Um relatório da Dinamarca alerta para um ataque russo à Europa e identifica três cenários: uma Rússia capaz de em apenas seis meses lançar um ataque contra um país fronteiriço; no espaço de dois anos lançar uma guerra regional contra toda a zona do Mar Báltico; no espaço de cinco anos lançar uma guerra em larga escala em toda a Europa. Pânico desnecessário ou realismo preventivo?
Este aviso dinamarquês não é isolado, tem contexto e antecedentes - a Alemanha e a Suécia já fizeram alertas semelhantes, com maior ou menor detalhe, com mais ou menos calendarização. "É uma narrativa política para manipular as opiniões públicas", reage Azeredo Lopes, comentador da CNN Portugal. "É tão irrealista uma ameaça russa no espaço europeu..." Reticências de alívio - mas, ainda assim, o comentador frisa que "estamos numa fase muito difícil em que temos de manter as nossas tropas unidas, em que há necessidade de reforçarmos as nossas capacidades defensivas". Porque agora "o desafio de apoiar a Ucrânia é maior do que era" - há Trump em vez de Biden, há menos América do que antes para ajudar Ucrânia e socorrer Europa.
Azeredo Lopes sublinha que esta retórica alemã, sueca e dinamarquesa advém disso mesmo - estamos por nossa conta e o discurso agora é esse, investir em Defesa, investir-investir nisso - algo fortemente vincado pelo secretário-geral da NATO, lembra Azeredo Lopes: "No fundo, é preciso justificar e legitimar a decisão política que sabemos todos que é aumentar o investimento em Defesa".
O comentador admite que a estratégia é "compreensível" mas considera desnecessária a insistência constante na "ameaça" russa. "Precisamos sempre de ter um inimigo ameaçador para manter o esforço europeu. Às vezes temos de exagerar a ameaça para manter a chama de que temos de ter uma Defesa comum." Para Azeredo Lopes, trata-se de uma estratégia "ligeiramente irritante".
O aviso dinamarquês é, acrescenta o comentador, totalmente "contraditório": "Se dizemos que a Rússia tem dificuldades em subjugar a Ucrânia e passamos a vida a dizer que estamos a ganhar, é pouco plausível que reforce a ameaça. Ora estamos sempre a insistir num papão, ora a dizer que a Rússia não tem capacidade na guerra - há algo que não bate certo", argumenta.
"Se a Rússia não tem capacidade a nível de recursos humanos para a mobilização contra a Ucrânia, vai ter essa capacidade de mobilização contra nós daqui a uns anos? Vão-se reproduzir?" Ainda assim, Azeredo Lopes não tem dúvidas: "Uma das poucas coisas positivas" do conflito na Ucrânia é o "acordo" a que chegaram os países europeus face à necessidade de reforço no investimento em Defesa. Porque é mesmo necessário - o comentador considera é que argumentos como este que veio agora da Dinamarca não são os melhores para o justificar.
Também o major-general Agostinho Costa afasta a possibilidade de um ataque russo à Europa. "Isso não vai acontecer." O especialista em assuntos de Segurança e Defesa acredita que o relatório dinamarquês está repleto de uma "intenção que já vem desde há algum tempo": impedir o acesso da Rússia ao Báltico.
"Se se fechar o Báltico aos russos, é uma situação de tensão tão grave como a situação que houve quando os lituanos procuraram fechar o Corredor de Suwalki - de acesso entre a Rússia e Kaliningrado. Se fecharem o Báltico, temos um conflito com a Rússia."
O interesse russo na região, explica Agostinho Costa, deve-se sobretudo aos cabos submarinos, que têm sofrido "incidentes sistemáticos". Contudo, a "confrontação" que de tal podia advir não se perspetiva: "Isto é um risco, é um pouco brincar com o fogo, porque se fecharem o Báltico aos russos podemos ter uma situação menos agradável, mas estou em crer que, face à conjuntura, isto não passa de uma tempestade num copo de água."
Por outro lado, "não se perspetiva é que haja um desanuviamento entre as duas partes". "O que temos neste momento é um regresso a uma lógica de blocos e a uma nova Guerra Fria, em que há um canal de ligação entre o presidente norte-americano e o presidente russo, mas em que o polícia bom passa a ser Trump e o polícia mau é a Europa", afirma o major-general, antecipando "uma situação de alguma esquizofrenia no plano diplomático".
Com ou sem ataque russo, parece haver dúvidas sobre que tipo de apoio os EUA vão passar a dar à Europa, apesar de os estado-unidenses fazerem parte da NATO - cujo artigo 5.º estipula que “as partes concordam que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas”. Tudo porque o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, garantiu esta quarta-feira que a defesa da Europa deixou de ser uma prioridade para os EUA. “Estamos aqui hoje para expressar, de forma direta e inequívoca, que as realidades estratégicas impedem os Estados Unidos da América de se concentrarem principalmente na segurança da Europa”, disse, em declarações antes de uma reunião do Grupo de Contacto de Defesa da Ucrânia, realizada esta quarta-feira.
Below are my remarks today at @NATO on Ukraine-Russia.
— Pete Hegseth (@PeteHegseth) February 12, 2025
President @realDonaldTrump’s leadership will deliver a durable peace. https://t.co/0Ur2NAyvLy
Para o major-general Agostinho Costa, estas declarações não passam de uma confirmação do que já se sabia: "Os EUA vão passar a Ucrânia à Europa". Para Azeredo Lopes, estas declarações visam ser "uma forma de pressão para o aumento do investimento em defesa da Europa". "Já devíamos ter percebido que não somos decisivos para os EUA - e não tem mal nenhum. Não podemos é continuar com a esperança que ajam como agiram como quando éramos decisivos", acrescenta Azeredo Lopes.
Para o comentador, é claro que a Europa deixou de ser "indispensável" para os EUA do ponto de vista geopolítico, pelo que avisa: "Temos de fazer pela vida". "Temos de assumir o nosso destino e criar gradualmente uma capacidade de defesa que passe pelo investimento na nossa base tecnológica, pela explicação às pessoas de que há despesa mas também pode haver retorno. Não estamos a ser capazes de criar uma indústria de Defesa, apesar de nos chamarmos União Europeia. Era uma forma mais interessante de enfrentar a nossa orfandade relativamente aos EUA."