomático”, disse a antiga chanceler alemã esta semana, numa conferência organizada pela emissora pública WDR em Berlim. “A diplomacia sempre foi o outro lado da moeda, mesmo durante a Guerra Fria - dissuasão militar aliada à atividade diplomática, é isso que considero importante.”

As declarações foram recebidas dentro da Europa num misto de críticas e dúvidas. “Francamente, não vejo exatamente qual é que é o objetivo, e as declarações de Merkel são particularmente lamentáveis”, diz Francisco Pereira Coutinho à CNN Portugal. “Estamos a falar de alguém que teve uma política bastante apaziguadora em relação ao Kremlin, uma política energética absolutamente desastrosa para a Europa, que deixou a Alemanha numa posição de grande fragilidade no início do conflito, e que não antecipou aquilo que Vladimir Putin verdadeiramente queria - para além de que o próprio Putin acha que foi enganado por Merkel em 2014 e 2015, com os acordos de Minsk, acha que foram feitos para que os ucranianos pudessem rearmar-se, e que, em 2022, isso lhes permitiu responder à agressão da Rússia”, considera o especialista em Direito Internacional.

Mais de quatro anos depois da invasão russa em larga escala, e com a guerra ainda sem fim à vista, a UE admite cada vez mais a possibilidade de falar diretamente com Moscovo. Há uma reflexão interna em curso que se intensificou nos corredores de Bruxelas no último mês - e no domingo passado, foi o próprio presidente da Ucrânia que apelou publicamente aos europeus para que nomeiem um enviado especial para as negociações de paz.

“É importante que [a UE] tenha uma voz e uma presença fortes neste processo, e vale a pena definir quem representará especificamente a Europa”, disse Volodymyr Zelensky após falar com o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Um dia depois, Merkel defendeu a retomada da diplomacia UE-Kremlin sob o argumento de que é “insuficiente” que as negociações sejam deixadas exclusivamente nas mãos dos EUA, até porque não se sabe o nível de cedências que Donald Trump pode fazer a Vladimir Putin. “Nós também somos alguém, como europeus. Subestimar Putin seria um erro, mesmo agora. E não ter confiança em nós mesmos seria um erro igualmente grande.”

Para os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, a questão nada tem que ver com autoconfiança, antes com o facto de que, pelo menos de momento, há baixíssimas hipóteses de conversações diretas conduzirem a algum tipo de sucesso. “É sempre bom haver conversas, diálogos, contactos, para se perceber o posicionamento e as linhas vermelhas, perceber o outro lado, qual a margem negocial possível e quais os objetivos do adversário”, concede Marta Mucznik, do International Crisis Group. “Mas a grande questão que se deve colocar é: está a Rússia pronta para negociar em termos mais compatíveis com os europeus? O facto é que não há indicação de que a Rússia esteja pronta para se desviar da sua posição maximalista.”

“Não há nada de mal em haver esse tipo de iniciativas, [mas] acho que são bastante inúteis”, acrescenta Pereira Coutinho. “Não podemos ser contra a abertura de canais diplomáticos mas, francamente, não vejo que tipo de avanço se poderá alcançar neste momento.” De resto, a única abertura que Vladimir Putin deu para negociações com a Europa invocou o nome de Gerhard Schröder, antigo chanceler da Alemanha que tem uma posição demasiado próxima do Kremlin para que em Bruxelas possa ser considerado como uma opção viável.

"Faz todo o sentido a UE fazer parte de uma conversa, mas isso não tem nada a ver com substituir-se aos EUA, o próprio Zelensky já o disse, e também Costa - que qualquer contacto que haja não vai interferir com o canal entre EUA e Rússia", diz Marta Mucznik, do International Crisis Group (EPA)

O melhor momento?

Não será uma coincidência que estas movimentações para reavivar os esforços diplomáticos estejam a ter lugar num momento de grandes conquistas ucranianas no campo de batalha. No último fim de semana, drones de longo alcance chegaram à região da capital russa e concretizaram o maior ataque da Ucrânia à Rússia em mais de um ano, reforçando a ideia de que Kiev está a conseguir virar o tabuleiro do jogo, algo que também se comprova com os dados que têm chegado do terreno.

