Aconteça o que acontecer, Paulo Portas tem um alerta a fazer: "Se Putin prevalecer na Ucrânia, podem ter a certeza que um dia vai bater à porta dos Bálticos"
Paulo Portas considera que o Conselho Europeu tomou uma decisão crucial sobre a Ucrânia, ainda que longe da ideal, mas falhou redondamente noutra frente estratégica: o acordo com o Mercosul. No Global do Jornal Nacional da TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal, o comentador explicou que a Europa estava perante duas decisões centrais e que os resultados foram profundamente diferentes.
Sobre a Ucrânia, Paulo Portas começou por sublinhar que o contexto era de “uma pressão enorme”, com “um alinhamento indireto entre a Rússia, no plano militar, e os Estados Unidos, do ponto de vista da restrição dos apoios à Ucrânia”.
Com a perspetiva de um corte do apoio norte-americano, sobretudo a partir de março, a sobrevivência financeira de Kiev passou a depender da União Europeia. Paulo Portas enumerou as quatro opções em cima da mesa em Bruxelas. A primeira, “não fazer nada”, significaria “dar a vitória política a Putin e, provavelmente, entregar os ativos financeiros russos a Donald Trump”. A segunda passava por recorrer diretamente aos orçamentos nacionais, o que transformaria a Europa “num salsifré permanente de campanhas eleitorais”.
A solução que acabou por prevalecer foi, segundo Portas, “uma parte de dívida mútua dentro da margem orçamental da União Europeia, com os triplos A da Comissão, mais rápida e entregue por tranches”.
Outra possível solução, que não avançou, passava pela utilização imediata dos ativos russos congelados, cerca de 210 mil milhões de euros, dos quais 180 mil milhões estavam na Bélgica. Portas explica porquê: “O risco relevante era que os que tenham dinheiro colocado na Europa considerassem que a Europa já não protegia a segurança jurídica dos depósitos”.
O balanço dos resultados, ainda assim, é positivo. “Desse ponto de vista, a Europa fez o que devia sobre a Ucrânia e sobre ela própria”, afirmou, deixando um aviso estratégico. “Se Putin prevalecer na Ucrânia, podem ter a certeza que um dia vai bater à porta dos Bálticos”.
Macron e Meloni "uniram-se para fazer um disparate"
Bem diferente é a avaliação sobre o Mercosul. Aqui, Paulo Portas falou num erro grave e personalizado que uniu dois lideres improváveis: Emmanuel Macron e Georgia Meloni. “Absolutamente improváveis porque se detestam cordialmente”, lembra. Ainda assim, “curiosamente uniram-se para fazer um disparate”.
Para Portas, a oposição de Emmanuel Macron e Giorgia Meloni revela “falta de visão”. “Parece que cada um só consegue olhar para o seu jardim e não consegue perceber o mundo”, criticou, lembrando que, num contexto em que “os Estados Unidos se fecham em termos comerciais”, a Europa devia “aproveitar as oportunidades deixadas vagas”.
O acordo com o Mercosul envolve Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, cerca de 260 milhões de habitantes, e é, nas palavras do comentador, uma oportunidade histórica desperdiçada. “É um milagre conseguir que a Argentina, com o Milei, e o Brasil, com o Lula, estejam de acordo”, sublinhou.
Para Portugal, os benefícios são, segundo Portas, evidentes. “Só na agricultura, nós temos a ganhar no setor do azeite (…), temos a ganhar no setor do vinho e também no setor das frutas”, defende, acrescentando que “não temos a perder no leite nem na manteiga, onde somos autossuficientes”.
Sobre a oposição italiana, o comentador apresenta a possível visão de Meloni. “A senhora Meloni não tem nenhuma objeção ao Mercosul (…) ela quer é ganhar outra coisa no orçamento plurianual da União Europeia”. Um gesto que classificou como tático, mas com um custo elevado: “Visto da América Latina, parece que o sistema de decisão da União Europeia é tonto”.