Nelson Monte já está em Portugal: «Vi muita coisa que vai marcar-me para a vida»

26 fev, 23:04

Futebolista português do Dnipro diz que momentos das bombas e dos ucranianos que não puderam passar a fronteira o marcaram. «Andávamos a 20 ou 30 km/h e para quem está em fuga é um desespero»

O futebolista português Nelson Monte chegou na noite deste sábado a Portugal, depois de praticamente três dias em fuga a partir de Dnipro, na sequência da invasão russa à Ucrânia.

O jogador de 26 anos, o único luso a atuar no campeonato ucraniano, saiu daquele país através da fronteira com a Roménia, na sequência de muitas horas a conduzir e de várias mudanças de rota. Apanhou um voo em Iasi e já chegou a território português.

Monte não sabe o que vai acontecer agora com a sua carreira, mas tem a certeza de que quer aproveitar com a família e diz que tudo o que viu o vai marcar para o resto da vida, nomeadamente os momentos das primeiras bombas que ouviu em Dnipro e os ucranianos que não tiveram permissão para passar na fronteira.

«Vi muita coisa que sei que vai marcar-me para o resto da minha vida. Houve ali dois momentos: quando as bombas explodiram no apartamento e corri para a garagem… a quantidade de famílias a correr com as crianças e malas era assustadora. Outro momento foi na fronteira, quando fiquei três a quatro horas para passar: a quantidade de ucranianos que ficaram ali horas, no carro, para tentar passar a fronteira e não podiam. O que eles faziam era sair do carro e os filhos iam e as mulheres iam. E eles ficavam», afirmou, aos jornalistas, à chegada a Portugal.

«Eu não sei se vai haver futebol tão cedo na Ucrânia, o meu pensamento era chegar a Portugal para estar com a minha família, pensar no meu futuro. Vou ter de analisar, nem o próprio clube, nem ninguém na Ucrânia pode responder a isso [ndr: ao que vai acontecer com o futebol]. A minha preocupação neste momento é perceber o que vai acontecer à minha carreira, mas agora quero aproveitar com a minha família. Foram dias intensos de medo e agora que estou em Portugal quero aproveitar», afirmou, visivelmente cansado e emocionado, já com um dos filhos ao colo.

O ex-Rio Ave, que fez parte da formação no Benfica, diz ainda que falou com vários dos seus colegas ucranianos do Dnipro para poder dar abrigo aos familiares em Portugal, mas sublinhou o orgulho daquele povo na defesa do seu território.

«É duro. Nós temos grupos no Whatsapp entre colegas de equipa. É duro saber o que eles estão a passar, o sentimento de medo que está na Ucrânia. O que peço é que ajudem o povo ucraniano, um povo que vai defender, até morrer, a sua pátria. O meu coração está com os ucranianos e colegas de equipa. Eles sabem disso. Informei que se quisessem mandar família para Portugal eu ia ajudar, mas eles são orgulhosos, querem defender o país», referiu.

«Só quando passei a fronteira é que aliviei um bocado a tensão»

Horas a conduzir, mudanças de rotas, estradas em más condições. Além das bombas, do medo e das imagens impactantes que (infelizmente) guarda na memória, Nelson Monte passou por uma aventura nada desejável até chegar a Portugal.

«Só quando passei a fronteira para a Roménia é que aliviei um bocado a tensão. Quando acordei com o bombardeamento há três dias, basicamente os estrangeiros do Dnipro organizaram-se. Fugimos para o centro de estágios do clube para tentar perceber o que era para fazer e a informação que deram era para ir para Lviv. Enquanto estávamos no centro de estágio, arrebentou outra bomba e escondemo-nos num bunker no centro de estágio. Entretanto fizemo-nos à estrada, mas tivemos informação de que podíamos ficar no hotel do presidente a pernoitar. Pernoitámos por aí, aproveitámos para abastecer os carros e, no dia seguinte, às seis da manhã, fizemo-nos à estrada. Era para ir em direção a Lviv para passar para a Polónia. Pelo GPS dava umas 13 horas, mas conduzi quase 25. Quando se chegava a um sítio havia estrada cortada, andámos por estradas secundárias, muitas delas tipo mato. Andávamos a 20 ou 30 quilómetros/hora e para quem está em fuga é um desespero», contou, ainda.

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