Índia continua sem condenar a Rússia, mesmo após cimeira com aliados do Indo-Pacifico

24 mai, 08:15
Narendra Modi com Joe Biden

Após a cimeira da Quad, Joe Biden garantiu que “os EUA e a Índia vão continuar as consultas, de forma estreita, sobre como mitigar os efeitos negativos" da invasão da Ucrânia

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, manteve esta terça-feira a ambiguidade em relação à invasão russa da Ucrânia, continuando sem condenar essa guerra mesmo após a cimeira com os parceiros da Quad, a organização quadrilateral de segurança do Indo-Pacífico. 

EUA, Japão e Austrália, os outros três membros da Quad, reafirmaram em Tóquio, onde decorreu a cimeira, a condenação da invasão russa, e a determinação em continuar a apoiar a Ucrânia e sancionar a Rússia pela agressão ao país vizinho. Mas não a Índia. 

Tanto nas declarações à entrada para a cimeira, como numa conferência de imprensa conjunta com Joe Biden, antes de um encontro bilateral, Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, passou ao lado do conflito no Leste da Europa e focou-se antes nos elogios à cooperação entre os membros da Quad e à excelência das relações entra a Índia e os Estados Unidos.

Se Modi não falou da Ucrânia, falou Biden. Garantiu que iria discutir com Modi o efeito da guerra russa na Ucrânia "sobre toda a ordem mundial global". "Os EUA e a Índia vão continuar as consultas, de forma estreita, sobre como mitigar estes efeitos negativos", assegurou Biden.

“Bem-vindo à imprensa americana”

A ambiguidade de Nova Deli sobre a guerra na Ucrânia já mereceu comentários azedos por parte dos Estados Unidos, que avisaram claramente o governo indiano de que não deveria ajudar Moscovo a escapar aos efeitos das sanções internacionais aumentando as trocas comerciais entre os dois países. Mas é isso que tem acontecido, nomeadamente com mais importações de energia russa por parte de Nova Deli - o que mereceu outro aviso de Washington, contra o aumento da dependência energética da Índia em relação à Rússia.

Apesar deste desconforto, em Tóquio Biden focou-se no lado positivo das relações bilaterais:  "Há tanto que os nossos países podem e vão fazer juntos, e eu estou empenhado em fazer da parceria EUA-Índia uma das mais próximas que temos na Terra".

Mas o presidente dos EUA ter-se-á sentido vingado quando, numa curta pausa para fotografias, os dois líderes foram bombardeados por perguntas dos jornalistas norte-americanos. "Pressionará o primeiro-ministro Modi para tomar uma posição mais dura sobre a Rússia?" perguntou um jornalista. "Pediu ao primeiro-ministro Modi que se libertasse do petróleo russo?"

Segundo a CNN Internacional, nenhum dos líderes respondeu. Modi, de resto, desde que é primeiro-ministro faz questão de nunca responder a perguntas de jornalistas em conferências de imprensa. Mas Biden lançou-lhe um olhar irónico, um sorriso, e comentou levantando as sobrancelhas: "Bem-vindo à imprensa americana".

“Opiniões fortes sobre a Rússia”

Segundo o primeiro-ministro australiano, a “neutralidade” da Índia não impediu que os outros três líderes presentes na cimeira expressassem “opiniões fortes” sobre a invasão russa da Ucrânia . 

"O ataque unilateral, ilegal e imoral russo contra o povo da Ucrânia é um ultraje e as atrocidades cometidas contra civis inocentes é algo que não poderíamos esperar no século XXI", disse Antony Albanese, o novo chefe do governo australiano, que tomou posse na segunda-feira e hoje se estreou em cimeiras internacionais. "Foram certamente expressas opiniões fortes na reunião", acrescentou.

Antes do início do encontro, Joe Biden afirmou que a invasão da Ucrânia "demonstra a importância" de manter um Indo-Pacífico "livre e aberto". "Vivemos tempos sombrios da nossa história compartilhada", disse Joe Biden aos líderes do Japão, da Índia e da Austrália, frisando que "esta é mais do que uma questão europeia, é uma questão global".

"Não podemos permitir que algo assim aconteça no Indo-Pacífico", acrescentou Fumio Kishida, o primeiro-ministro japonês e anfitrião da cimeira, que pediu um "firme compromisso" nesta e noutras questões, como alterações climáticas, segurança marítima e tecnologia.

Unidos na resposta à China

O consenso que faltou na condenação da Rússia e no apoio à Ucrânia, materializou-se no outro grande dossiê que estava sobre a mesa: como fazer frente à cada vez maior assertividade da China na geopolítica regional e global. 

Assegurar a segurança marítima nas várias latitudes do Pacífico, em particular no Mar do Sul da China e no Mar da China Oriental, onde a Armada chinesa tem uma presença bastante ostensiva, por vezes nos limites do respeito pelas águas territoriais alheias, mas também onde a frota pesqueira da China se tem mostrado cada vez mais afoita, muitas vezes violando impunemente zonas económicas exclusivas. 

Os membros da Quad apelam a Pequim para que respeite o direito internacional e mantenha o Indo-Pacífico “livre a aberto”. Para garantir esse objetivo, é expectável que os quatro membros desta aliança estreitem a cooperação militar e os exercícios navais conjuntos, com maior partilha de informações e de conhecimento tecnológico.

As autoridades chinesas costumam referir-se à Quad como uma aliança anti-China, herdeira do “espírito venenoso” da Guerra Fria.

Biden diz que nada mudou sobre Taiwan

Um dia depois de Joe Biden ter assegurado que os EUA poderiam intervir militarmente para defender Taiwan de um ataque da China, o presidente norte-americano voltou a ser questionado sobre essa declaração, que esta terça-feira dominou as primeiras páginas dos jornais japoneses.

Questionado por um jornalista do New York Times sobre se tinha sido abandonada a política de “ambiguidade estratégica” dos EUA em relação a Taiwan, Biden respondeu com uma palavra: “Não”. O mesmo jornalista pediu-lhe se podia clarificar, e Biden respondeu… “não”. Terceira pergunta: Biden enviará tropas para Taiwan em caso de uma invasão da China? “A política não mudou.”

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