“Não esperem linhas vermelhas nesta guerra. Não haverá ética nem boas maneiras do vosso inimigo russo”

CNN , Opinião, por Hamza al-Kateab
22 mar, 21:33

OPINIÃO. “Os vossos atacantes tentarão quebrar-vos, tentarão fazer-vos sofrer. Mas lembrem-se que estarem vivos é o vosso ato de perseverança.” A opinião, o testemunho e o repto de um médico sírio aos seus colegas na Ucrânia

Em Aleppo, aprendemos rapidamente que os hospitais são o lugar mais perigoso

Nunca esquecerei a primeira vez que vi aviões de guerra russos nos céus de Aleppo. Foi em setembro de 2015, eu estava no meu jardim com a minha mulher, Waad, e um amigo, quando vimos três aeronaves russas a voar juntas lançando um ataque de mísseis. Soube naquele momento que tudo estava prestes a mudar.

Como médico sírio e ex-diretor de hospital em Aleppo, sei exatamente o que significa ser um alvo direto das forças russas.

Os crimes de guerra que estão a ser cometidos na Ucrânia agora não são, infelizmente, nada de novo. Nem são coincidência. Os ataques a instalações de saúde são uma jogada estratégica da Rússia e dos regimes sírios apoiados pela Rússia, e foram tentados, desenvolvidos e repetidos pelo menos nos últimos 11 anos.

Quando a revolta na Síria começou em março de 2011, eu morava na parte ocidental de Aleppo. Mas quando a parte leste da cidade foi declarada como área não governamental no ano seguinte, mudei-me para lá e fundei um novo hospital.

Gerir um hospital sabendo que se é um alvo principal é um dilema enorme. Quanto mais acessível for o hospital, mais facilmente ele será atacado. Em Aleppo, toda a gente sabe que os hospitais e as suas proximidades são os lugares mais perigosos para estar.

Hamza al-Kateab (segurando a filha Sama) com seus colegas médicos no hospital al-Quds, Aleppo.

Costumávamos dizer que viver perto da linha de frente é muito mais seguro do que estar no hospital. Tivemos pacientes que se recusaram a ser internados para tratamento, dizendo: "Sabe, doutor, é muito perigoso ficar cinco dias aqui, posso tomar os remédios em casa?"

Atacar hospitais e centros médicos torna impossível que as pessoas vivam numa cidade. Como podem elas ficar quando os lugares de que depende a sua saúde e segurança se tornam alvos diretos? Esses ataques forçam as pessoas a sair. E, mais importante, são uma tentativa de quebrar a vossa perseverança. São uma tentativa de quebrar a vossa esperança.

No entanto, apesar de todos esses horrores, nós nunca quisemos sair. Quisemos ficar no nosso país e continuar a lutar pela nossa liberdade e democracia.

Isso acabou quando o regime sírio e seus apoiantes (incluindo a Rússia) conseguiram cercar Aleppo por seis meses. Destruíram oito dos nove hospitais da cidade. Ficámos presos num espaço de menos de dois quilómetros quadrados.

Houve um acordo entre a Rússia e a Turquia para evacuar quem quisesse deixar a cidade. Sabendo que se ficássemos seríamos presos, não foi uma evacuação para as 35 mil pessoas que deixaram a cidade - foi um deslocamento forçado.

Durante todos os dias em que morei em Aleppo, nunca sonhei tornar-me um refugiado – isso não fazia parte dos meus planos.

No entanto, hoje, enquanto escrevo isto a partir de Londres, onde moro com a minha família sob o estatuto de refugiado, cinco anos depois de estar em Aleppo, ainda questiono muitas decisões que tomei durante os quatro anos em que dirigi o hospital. Seria eu o culpado por mudar o turno daquele enfermeiro quando ele foi morto no hospital? Seria era o culpado por não estar lá 24 horas por dia, a cuidar dos doentes e da equipa? Fui eu o culpado por, em primeiro lugar, começar um hospital numa zona de guerra onde sabia que a equipa e os doentes seriam um alvo?

Hamza, a mulher Waad e a filha Sama al-Kateab, num hospital em Aleppo, na Síria.

Ainda me lembro dos ecos dos pacientes a gritarem de dor nos corredores do hospital. Ainda posso ouvir o menino de sete anos a chorar pedindo que não amputássemos a sua perna esmagada, enquanto eu dizia às enfermeiras para prepará-lo para a cirurgia. Ainda me lembro dos gritos e dos gemidos das mães debruçadas sobre os cadáveres dos seus filhos pequenos.

