"Crime de guerra" com eventuais consequências a "nível global". O que dizem os especialistas sobre o ataque à central nuclear

4 mar, 10:32

O presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do Instituto Superior Técnico diz que qualquer ataque a uma central nuclear civil pode ser considerado crime de guerra. Presidente da associação ambientalista Zero alerta para riscos não só na Ucrânia, mas eventualmente à escala global

"Se explodir, será dez vezes pior que Chernobyl". As palavras são do ministro dos Negócios Estrangeiros e da Transição Energética ucraniano, Dmytro Kuleba, que fez esta madrugada um apelo dramático aos russos para parassem de imediato os confrontos junto da central nuclear de Zaporizhzhia, na cidade de Enerhodar. 

Mas a central nuclear acabou mesmo por ficar rodeada de chamas durante quatro horas, após o ataque das forças russas. O incêndio deflagrou num edifício a cerca de 150 metros de um dos seis reatores da central e os bombeiros ucranianos enfrentaram grandes dificuldades para combater o fogo, chegando a ser atingidos a tiro por militares russos. 

"Qualquer ataque a uma central nuclear civil, a meu ver, pode ser considerado crime de guerra", disse à CNN Portugal Bruno Soares Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do Instituto Superior Técnico. 

"Há uma resolução da assembleia da Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) desde 2009 que declara que qualquer ataque ou ameaça contra instalações nucleares devotadas a objetivos pacíficos constitui uma violação aos princípios da Carta das Nações Unidas, da lei internacional e dos estatutos da IAEA", acrescenta o especialista. 

A central de Zaporizhzhia produz cerca de um quarto da energia de toda a Ucrânia e começou a funcionar em 1985. Por ser mais antiga, depende da eletricidade para manter ativos os seus sistemas de segurança, esclarece Bruno Gonçalves, que admite que se houver danos causados pelo incêndio nos sistemas auxiliares de eletricidade que permitem manter a segurança da central pode haver riscos. "O incêndio pode não ter atingido a central mas pode atingir depósitos de material radioativo com combustível usado", acrescenta. "Se a central estiver em operação", como é o caso, a presença dos técnicos "é essencial para garantir a operação segura da central, para pôr a central em estado seguro e, se for o caso, para a desligar", refere ainda o especialista. 

As centrais nucleares mais recentes, "do pós-Chernobyl e sobretudo do pós-Fukushima", têm novos protocolos de segurança e sistemas de segurança mais resilientes, ao contrário das mais antigas, aponta Bruno Soares Gonçalves. E ao contrário do que aconteceu quando as tropas russas tomaram a central desativada de Chernobyl, na semana passada, a caminho de Kiev, é natural que, em Zaporizhzhia, se os danos não chegaram a nenhum reator ou depósito de combustível, não haja alteração dos níveis de radioatividade. "Numa central ativa não haverá resíduos nos solos, não houve nenhum incidente para que o solo em si esteja contaminado e que a movimentação do solo, sob a forma de poeiras, leve à libertação de radioatividade", explica o especialista do Instituto Superior Técnico. 

Em conferência de imprensa na manhã desta sexta-feira, Mariano Grossi, o diretor da IAEA, garantiu que nenhum dos seis reatores de Zaporizhzhia foi afetado pelo incêndio. "Não houve fuga de material radioativo", assegurou, admitindo que a situação no terreno continua a levantar preocupação. 

Risco para a zona envolvente e à escala global

Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, chama a atenção para o perigo de um "conflito armado no perímetro de uma central nuclear", recordando que nos últimos dias várias entidades internacionais e grupos ambientalistas fizeram alertas para a eventualidade da invasão russa poder desencadear um acidente com libertação de material radioativo.

O presidente da Zero realça ainda o facto de a central nuclear ucraniana ser quatro vezes maior do que a central térmica de Sines que Portugal tinha em funcionamento, com seis reatores de 950 megawatts cada um. Destes seis reatores, três terão sido parados aquando da invasão russa da Ucrânia, mas os outros três continuaram a funcionar. "Há um risco não só para a zona envolvente mas mesmo para uma área muito mais alargada da Ucrânia e também a nível  global", refere Francisco Ferreira. "No caso de Chernobyl, isso foi claramente visível", acrescenta, referindo que as consequências seriam dramáticas "no caso de libertação de radiação". 

"Há uma ameaça clara de podermos ter um acidente nuclear de proporções bastante graves e significativas", sublinha ainda o ambientalista. 


"Não se percebe como é que se arrisca tanto", diz Francisco Ferreira. "Um conflito armado numa zona tão crítica, em termos de insegurança, não apenas para a zona periférica mas obviamente com implicações que acabam por existir à escala global, no caso de uma fuga de maiores dimensões", frisa o presidente da Zero. 

O diretor da IAEA, Mariano Grossi, revelou entretanto que apenas o "edifício adjacente" da central de Zaporizhzhia foi atingido, mas que, "naturalmente", a situação "continua a ser extremamente tensa e desafiadora devido às circunstâncias".

O diretor da Agência Internacional de Energia Atómica confirmou ainda a existência de dois feridos, ao que tudo indica seguranças da central nuclear.

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