Nos últimos dois meses, o serviço de segurança da Ucrânia já identificou mais de 800 ucranianos, incluindo pelo menos 240 menores, recrutados pela Rússia
Quatro anos depois de Bucha ter sido palco de algumas das piores atrocidades da guerra na Ucrânia, a cidade volta a estar no centro das atenções devido a um episódio que evidencia uma nova e inquietante estratégia russa: o recrutamento de cidadãos locais para ações de sabotagem contra o próprio país.
Segundo o The Guardian, no mês passado, Bohdan Tymchenko, um jovem de 21 anos descrito como discreto e reservado, ligou, como sempre fazia, o computador para jogar o popular jogo World of Tanks. Menos de duas semanas depois, acabaria por plantar duas bombas junto ao edifício onde vivia com a avó, num bloco de cinco andares em Bucha, localidade situada nos arredores de Kiev e simbolicamente associada à brutalidade da invasão russa.
Segundo os investigadores ucranianos, o primeiro contacto com os serviços de informações russos terá ocorrido através do chat online do próprio videojogo. Posteriormente, o alegado agente russo passou a comunicar com o jovem através da aplicação Telegram, orientando-o passo a passo. Tymchenko recebeu instruções sobre como obter os materiais necessários, montar os engenhos explosivos no seu apartamento e executar o ataque, tendo-lhe sido prometida uma recompensa de 1.200 dólares, pouco mais de mil euros.
As explosões ocorreram durante a madrugada e apresentaram características típicas de um ataque “double-tap”. O primeiro engenho detonou por volta das 5h30 à entrada do prédio, sendo seguido por uma segunda explosão quase duas horas depois, já após a chegada das autoridades ao local. O incidente provocou ferimentos em dois agentes policiais.
Para as autoridades ucranianas, este caso ilustra uma tendência crescente de recrutamento de cidadãos através de meios digitais, muitas vezes aliciados com promessas financeiras ou sujeitos a coerção.
“É uma facada nas costas. Não há nada pior do que um dos nossos próprios cidadãos fazer isto”, afirmou Dmytro Prokudin, chefe do gabinete do procurador regional de Kiev. “E estamos a ver isto acontecer cada vez mais.”
Nos últimos dois meses, o serviço de segurança da Ucrânia, o SBU, já identificou mais de 800 ucranianos, incluindo pelo menos 240 menores, recrutados pela Rússia para realizar ataques a infraestruturas críticas a escritórios de recrutamento militar. O objetivo, segundo as autoridades, é espalhar incerteza, medo e desconfiança.