Zelensky devolve mais alta condecoração da Polónia face a crescente polémica sobre a II Guerra

CNN , Associated Press
21 jun, 10:45
Volodymyr Zelensky (Petros Karadjias/AP)
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Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, pede contenção a Zelensky e Nawrocki. "A linha de frente está noutro lugar, [esta disputa] alegra Putin e choca os nossos aliados"

Varsóvia, Polónia (AP) — O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, devolveu a mais alta honra estatal da Polónia ao país, depois de o presidente polaco lhe ter retirado a condecoração no contexto de uma disputa politicamente carregada sobre a história da II Guerra Mundial.

Os ucranianos acreditam que a ordem "era destinada ao povo ucraniano e ao nosso exército", escreveu Zelensky numa publicação nas redes sociais na qual explicou o seu gesto. "Hoje, devolvi a Ordem ao Presidente da Polónia. Acredito que o futuro confirmará o respeito que os ucranianos merecem."

A mensagem publicada na rede social X veio acompanhada por fotos da ordem polaca e um comprovativo postal de que estava prestes a ser enviada ao gabinete presidencial polaco.

O presidente da Polónia, Karol Nawrocki, decidiu destituir Zelensky da Ordem da Águia Branca devido à decisão do líder ucraniano de nomear uma unidade militar em homenagem a uma organização paramilitar ucraniana acusada de massacrar polacos durante a II Guerra Mundial.

O ex-presidente polaco, Andrzej Duda, tinha concedido a condecoração a Zelensky em 2023 por serviços prestados à segurança, resiliência e defesa dos Direitos Humanos. Zelensky emitiu um decreto a 26 de maio deste ano a nomear uma unidade das Forças de Operações Especiais da Ucrânia em homenagem ao Exército Insurgente Ucraniano, ou UPA, que operou durante as décadas de 1940 e 1950 e que foi acusado pela Polónia de assassinatos em massa.

O então presidente da Polónia, Andrzej Duda (à direita), a homenagear o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, no Palácio Presidencial em Varsóvia, em 5 de abril de 2023. (Kacper Pempel/Reuters)

"Para a maioria da sociedade polaca, o Exército Insurgente Ucraniano permanece, acima de tudo, uma formação responsável por crimes crueis contra os cidadãos da República da Polónia durante a II Guerra Mundial", disse Nawrocki num discurso de 13 minutos divulgado nas redes sociais.

Passo de Zelensky reabre feridas antigas na Polónia

O decreto ucraniano foi recebido com críticas generalizadas na Polónia, que acolheu milhões de refugiados ucranianos e é um importante apoiante de Kiev na sua luta contra a invasão russa de há quatro anos e meio. No entanto, Nawrocki é um político nacionalista que explorou o sentimento antiucraniano para obter ganhos eleitorais. Os ucranianos na Polónia têm enfrentado crescente preconceito, apesar da sua contribuição para a economia do país.

A decisão de revogar a honra de Estado não significa que o apoio da Polónia à Ucrânia na sua defesa contra a Rússia vai diminuir, disse Nawrocki.

A Ucrânia está grata à Polónia pelo seu apoio e permanecerá aberta a resolver as diferenças históricas com a Polónia, escreveu Zelensky no sábado na sua publicação. "Tenho orgulho do nosso povo e de CADA guerreiro ucraniano."

O chefe do Gabinete Presidencial da Ucrânia, Kyrylo Budanov, escreveu no Telegram que a decisão de Nawrocki foi "um ato hostil contra o nosso povo" e "um presente para o agressor, Moscovo, que certamente o usará contra ambos os nossos países".

Quatro autoridades ucranianas, incluindo Budanov, disseram que vão devolver as honras estatais que a Polónia lhes concedeu. Alguns na Ucrânia criticaram a decisão de devolver as condecorações polacas.

Arseniy Yatsenyuk, ex-primeiro-ministro da Ucrânia, escreveu na X que uma “decisão prejudicial e incorreta do atual presidente da Polónia não pode ser corrigida por outras decisões incorretas da nossa parte”.

Pedidos para resolução de diferenças

Está previsto que a Polónia seja a sede de um grande evento sobre a reconstrução da Ucrânia no pós-guerra na próxima semana, e espera-se que Zelensky compareça.

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, rival político de Nawrocki, pediu aos dois líderes que "moderem as emoções e não alimentem as tensões".

"A linha de frente está noutro lugar", escreveu Tusk nas redes sociais na sexta-feira à noite, acrescentando que a disputa entre a Polónia e a Ucrânia "alegra Putin e choca os nossos aliados".

No decreto que promulgou em maio, Zelensky afirma que a designação visava restaurar as tradições militares e reconhecer o desempenho da unidade na defesa da integridade territorial e da independência da Ucrânia.

O Exército Popular da Ucrânia (UPA) lutou pela independência da Ucrânia contra a Alemanha nazi e as forças soviéticas. Mas foi acusado de matar dezenas de milhares de polacos, principalmente nas regiões da Volínia e da Galícia Oriental, ocupadas pelos nazis. Em 2016, o Parlamento polaco reconheceu os crimes cometidos pelo UPA como genocídio.

Os ucranianos afirmam que formações armadas de ambos os lados, incluindo o UPA e as forças clandestinas polacas, estiveram envolvidas em ataques e represálias que resultaram num grande número de vítimas civis entre polacos e ucranianos.

A Polónia e a Ucrânia tinham recentemente feito progressos na questão da exumação de vítimas polacas. Uma reunião entre os dois presidentes em Varsóvia, em dezembro, sinalizou progressos na reconciliação histórica.

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