"Hoje tivemos um dia muito difícil. Mostrou-nos que isto não é uma guerra, é um massacre da população ucraniana"

1 mar 2022, 08:20
Destroços de veículos militares russos em Kharkiv, Ucrânia (AP Photo/Vadim Ghirda)

Sirenes voltaram a tocar durante a madrugada. Morreram civis, incluindo crianças, vítimas de um bombardeamento de elevada dimensão em Kharkiv. A cidade de Kherson ficou cercada, mas a resistência conseguiu travar novamente o avanço das tropas russas em Kiev

Desde o início da invasão da Rússia à Ucrânia, um total de 113 mísseis Iskander e Caliber, operacionais e tácticos, atingiram cidades e aldeias ucranianas, de acordo com um comunicado do Ministério da Defesa de Kiev. Os mísseis tanto foram disparados de terra, como de mar. Durante a madrugada, "vários" desses mísseis provocaram a morte de pelo menos 10 civis em Kharkiv - a segunda maior cidade da Ucrânia -, incluindo três crianças, de acordo com uma nota do presidente da câmara Ihor Terekhov. "Hoje tivemos um dia muito difícil. Mostrou-nos que isto não é uma guerra, é um massacre da população ucraniana", disse Terekhov na sua conta oficial de Telegram.

Os mísseis atingiram prédios residenciais, "matando e ferindo vários civis". Quatro pessoas morreram quando saíram do abrigo para procurar água. Uma família de dois adultos e três crianças morreu dentro de um carro. Pelo menos 37 pessoas ficaram feridas. Este ataque ocorreu sob o olhar do Ocidente, que avançou com volumosas sanções económicas contra a Rússia, provocando uma desvalorização do rublo, que aos dias de hoje vale 0,0085 euros.

Pouco depois dos bombardeamentos em Kharkiv, o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da Ucrânia fez uma atualização sobre a sexta noite de combates no país, sublinhando que as forças russas "quase esgotaram o seu potencial ofensivo". "Embora o ocupante continue a infligir fogo em instalações militares e civis ucranianas e a realizar missões de reconhecimento aéreas a partir da Bielorrússia, o inimigo não teve sucesso em nenhuma direção. Obrigado aos militares ucranianos por impedirem o inimigo!", escreveu.

Já na durante a manhã desta terça-feira, um ataque aéreo perto de um edifício da administração local de Kharkiv provocou danos avultados. O vídeo do momento da explosão foi partilhado nas redes sociais pelo Kyiv Independent e pelo Kyiv Post.

 

Cerco a Kherson, batalha nos céus de Vasilkov e Brovary

Outro dos desenvolvimentos mais importantes da madrugada foi vivido em Kherson, a cidade-fortaleza do Mar Negro fundada pela imperatriz russa Catarina, a Grande, em 1778, que foi palco de um ataque de grande escala por parte das forças de Putin, que há seis dias que conduzem uma invasão sem precedentes na Ucrânia. A cidade, com perto de 300 mil habitantes, foi cercada durante a madrugada por tropas russas que estabeleceram postos de controlo em todos os seus acessos, de acordo com o autarca Igor Kolykhayev. 

 

 

A cerca de 500 quilómetros a Norte, a neve pintou a capital de branco, que acordou novamente ao som das sirenes. Durante a noite, pelo menos 70 soldados ucranianos foram mortos depois de a artilharia russa ter atingido uma base militar em Okhtyrka, uma cidade entre Kharkiv e Kiev, escreveu o vice-ministro da Infraestrutura da Ucrânia na sua conta oficial no Telegram, alertando também para a destruição de um prédio de quatro andares.

No entanto, nas últimas 24 horas, os militares russos não fizeram mais nenhum avanço significativo em Kiev, onde, nos arredores e de acordo com o Ministério da Defesa, um sistema de mísseis antiaéreos Buk M-1 derrubou um míssil de cruzeiro e um helicóptero inimigo. 

Nas últimas horas, o aviso de raide soou também em Ternopil, Vinnytsia and Volyn, ao mesmo tempo em que intensos confrontos entre a Força Aérea ucraniana e a Força Aérea da Federação Russa decorriam em Vasilkov e Brovary. Segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, pilotos de caça ucranianos interceptaram e incapacitaram cinco aeronaves russas, assistidos pelas divisões de mísseis antiaéreos S-300.

 

 

Segundo os serviços secretos britânicos, citados pela Reuters, as forças de Putin não conseguiram tomar o controlo do espaço aéreo ucraniano, forçando-os a alterar a estratégia e a aumentar as operações durante a noite para evitar mais perdas. De facto, a invasão à Ucrânia não está a correr como Putin havia previsto, especialmente em termos de gestão do tempo, de acordo com um briefing do Governo dos EUA, que sublinha que falhas na logística e de equipamento militar atrasaram os planos do Kremlin.

De acordo com o senador norte-americano Chris Murphy, que revelou alguns conteúdos do briefing, existe a "confirmação de que os russos ficaram para trás na sua linha do tempo. A resistência ucraniana tem sido feroz e houve várias falhas de equipamentos e logística russos".  

Também um cidadão israelita foi morto pelas forças militares ucranianas, enquanto tentava fugir de Kiev, relata o The Jerusalem Post, que cita fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros, indicando que o civil foi confundido com militares chechenos.

O primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, enviou condolências à família da vítima durante a noite de segunda-feira. “Em nome de todos os cidadãos de Israel, quero enviar as minhas condolências à sua esposa, aos seus filhos e à sua família em Israel e na Ucrânia”, disse, acrescentando que “continuará a fazer tudo o que pode para ajudar os israelitas a voltar para casa.”

 

 

Além disso, o mesmo jornal reporta, citando fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, que um ucraniano com nacionalidade israelita foi feito prisioneiro depois de a Marinha Russa ter interceptado um navio de carga ucraniano, no qual se encontrava. 

Nova onda de tropas e uma coluna militar com mais de 60 quilómetros

Um dos desenvolvimentos principais da noite foi a revelação de imagens de satélite que mostram um longa coluna militar russa a caminho de Kiev. De acordo com a empresa norte-americana Maxar, este comboio armado tem cerca de 64 quilómetros, uma distância semelhante àquela verificada, em linha reta, entre Porto e Aveiro.

As imagens chegaram ao governo de Biden e várias fontes da Casa Branca afirmaram à CNN que estavam preocupados com a dimensão da coluna militar e estavam a segui-la de perto. As autoridades dos Estados Unidos revelaram também que uma segunda onda de tropas russas chegará em breve à Ucrânia e “provavelmente será capaz de superar a resistência ucraniana”, de acordo com um briefing nesta segunda-feira.

Por outro lado, a agência Interfax também avançou durante a madrugada que militares russos posicionados no extremo Leste do país vão efectuar exercícios próximos do maior rio da Europa, o rio Volga -  a 100 km do Mar Cáspio.

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