“Neste momento, aparentemente, a Ucrânia está numa posição surpreendentemente muito favorável e, em teoria, sim, este é um momento melhor para negociar - mais vale negociar numa posição mais favorável do que numa posição muito desfavorável como a do ano passado”, aponta Pereira Coutinho. “Mas a questão tem sempre a ver com o outro lado, com o Kremlin, com Putin, que disse recentemente que isto deveria chegar ao fim mas que, entretanto, não dá nenhum tipo de sinais de que esteja aberto a qualquer tipo de negociações.”

No início do mês, Oleg Ignatov, especialista em assuntos da Rússia, já tinha ressaltado à CNN Portugal que “os dirigentes russos subestimaram a rapidez com que a Ucrânia, com a ajuda europeia, conseguiu aumentar a produção de drones de longo alcance”, referindo que, “embora as capacidades de longo alcance da Rússia ainda superem as da Ucrânia, o facto é que a Rússia começou a sentir as consequências da guerra de forma mais aguda”.

Os mais recentes ataques ucranianos vieram reforçar essa ideia, demonstrando novas tendências no campo de batalha às quais se juntou uma declaração reveladora da administração norte-americana esta semana, assim que Donald Trump regressou da sua visita oficial à China. Segundo o presidente dos EUA, durante a sua viagem o líder chinês, Xi Jinping, terá concedido que Putin vai “arrepender-se de ter invadido a Ucrânia” - uma informação que Pequim desmentiu de imediato, na véspera de Vladimir Putin também viajar até Pequim.

“Provavelmente isso terá acontecido, é muito provável, e isto é Trump a ser Trump, é termos conversas privadas que normalmente não seriam divulgadas à imprensa mas que ele resolve divulgar”, diz Francisco Pereira Coutinho. “Acredito que Xi tenha dito isso, até é estranho que só agora, quatro anos depois, é que os chineses acham que isto não foi uma boa ideia - acho que toda a gente já sabe isto.”

Para analistas como Brett McGurk, isto abre uma nova frente diplomática que os EUA podem e devem aproveitar após uma série de tentativas falhadas para resolver a guerra na Ucrânia. E para vários líderes e ex-líderes europeus, como Costa e Merkel, estamos diante de uma oportunidade de ouro para a UE assumir as rédeas das negociações, ainda que não em substituição dos norte-americanos.

“Acho que há uma certa confusão no debate, porque a UE nunca iria desempenhar um papel de facilitador e mediador, porque no fundo é uma parte envolvida no conflito”, refere Marta Mucznik. “Convém que esteja representada na mesa de negociações quando acontecerem, porque grande parte da alavancagem é da UE, no que toca ao alívio de sanções, aos ativos russos congelados, faz todo o sentido a UE fazer parte de uma conversa, mas isso não tem nada a ver com substituir-se aos EUA”, adianta a especialista do Crisis Group. “Isso o próprio Zelensky já disse, e também Costa - que qualquer contacto que haja não vai interferir com o canal entre EUA e Rússia.”

Alguns dos nomes apontados pelos media ao cargo de enviado especial da UE para negociações com a Rússia são Mário Draghi, ex-primeiro-ministro italiano, e Angela Merkel, ex-chanceler alemã. foto Andrew Medichini/AP

O problema é que, mais do que nunca, a guerra na Ucrânia parece ter saído definitivamente da lista de prioridades da administração norte-americana, até porque os Estados Unidos se envolveram numa outra guerra da qual estão a ter dificuldades em sair. Depois dos esforços encetados por Washington em 2025, ressalta Pereira Coutinho, “este ano os EUA e Donald Trump estão interessados num outro tipo de conflitos, primeiro na Venezuela, agora no Irão, e portanto Trump distraiu-se completamente da questão ucraniana, também porque percebeu que não tinha capacidades - nem mais capacidade de pressão sobre a Ucrânia para além daquela que tinha feito, nem qualquer tipo de capacidade de pressão sobre a Rússia”.

