Proposta elaborada com aconselhamento pro bono da Black Rock, cujo CEO tem estado ao lado de Kushner e Witkoff nas negociações entre Kiev e Moscovo, está dependente de um cessar-fogo que permanece indefinido. Notícia surge ao segundo dia de negociações trilaterais entre ucranianos, russos e norte-americanos em Abu Dhabi. Comissão Europeia compromete-se com valores, Washington nem por isso
Assim que a Rússia aceitar pôr fim à guerra de larga escala contra a Ucrânia, em curso há quatro anos, a União Europeia (EU) e os Estados Unidos da América (EUA) pretendem atrair 800 mil milhões de dólares (cerca de 676 mil milhões de euros) em financiamento público e privado para ajudar a reconstruir o país.
A proposta consta de um documento de 18 páginas elaborado pelas autoridades europeias e norte-americanas a que o Politico teve acesso exclusivo este sábado, no qual está delineado um plano a 10 anos para o pós-guerra que garanta que Kiev “entra num caminho acelerado de adesão à UE”. O documento foi distribuído pela Comissão Europeia entre as capitais dos 27 Estados-membros na quinta-feira e, de acordo com três funcionários e um diplomata da EU, que falaram sob anonimato ao site de notícias, foi discutido logo nessa noite, durante o Conselho Europeu extraordinário que teve lugar em Bruxelas.
Segundo o documento, focado nos próximos 10 anos, a UE, os EUA e organismos financeiros internacionais, incluindo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, prometeram gastar 500 mil milhões de dólares (422 mil milhões de euros) de capital público e privado.
A Comissão Europeia compromete-se a investir mais 100 mil milhões de euros em Kiev por meio de apoio orçamental e de garantias de investimento, sob o próximo quadro plurianual do bloco, a partir de 2028 e ao longo dos sete anos seguintes. Espera-se que esse financiamento desbloqueie 207 mil milhões de euros em investimentos para a Ucrânia. Do outro lado, os EUA prometem mobilizar capital por meio de um Fundo de Investimento para a Reconstrução EUA-Ucrânia, mas sem especificar um valor.
Sem cessar-fogo não há dinheiro
A par da estratégia de financiamento de médio prazo, que se estende até 2040, a proposta contém ainda um plano operacional imediato de 100 dias para arrancar com o projeto de atração de investimento. A notícia do Politico surge ao segundo dia daquelas que são as primeiras negociações trilaterais entre Ucrânia, Rússia e EUA desde a invasão em larga escala do território ucraniano pelas forças russas, em fevereiro de 2022.
Esta semana, à margem do Fórum Económico de Davos, na Suíça, um representante da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo – que, segundo o Politico, está a fazer assessoria do plano de reconstrução pro bono – disse que vai ser praticamente impossível atrair investimento externo para a reconstrução da Ucrânia enquanto a guerra não terminar.
“Pense bem: se você é um fundo de pensão, você é fiduciário para com os seus clientes, os seus pensionistas – é quase impossível investir em uma zona de guerra”, disse o vice-presidente da BlackRock, Philipp Hildebrand, em entrevista na quarta-feira. “Acho que isto tem de ser feito em etapas, e isso levará algum tempo. É muito difícil imaginar isto a acontecer em larga escala enquanto houver drones e mísseis em operação.”
O “plano de prosperidade” faz parte de uma proposta de paz de 20 pontos que a administração de Donald Trump está a tentar intermediar entre Kiev e Moscovo nas negociações em curso em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A proposta pressupõe explicitamente que as garantias de segurança já estejam em vigor e concentra-se exclusivamente na transição da Ucrânia da atual assistência de emergência para a “prosperidade autossustentável”.
No documento está prevista a participação direta de empresas e especialistas norte-americanos no terreno, destacando-se o papel dos Estados Unidos como "mobilizador de capital privado", aponta o Politico. O CEO da BlackRock, Larry Fink, tem participado nas negociações de paz com Kiev ao lado do genro do presidente americano, Jared Kushner, e do enviado especial de Trump, Steve Witkoff.