opinião
Psicólogo e Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. Será que até as guerras podem ter consequências positivas?

18 mar, 11:12

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

Já passaram mais de três semanas desde que se iniciou a guerra na Ucrânia. É evidente que a guerra é uma coisa má, que ninguém quer, ou pelo menos deveria querer. Seguramente, no fim, perdem todos, ainda que, tantas vezes, uns mais do que os outros. Mas também é certo que das guerras resultam, não menos vezes, evoluções, sejam elas tecnológicas ou sociais. Não compensa? Claro que não, mas isso não deve impedir de se colocar o foco, também, no que de positivo podem trazer.

Muito poucos acreditaram que uma guerra deste tipo pudesse acontecer na Europa, nos dias de hoje. Os motivos estarão relacionados, em boa parte, com a confiança intuitiva que se foi construindo, pelo menos no “ocidente”, de que a valorização dada ao Ser-humano, a partir da Declaração dos Direitos Humanos em 1948, seria impeditiva disso mesmo. Se nascemos iguais em dignidade e em direitos, então não fará sentido que as pessoas de um país possam ter mais direitos que as pessoas de outro. Na verdade, no “ocidente”, muitos dão como garantidas algumas das suas necessidades, nomeadamente as necessidades básicas, estruturadas hierarquicamente por Abraham Maslow a meio do século passado. De facto, a maioria sentirá, intuitivamente, que as suas necessidades básicas e de segurança estão garantidas. Este aparente excesso de confiança tem sido muito importante, pois liberta espaço e energia para promover o respeito pelos Direitos Humanos, uma vez que permite colocar o foco em outras dimensões. Muito se tem evoluído no respeito pela diferença, na procura de não estigmatizar as minorias, na criação de condições para promover o “Direito a um Futuro Aberto” e a uma maior igualdade de oportunidades à nascença.

No início da primeira década deste século viveu-se uma enorme crise económica, seguida de uma pandemia, que provocaram sofrimentos sérios em muitas pessoas e terá deixado poucos indiferentes. O sofrimento pode ser encarado como uma energia de motivação quando a pessoa sente e acredita ter condições de adaptação às circunstâncias vividas. Mas quando não, pode ser negativo, e o sofrimento pode evoluir para o desequilíbrio. Deste modo, podem desenvolver-se problemas de saúde mental ou a procura de apoio em algo maior, num modelo de pensamento mais dicotómico, com bons e maus identificados. No fundo, promove-se a adesão a modelos de pensamento mais rígidos porque mais seguros, o que pode contribuir para o desenvolvimento da polarização na sociedade. Estes movimentos aumentam, por exemplo, a sensação de perigo e intolerância em relação à diferença, o que pode contribuir para o desenvolvimento de nacionalismos e para a rejeição daqueles que vêm de fora (como se uns fossem melhores do que outros) e de ideias securitárias que defendem, por exemplo, o agravamento dos castigos (porque fica claro que existem pessoas boas e pessoas más).

A guerra que grassa na Ucrânia tem sido justificada por uma das partes como uma forma de auto-defesa e de combater o mal, legitimando deste modo o castigo necessário através de uma “operação militar especial”. Muitos Ucranianos vão, seguramente, necessitar de ajuda para lidar com as perturbações mentais que vão resultar desta crise profunda que estão a viver nas suas vidas. Outros vão, muito provavelmente, polarizar-se, e teremos que desenvolver formas de também os ajudar a procurar respostas mais equilibradas.

A história do mundo pode corresponder à história da vida de cada um de nós. Com esta crise tão grave, o mundo corre o risco de ficar mentalmente doente e de se polarizar. Muito se tem falado do regresso à guerra fria e à divisão do mundo em dois polos que se vão confrontar e procurar o equilíbrio no desequilíbrio de uns serem bons e os outros maus e vice-versa. Será, seguramente, um mau equilíbrio.

Assiste-se hoje a movimentos de grande solidariedade para com os Ucranianos. A resistência à emigração na Europa transformou-se, repentinamente, num movimento de solidariedade generalizado. São muitos os exemplos de pessoas que, neste momento agudo, têm disponibilizado do seu tempo e do seu conforto para ajudar aqueles que, objetivamente, mais estão a sofrer com a guerra. Esse é um exemplo importante de humanidade. É por isso uma consequência positiva da guerra. Mas importa que esta seja mais do que uma reação a favor dos “bons” para os proteger dos “maus”.

Veremos qual o impacto dos efeitos da crise económica que se avizinha, do aumento do preço da energia e dos processos de simplificação que, inevitavelmente, vão surgir nos próximos tempos. Mas, quero acreditar, que aqueles que têm mais acesso à informação, ao conforto da “nossa” civilização e de uma educação centrada nos Direitos Humanos, vão ser suficientemente capazes de manter pontes de humanidade num mundo que sendo global, é necessariamente de todos. E que esta solidariedade para com aqueles que sofrem será mais do que uma reação de defesa em relação à violência e à proximidade das imagens que nos chegam.

A Psicologia terá, mais uma vez, um importante papel a desempenhar, orientando as pessoas na gestão do seu sofrimento e repetindo que aquilo que mais nos torna humanos é a nossa capacidade de nos relacionarmos com os outros. Por isso mesmo, o isolamento em certezas, por seguro que pareça em momentos difíceis, não contribui para a adaptação às crises. Dar sentido a tudo isto que está a acontecer será, enfim, tirarmos sentido das relações com os outros. Aí sim, poderemos dizer que resultaram algumas consequências positivas desta guerra.

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