O que se sabe sobre o súbito abandono russo de Chernobyl

1 abr, 06:21
A central desativada de Chernobyl foi tomada pelas forças russas no início da invasão da Ucrânia

Já não há russos na central nuclear, depois de uma fuga apressada das tropas invasoras, que escavaram trincheiras em solos que continuam contaminados. Para trás ficou um rasto de pilhagem e destruição. E há muita especulação sobre militares russos alegadamente expostos a radiação

 


É oficial: já não há tropas russas na central nuclear desativada de Chernobyl. A confirmação foi dada ao final de quinta-feira pela agência estatal da Ucrânia responsável pela Zona de Exclusão de Chernobyl. A Energoatom publicou uma atualização revelando que todos os russos abandonaram o local, e que o controlo da central voltou a estar nas mãos dos responsáveis e técnicos ucranianos. 

De acordo com o pessoal da central nuclear, não há atualmente no local pessoas de fora da equipa de Chernobyl. As forças de ocupação russas também abandonaram a cidade satélite de Slavutych.

Mas a agência estatal ucraniana vai mais longe, informando que as tropas russas começaram a abandonar a central nuclear de Chernobyl após os seus soldados terem contraído "doses significativas" de radiação devido à escavação de trincheiras em locais altamente contaminados à volta da central. 

A Energoatom confirmou a informação que já circulava desde os primeiros dias da ocupação russa: que as tropas de Moscovo escavaram trincheiras na chamada Floresta Vermelha, que fica dentro da Zona de Exclusão criada em redor da central agora fechada.

"É de notar que a informação sobre fortificações e trincheiras que os [russos] construíram mesmo na Floresta Vermelha, a mais poluída de toda a Zona de Exclusão, também foi confirmada", escreveu a Energoatom numa mensagem na rede social Telegram. “Portanto”, continua essa mensagem, “não é surpreendente que os ocupantes tenham recebido doses significativas de radiação e tenham entrado em pânico ao primeiro sinal de doença. E manifestou-se muito rapidamente".

 

Pilhagem, roubo e destruição

 

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) está a acompanhar a situação, mas até ao momento diz não ter informação que permita confirmar os relatos de que militares russos tenham estado expostos a doses elevadas de radiação. A AIEA comunicou que “está a procurar mais informações a fim de fornecer uma avaliação independente da situação".

O que parece seguro é que o apressado abandono russo, que começou na terça-feira passada e foi formalizado na quinta-feira, não aconteceu sem que antes os ocupantes tenham roubado, pilhado e destruído tudo aquilo a que puderam deitar mão.

Yevhen Kramarenko, chefe da Agência Estatal de Gestão da Zona de Exclusão, denunciou que os ocupantes roubaram computadores, chaleiras, cafeteiras e contentores com diversos bens que ainda estavam na central nuclear. Num hotel perto da central nuclear foram roubados utensílios de cozinha, como garfos, colheres e conjuntos de mesa.

Segundo o seu relato, os russos começaram a retirar pessoal e equipamento na terça-feira e, na manhã de 31 de Março, um comandante militar chamado Yakushev propôs que fosse assinada uma declaração de devolução da central nuclear aos ucranianos. “Se isso não acontecesse, eles levariam os nossos empregados para a Bielorrússia. Na verdade, o acto foi assinado sob coação.” Depois de assinada a transferência da responsabilidade, “os soldados [russos] começaram a pilhar, a tirar coisas, a embalar o equipamento que ainda restava no local, e a partir", disse Kramarenko, citado pela comunicação social ucraniana.

"Eles assinaram um acto de entrega da central nuclear de Chernobyl, que declara que guardaram a estação a partir do dia 24. Foram todos alinhados em duas colunas e foram para a Bielorússia", relatou Leonid Oliynyk, chefe do centro de imprensa da Energoatom.

Durante horas, os funcionários da central nuclear não saíram das salas de controlo e dos escritórios. Só quando se perceberam que tudo estava muito sossegado foram explorar o que se passava nas instalações.

Apesar do roubo e das pilhagens, todos os indicadores da central nuclear estão, à primeira vista, normais, e não são visíveis danos significativos na infraestrutura de Chernobyl. "Mas precisamos de ter a certeza”, disse o responsável da Zona de Exclusão, confirmando o envio de técnicos específicos para verificar o estado de todas as instalações. 

Os sensores de nível de radiação não funcionam e não estão a transmitir informações ao sistema geral, conforme já havia sido comunicado ainda durante a ocupação russa. “Não é claro porque é que não está a transmitir. Talvez o próprio equipamento tenha sido removido, ou talvez apenas desligado. Saberemos mais tarde", disse Kramarenko. Os níveis de radiação têm sido verificados manualmente e não há registo de excessos.

 

Especulação sobre soldados contaminados

 

O conselheiro do ministro do Interior da Ucrânia, Vadim Denisenko, disse que o pânico começou entre os russos devido à radiação. "Muitas pessoas foram contaminadas quando estavam a cavar trincheiras e penso que houve pânico entre este contingente", disse o responsável governamental.

O sistema de monitorização do nível de poluição por radiação na central nuclear não estava a funcionar há 5 dias e, devido à falta de pessoal, os técnicos ucranianos já se tinham recusado a reparar e manter o equipamento da central, alegando fadiga física e psicológica.

Quanto aos ocupantes russos, não usavam equipamento protetor adequado, apesar das colunas de veículos e dos trabalhos de escavação que terão levantado poeiras contaminadas.

Há notícias não confirmadas sobre uma coluna de sete autocarros que teriam retirado para um hospital bielorruso militares russos com sintomas de contaminação, mas não há informação fidedigna sobre o que realmente terá acontecido aos soldados ocupantes. 

Edwin Lyman, um perito nuclear da União de Cientistas Preocupados, com sede nos EUA, disse à Associated Press que "parece improvável" que um grande número de tropas venha a desenvolver doença grave provocada por radiação, mas que é impossível ter a certeza nesta fase.

Segundo este perito, o material contaminado foi provavelmente enterrado ou coberto com uma camada de solo durante a limpeza de Chernobyl, e alguns soldados podem ter sido expostos a "pontos quentes" de radiação durante a escavação de trincheiras. Outros podem ter presumido que estavam em risco, causando pânico.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, referiu por várias vezes os riscos das atividade russas na Zona de Exclusão de Chernobyl. Para além de terem escavado trincheiras, as tropas de Moscovo movimentaram grandes colunas de veículos na Floresta Vermelha, onde concentraram bastante armamento, na esperança de que a sua localização delicada inibisse qualquer tipo de ataque.

"Serão necessários anos depois das tropas russas deixarem a Ucrânia para investigar os danos que causaram a Chernobyl. Que locais de eliminação de materiais radioativos foram danificados. E como o pó radioativo se espalhou no planeta", alertou Zelensky na semana passada, ao discursar perante o Parlamento do Japão.
 

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