"Sem grande esperança"

Por agora parece improvável que os EUA venham a retomar os esforços para mediar uma solução para a Ucrânia e é também por isso, acredita Francisco Pereira Coutinho, que estamos a assistir a “esta retórica”. “Os Estados Unidos estavam a desempenhar este papel, desistiram. Em 2025, parecia que podia haver uma solução para o conflito e agora a ideia é que se calhar devíamos manter este processo, mas com expectativas muito baixas.”

O facto é que os europeus não são a parte indicada para conduzir um processo negocial, diz o especialista. “Os EUA conseguem ser mediadores, ainda que não muito bons, mas nós de certeza que não somos, porque estamos de um lado, do lado da Ucrânia, e estamos basicamente a mediar o quê? Ou vamos negociar em nome da Ucrânia? Só se a Ucrânia nos mandatar para fazer isso.”

É aqui que entra a discussão em curso sobre quem poderia ser o “enviado especial” da UE para contactos diplomáticos com o Kremlin, algo que tem até tem vindo a acontecer por parte de alguns Estados-membros, como quando França enviou Emmanuel Bonne, conselheiro de Macron, para se encontrar com um dos principais conselheiros de Putin, Yuri Ushakov, em fevereiro - o primeiro contacto direto entre Paris e Moscovo desde 2019.

“Esses contactos existem e nada impede a UE de ter contacto direto com o Kremlin, tal como também tem contactos com os iranianos e os chineses - mas se calhar era mais sensato começar por um nível mais baixo, não ao nível de Costa ou de outro líder nomeado enviado especial”, defende Marta Mucznik. Uma das hipóteses é Alexander Stubb, o presidente da Finlândia que também já veio defender que “é hora de começar a falar com Putin”. Outros nomes sob análise, como o Financial Times noticiou em exclusivo, são o tecnocrata italiano Mario Draghi e a própria Merkel, que na mesma conferência do início da semana rejeitou liminarmente esse papel.

Numa conferência na segunda-feira, Merkel - aqui fotografada com Putin em 2007 - criticou a UE por não estar a dialogar diretamente com o Kremlin, mas rejeitou a possibilidade de vir a mediar negociações com os russos em nome dos europeus e dos ucranianos. foto Getty Images

Para a analista do Crisis Group, a UE está focada na decisão errada. “A discussão que se coloca agora é se deve haver um enviado especial para contactos com a Rússia com vista a um processo de paz, mas se calhar antes disso era melhor ter um contacto mais ao nível dos chefes de gabinete, para, digamos, partir pedra e manter canais de diálogo aberto.”

“Mais importante do que ter um enviado especial”, defende Mucznik, “é definir qual é a mensagem que queremos transmitir - e, neste momento, não há consenso nem clareza sobre a mensagem nem sobre a base da conversa, há muito mais perguntas do que respostas, e essa é a grande questão, não há uma estratégia clara para esse contacto.”

E qual poderia ser a mensagem? Francisco Pereira Coutinho aponta para o modelo dos Acordos de Minsk, negociados por Merkel e François Hollande após a anexação russa da Crimeia, para travar o avanço do conflito no leste da Ucrânia. “É verdade que, em 2014 e 2015, foram o presidente francês e a chanceler alemã que foram negociar com a Rússia e conseguiram-se os acordos de Minsk. E agora teria de ser uma solução desse tipo e teriam de ser líderes como Merkel e Macron a falar diretamente em nome de toda a Europa, em articulação com a Ucrânia – só que para isso seria necessário que os russos dessem o sinal de que podemos ter exigências razoáveis.”

É também por isso que Pereira Coutinho não arrisca prognósticos de sucesso por agora. “Acho que tudo isto são ideias que podemos lançar, mas que não trazem grande esperança, pelas dúvidas todas que debatemos. Como é que efetivamos isto? Quem é que nos vai representar? Há de facto várias dimensões que são difíceis de descortinar.”

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