"Ninguém estava aqui hoje para discutir um cessar-fogo". Os temas que Kuleba e Lavrov discutiram

10 mar, 11:39

Terminou sem acordo o primeiro encontro, cara a cara, do ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano com o homólogo russo, na Turquia. Dmytro Kuleba e Sergey Lavrov não chegaram a um acordo sobre o corredor humanitário em Mariupol, que tem sido intensamente bombardeada desde o início da invasão e onde, segundo fontes governamentais ucranianas, já morreram mais de mil civis, nem sobre um possível cessar-fogo durante 24 horas

Encontro entre Putin e Zelensky

O presidente russo, Vladimir Putin, não recusa a possibilidade de se reunir pessoalmente com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, no final da reunião com o homólogo ucraniano, citado pela CNN.

“Putin não recusa encontrar-se com Zelensky. Mas para isso acontecer temos de fazer algum trabalho preparatório. (...) O presidente Putin nunca recusa um encontro pessoal. Estamos sempre inclinados para encontros pessoais desde que consigamos alcançar alguma coisa”.

No entanto, Lavrov diz que esse encontro não será feito na presença de câmaras de televisão.

Recorde-se que Zelensky tinha desafiado Putin a encontrar-se com ele, porque seria a “única forma de parar a guerra”.

Cessar-fogo

"Ninguém estava aqui hoje para discutir um cessar-fogo".

As palavras são de Sergey Lavrov que, segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano,  "não se comprometeu, uma vez que parece que há outros decisores para este assunto na Rússia”.

"O meu entendimento é que, neste momento, a Rússia não está em posição para estabelecer cessar-fogo", afirmou Dmytro Kuleba. Segundo o MNE ucraniano, a ampla narrativa de Lavrov foi de que a Rússia continuará com a agressão até que a Ucrânia se renda.

Para o ministro ucraniano, este parece ser o único item da lista de exigências da Rússia: que o país vizinho se renda. Por sua vez, Sergey Lavrov diz que a Rússia não tem planos para interromper o ataque à Ucrânia, apesar de dizer que se trata de uma operação militar.

“A operação militar especial vai continuar e está a acontecer de acordo com o plano. (...) Não atacámos a Ucrânia. Explicámos muitas vezes que havia uma situação que colocava ameaças à Federação Russa”, afirmou Lavrov.

Mariupol

Em declarações aos jornalistas após a reunião, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano disse que a situação mais difícil na Ucrânia é em Mariupol, mas que Sergey Lavrov também "não se comprometeu" com um corredor humanitário na região onde um hospital pediátrico foi bombardeado esta quinta-feira.

“Fiz o meu melhor para, pelo menos, encontrar uma solução diplomática para a tragédia humanitária que se está a desenrolar no terreno de combate e nas cidades cercadas. A situação mais trágica é, atualmente, Mariupol, no Mar de Azov. A cidade está a ser bombardeada pelo ar, atingida por fogo de artilharia. Vim aqui com um propósito humanitário de implementar um corredor humanitário de e para Mariupol. De Mariupol para os civis que querem fugir desta área de medo e combate, e um corredor humanitário para levar para Mariupol ajuda humanitária. Infelizmente, o ministro Lavrov não estava em posição de se comprometer com isto, mas vai corresponder-se com as autoridades correspondentes sobre este assunto", afirmou Dmytro Kuleba.

Por sua vez, o ministro russo voltou a afirmar que a informação que a Rússia tinha era a de que o hospital pediátrico estava a ser usado como base militar, depois das mães e das crianças terem sido retiradas do local.

"O hospital já estava sob controlo dos radicais ucranianos e não havia pacientes lá. A imprensa ocidental não contou os dois lados sobre esta história", afirmou Lavrov. 

A posição do Ocidente

Para o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, o "Ocidente causou este conflito ao forçar a Ucrânia a escolher entre a Rússia e o Ocidente" e tem-se "comportado perigosamente", incluindo a União Europeia, "que violou os seus princípios e valores" ao entregar armas à Ucrânia

O governante russo garantiu também que "as operações militares na Ucrânia estão a decorrer como planeado" e que Moscovo continua à espera de uma resposta de Kiev às suas exigências: a Rússia quer que a Ucrânia seja neutral e desmilitarizada.

Quanto ao futuro, o representante do Kremlin disse que a Rússia vai sair desta crise com "visões atualizadas do mundo" e "sem qualquer ilusão sobre o Ocidente".

O ministro russo disse ainda que a Rússia tentará nunca mais ser dependente do Ocidente e que vão suportar a crise gerada pelo conflito.

Quanto à questão da Ucrânia se juntar à NATO, o MNE da Ucrânia diz que isso "não acontecerá em breve ou num futuro próximo", porque esta "não está pronta para atuar coletivamente para parar a guerra".

Nova reunião

Apesar da falta de entendimento, o ministro ucraniano mostrou-se disponível para continuar o diálogo, com vista a parar com a guerra. No entanto, deixou o aviso de que a guerra só é possível parar se ambas as partes assim o quiserem e que a Ucrânia não está preparada para se render perante o invasor.

"Não conseguimos parar a guerra se o lado agressor não o deseja fazer", afirmou Kuleba, deixando a nota de que não foi fácil ouvir o seu homólogo durante a reunião.

Também o ministro russo diz estar disponível para nova reunião, apesar de considerar que "a Ucrânia parece querer reuniões sobre as reuniões". 

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