EXCLUSIVO: A viagem apocalíptica ao centro da guerra em Mariupol

3 abr, 20:02

A CNN Portugal entrou numa das cidades mais martirizadas na guerra na Ucrânia. Mariupol está quase totalmente dominada por forças russas e separatistas de Donetsk e foi com proteção deste lado da guerra que o jornalista freelancer, em serviço especial para a CNN Portugal, conseguiu entrar nesta cidade de sobreviventes

Mesmo nas ruínas de Mariupol há quem se negue a deixar de existir. Entre os escombros, alguns milhares tentam sobreviver como podem aos violentos combates.

Várias explosões repentinas interrompem a conversa. Entre os passageiros, há um que diz serem disparos e outro que diz serem granadas de morteiro. O condutor não quer saber. "Eu é que não vou ficar aqui", afirma antes de pôr prego a fundo. A distância entre Donetsk e Mariupol é de pouco mais de uma centena de quilómetros, mas é feita através de um trajecto nem sempre fácil, cheio de obstáculos, que inclui um troço de viaduto da autoestrada dinamitado. Mas o maior obstáculo para um jornalista chegar a Mariupol é a necessidade de acreditação civil e militar por parte das autoridades separatistas. Cerca de meia dúzia de postos de controlo depois, é a conclusão a que se chega.

A viagem faz-se lenta, mas cheia de recordações. Ao volante, Andreyi abre o álbum mental de memórias para mostrar as viagens de família até à praia. Desde que rebentou a guerra civil, em 2014, o mar ficou do outro lado da linha da frente. Mas esta fronteira que separou famílias durante oito anos também separou ideias. "Perdi alguns amigos porque defendíamos lados diferentes", recorda enquanto aponta para uma estação de serviço completamente destruída onde costumava parar com a mulher nos passeios rumo à cidade costeira.

Para além de destino turístico, a região era predominantemente industrial e agrícola. Imensos campos verdes ilustram o celeiro da Europa mas a zona depende sobretudo da extracção mineira e da indústria metalúrgica. Até 2013, viviam na região de Donetsk 4.43 milhões de pessoas, o que constituía 10% da população total da Ucrânia.

De acordo com o Observatório da Transição de Regiões Intensivas em Carvão, a produção industrial em Donetsk permanecia elevada, apesar de nos últimos quatro anos (2017 em comparação com 2013) o volume da produção industrial na região ter diminuído 2,4 vezes. Em 2016, a região de Donetsk ocupava a segunda posição entre 24 regiões da Ucrânia pela quota de produtos industriais vendidos no volume total de vendas na Ucrânia.

Destruição total

Mais do que as placas de sinalização, o que faz prever a breve chegada a Mariupol é a quantidade de viaturas destruídas na berma da estrada, algumas delas cravejadas de balas. A entrada na cidade é impactante. Prédios enormes com fachadas totalmente negras e um mar de gente enche o centro de ajuda humanitária. Muitos destes habitantes de Lugansk acabam por abandonar Mariupol para fugir ao inferno da guerra, muitos outros preferem resistir como der. Apesar de não colocarem qualquer entrave à conversa dos jornalistas com a população, só uma parte da cidade é que está acessível. E se esta for a parte menos fustigada pelos combates, é um previsível cenário desolador porque deste lado não há qualquer réstia de esperança numa cidade esmagada pelo peso da guerra.

Uma idosa varre o chão da rua indiferente às toneladas de entulho, como se isso lhe devolvesse uma réstia de dignidade. Outra mulher, que aparenta ter 80 anos, cozinha com lenha no meio da rua. Um homem lê sentado num banco de jardim talvez para se alhear do rasto de destruição. Ali ao lado, num parque, junto aos prédios, vários mortos enterrados e um aviso: "Esta cova já está ocupada". Ao virar da esquina, um cão observa a guerra dos humanos a partir de um terceiro andar destruído e os corpos de dois idosos estão caídos dentro de uma cratera enorme que, presumivelmente, pode ser fruto de um bombardeamento.

No meio deste retrato de absoluta destruição, uma família a viver na cave de uma loja há mais de um mês explica como sobreviveram. À luz das velas, mãe e filha descrevem aquilo que dizem ser um verdadeiro pesadelo. A mulher, com os seus 40 anos, aponta para o pé da criança que aparenta ter cerca de 12 anos. Com a ajuda do tradutor, percebemos que estava na rua a brincar quando uma explosão a deixou ferida. No mesmo lugar, há mais famílias que se entreajudam. "Tudo o que queremos é paz", pede esta mãe.

Uma jovem adolescente no meio da rua, entre os escombros, explica que não abandona Mariupol para tomar conta do avô. A avó morreu há dias de ataque cardíaco. Caso mais dramático é o de um homem que teve de enterrar a família na rua com a ajuda de vizinhos. Estava em casa quando a aviação largou uma bomba. A pequena Masha, de cinco anos, perdeu a irmã gémea, a mãe, os avós, e outra que está desaparecida. Com o braço partido, sorri enquanto dá cor a um livro com desenhos.

Batalha sem fim à vista

Como som de fundo, sucedem-se as explosões e os disparos como prova de que qualquer pessoa em Mariupol corre perigo de vida. Milhares de combatentes ucranianos concentram-se num complexo industrial metalúrgico de grandes proporções e no porto da cidade. São estas áreas que os separatistas de Donetsk, em conjunto com as tropas russas, tentam conquistar. Dois destes homens, insistem que estão na guerra para fazer a paz e, como sempre, de ambos os lados, a desinformação é parte da própria guerra. No centro de ajuda humanitária, vários refugiados acusam o neonazi Batalhão Azov de usar civis como escudos humanos, corroborando as acusações da Rússia. Na rua, uma idosa acusa a Rússia de avançar com tanques sobre as ruas destruindo e esmagando várias viaturas.

Não se sabe quanto mais tempo vão resistir as bolsas de soldados ucranianos cercados em Mariupol. O que se sabe é que a importância estratégica da única localidade que a Rússia não controla na margem costeira do Mar de Azov.

NOTA EDITORIAL por Nuno santos, Diretor da TVI e CNN Portugal.

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