A missão de Marina passa por estabilizar os feridos dos ataques russos antes de serem transportados para hospitais mais afastados
Marina imaginava para si um futuro longe da guerra. Depois de vários anos a estudar Medicina e a construir uma carreira na Polónia, acreditava que a sua vida seria no estrangeiro. No entanto, a invasão russa mudou-lhe os planos e levou-a de regresso à Ucrânia.
Hoje, com 29 anos, serve como médica junto da unidade Cossacos Negros, perto de Kharkiv, onde presta assistência a militares feridos numa frente de combate marcada por drones, ataques constantes e decisões tomadas em segundos.
Conhecida pelo nome de guerra "Bandana", a jovem conta ao Kyiv Post que o seu trabalho começa depois dos primeiros socorros prestados prestados pelos próprios soldados na linha da frente. A sua missão passa por estabilizar os feridos antes de serem transportados para hospitais mais afastados.
Se há dois anos as equipas médicas conseguiam aproximar-se a poucos quilómetros das posições de combate, agora são obrigadas a permanecer muito mais longe devido à ameaça permanente dos drones. Por isso, grande parte do seu trabalho passa também por ensinar os soldados a prestarem os primeiros socorros até conseguirem ser retirados.
"Dedicamos muito tempo à formação do pessoal", diz ao Kyiv Post. "Todos têm de saber prestar primeiros socorros, sejam ou não profissionais de saúde. Nem sempre há oportunidade de ajudar rapidamente uma pessoa."
Marina admite que o mais difícil não é o perigo constante, mas a perda da liberdade. "Aqui deixas de ser tu próprio", confessou ao jornal. "Não sabes quando vais ser necessário, o que vai acontecer amanhã ou sequer dentro de algumas horas. Não existem fins de semana normais."
Para a médica, é essa ausência de controlo sobre a própria vida que pesa mais do que o risco diário. Antes da guerra, regressara temporariamente à Ucrânia apenas para visitar os pais. Quando o conflito se agravou, percebeu que precisava de ficar. Em 2024 alistou-se nas forças armadas, apesar da preocupação da família.
Ao longo deste tempo, vivenciou evacuações sob fogo russo, ataques de drones e situações que continua a recordar com dificuldade. Entre elas está a de um camarada gravemente atingido por um drone, que acabou por perder ambas as pernas, embora tenha sobrevivido.
Também o marido, que integra o mesmo batalhão como médico de evacuação, ficou ferido durante a guerra. Ainda assim, garante que, no momento da ação, o profissionalismo tem de prevalecer sobre as emoções.
"Não se desligam as emoções. (...) Basta dar prioridade ao trabalho e ao profissionalismo. As emoções vêm depois", conta durante a mesma entrevista.
"Faz-se simplesmente o trabalho. Caso contrário, seria impossível suportar tudo isto", assume. "Uma pessoa habitua-se a tudo. A qualquer tipo de stress. O importante é compreender porque é que se está aqui", confessa.
Apesar das perdas e das dificuldades, Marina diz não se arrepender da decisão que tomou, já que, afirma, a guerra alterou para sempre a forma como olha para o seu país e para o futuro.
"A Ucrânia tem problemas, claro. Mas continua a ser o meu país."