Mas também me lembro das palavras de gratidão de uma criança enquanto recebia alta do hospital. Lembro-me da mulher grávida que estava ferida, e salvámos tanto a sua vida como a do seu bebé. E lembro-me de como os civis no leste de Aleppo olhavam para nós como a sua única esperança, quando as suas casas estavam a ser atacadas e eles estavam sitiados.

Tudo isto faz-me querer voltar a Aleppo para cumprir a minha missão. Tudo isto me faria querer ficar em Aleppo nas mesmas circunstâncias durante mais 11 anos. E a única maneira de lidar com isto é continuar a tentar responsabilizar os perpetradores.

"Parem de bombardear hospitais." Esta foi a mensagem - escrita em cartazes em inglês, em russo e em árabe - que entregámos numa manifestação à porta da Embaixada da Rússia em Londres na semana passada. Era uma mensagem não apenas para os russos, mas também para as pessoas que ali passavam, indo e voltando do trabalho. Estamos a tentar transmitir esta mensagem há muito tempo - há anos, na verdade - na esperança de que o mundo aja.

Houve uma outra vez, quando eu ainda estava dentro de Aleppo, em que tentei entregar esta mensagem ao mundo. Penso nos profissionais de saúde na Ucrânia agora, que estão a sofrer com o que sempre tentámos criticar.

Poucos dias depois daquela manifestação à porta da embaixada russa, voltámos às ruas de Londres para o aniversário dos 11 anos da revolta síria, de 19 de março. "Putin é um criminoso de guerra. Putin é um assassino", gritámos vezes sem conta. Ali estávamos a entoar os mesmos cânticos que temos gritado há anos dentro e fora de nosso país. Gritando por uma Síria livre, exigindo que os políticos ouçam, que tomem conhecimento e ajam.

Ao chegarmos aos portões de Downing Street, fomos acompanhados em coro por pessoas que estavam numa marcha pela Ucrânia. As nossas vozes ficaram mais altas. No início, senti-me triste e de coração partido. Como sírios, passamos por isso há 11 anos, com metade da nossa população agora deslocada.

Hamza al-Kateab (segundo da esquerda) e outros manifestantes à porta da Embaixada da Rússia em Londres, segurando cartazes em inglês, árabe e russo.

Ao ver os ucranianos a cantar pela libertação da Ucrânia e a condenar os crimes de guerra de Putin, fiquei triste porque parecia haver uma esperança de que isso acabaria em breve, de que os russos parariam.

Mas sabemos durante quanto tempo esta guerra pode continuar. Gritei bem alto: "Libertem a Síria! Libertem a Ucrânia!"; "Da Síria à Ucrânia, juntos venceremos"; "Da Síria à Ucrânia, os ocupantes não têm lugar." Com vozes da diáspora síria e de refugiados misturadas com vozes ucranianas, comecei a sentir que não estamos sozinhos nisto. Foi um belo momento de solidariedade entre seres humanos, unidos na sua luta contra um inimigo comum e unidos na esperança partilhada pelo futuro dos ucranianos, sírios e todos aqueles sob a ameaça das forças de Putin.

Agora não é hora de dizermos: "Nós avisámos." Agora é hora de apoiar o povo da Ucrânia. É devastador perceber que é preciso que isto aconteça para que o mundo perceba do que este regime criminoso é capaz, e espero sinceramente que esta seja a última vez. Espero que o mundo diga de uma vez por todas: "Nunca mais".

E aos meus colegas médicos, enfermeiros e profissionais de saúde na Ucrânia eu digo: não esperem linhas vermelhas nesta guerra. Não haverá ética, nem boas maneiras, do vosso inimigo russo. Esta é uma nova era, de prestar cuidados de saúde durante o conflito, em que as políticas normais de saúde são inúteis.

Encontrem novas diretrizes, adequadas a dar alta aos pacientes o mais depressa possível. Limitem a reunião de muitos pacientes num mesmo local - tentem distribuir os serviços que fornecem por vários locais em vez de num só. O mais importante é lembrarem-se que vocês não estão apenas a fornecer assistência médica – vocês são o coração da perseverança da vossa cidade.

Os vossos atacantes tentarão quebrar-vos, tentarão fazer-vos sofrer. Mas lembrem-se que estarem vivos é o vosso ato de perseverança. Cada pessoa importa. Um profissional de saúde pode fazer toda a diferença. Não os deixem quebrar a vossa determinação. Não deixem que eles quebrem a vossa perseverança.

 

Nota: Hamza al-Kateab é ativista, defensor da saúde pública e cofundador da campanha Action For Sama. Marca presença no documentário premiado "For Sama", filmado e dirigido pela sua mulher, Waad al-Kateab. As opiniões expressas neste artigo são suas.

Opinião

Mais Opinião

Patrocinados