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Houve alertas aéreos e debates profundos. Jovens portugueses e ucranianos estiveram juntos em Lviv. "Foram os melhores dias deste ano"

Maria João Caetano , em Lviv, na Ucrânia
8 set 2025, 14:32
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Houve alertas aéreos e debates profundos, momentos emocionantes e até uma noite de festa. No final, os jovens portugueses e ucranianos que participaram no Enlargement CEmp trocaram os contactos e prometeram reencontrar-se, de preferência, dizem, já sem guerra e sem demoras nas fronteiras - ou seja, com a Ucrânia na União Europeia

Descoberta. Partilha. Conhecimento. União. Experiência. Coragem. Empatia. Conexão. Amor. No último dia do programa do Enlargement CEmp, todos os participantes - jovens portugueses e ucranianos e elementos da organização - foram desafiados a resumir a experiência numa palavra. Juntos numa enorme roda, foram revelando as suas palavras e explicando o que levavam destes dias em Lviv, na Ucrânia. Inspiração. Amigos. Trocas. Força. Esperança. 

Os campos de férias de jovens, sejam de que tipo forem, dedicados ao futebol ou à política, têm isto em comum: são dias de muitas emoções, em que, além das atividades propostas, os jovens partilham os quartos com pessoas que até aí não conheciam, partilham as suas histórias de vida e fazem amigos. E este Enlargement CEmp, idealizado pela Representação Portuguesa da Comissão Europeia e organizado pela Agência Erasmus+ em conjunto com a Embaixada da Ucrânia em Portugal e o Município de Lviv, não é exceção. No momento das despedidas, derramaram-se lágrimas, deram-se abraços apertados, trocaram-se contactos, fizeram-se promessas e convites: um dia têm de nos visitar, disseram os portugueses aos ucranianos; iremos, prometeram os ucranianos em inglês, a língua franca deste encontro. 

Bom, não para todos, há que dizê-lo. Entre o grupo de portugueses, Miguel Silva é um dos poucos que fala ucraniano. Miguel tem 23 anos e é de Aveiro, onde estudou Engenharia Biomédica e Ciências de Dados. “Eu não tinha qualquer relação com a Ucrânia, no entanto, quando a guerra começou não consegui deixar de acompanhar o que se estava a passar e de sentir compaixão e solidariedade pelo povo ucraniano”, conta. Além de estar envolvido com um grupo universitário cristão que realizou iniciativas de apoio à Ucrânia e de ter tido a oportunidade de vir à Ucrânia em 2024, Miguel decidiu aprender ucraniano, sozinho, “simplesmente por solidariedade”. 

“Não foi difícil, foi um processo longo, mas que me deu muito prazer”, conta. Começou com o Duolingo, mudou o seu telefone para ucraniano, inscreveu-se numa aplicação para praticar a conversação com falantes nativos, e fez amigos ucranianos entre os jovens refugiados que vieram para a Universidade de Aveiro. “Foi preciso conversar, ler muito e escrever, mas consegui.”

Miguel Silva aprendeu ucraniano sozinho.

E, pelos vistos, aprendeu bem, pois recebeu vários elogios dos jovens ucranianos. “Esta experiência foi muito enriquecedora. Foi emocionante saber as histórias de vida de cada um deles, de onde é que eles vieram, de que sítio é que eles fugiram da guerra”, conta Miguel. “Foi uma experiência para mim diferente, porque eu não sou da área da diplomacia ou da política, aprendi imenso e ajudou-me a perceber qual é o impacto do alargamento da União Europeia. É mesmo uma coisa muito importante para os ucranianos e está a ser também incrível ver como é que eles estão muito gratos por nós estarmos cá. Nós achamos que não estamos a fazer quase nada, só estamos a cruzar a fronteira com a Polónia, mas sinto que eles estão mesmo contentes por sentirem o nosso apoio.”

“O compromisso muito forte destes jovens de trabalhar para um futuro melhor, para a paz, trabalhar e a prosperidade, excedeu as expectativas”

Apoio foi precisamente a palavra escolhida por Anna Kryzhanivksa, 20 anos, estudante de direito internacional. “A integração europeia é um dos meus vetores de trabalho. Estudo principalmente o direito internacional público e o direito europeu, os direitos humanos, foi por isso que decidi participar neste campo de férias. Na verdade, não sabia muito sobre Portugal e sinto-me muito envergonhada porque descobri a ajuda que os portugueses deram à Ucrânia. E agora quero mesmo saber mais sobre o país. Estamos muito gratos por toda a ajuda prestada ao nosso povo. É assim que podemos coexistir. É assim que a União Europeia funciona, com os estados a trabalhar em conjunto.”

Anna Kryzhanivksa, 20 anos, estudante de direito internacional.

Outros jovens ucranianos escolheram palavras como gratidão ou obrigado. “Acho que uma das maiores surpresas para todos nós foi o facto de termos um apoio tão grande de Portugal, um país que está longe da Ucrânia, que não é uma superpotência militar, que não é tão grande como alguns outros países europeus”, diz Nasar Kostiachenko, de 21 anos. 

Para Martim Moniz, estudante de Biologia que tem 20 anos e veio da Madeira, estar no Enlargement CEmp foi a sua "maneira muito pessoal de participar como cidadão ativo para construir o projeto da Europa que eu quero ter e o mundo onde quero viver daqui a 5 ou 10 anos”. E é também "uma oportunidade espetacular para defender os meus valores, defender os valores da democracia, porque, como temos falado, uma ameaça à democracia na Ucrânia é uma ameaça à democrac ia em Portugal e no mundo inteiro.”

“Nunca tinha pensado em estudar relações internacionais, mas quando a guerra começou, percebi que queria mudar alguma coisa, porque algumas políticas europeias não estavam a funcionar muito bem”, conta Kateryna, de 18 anos, que é de Kharkiv e estuda em Kiev. “Também foi por isso que quis estar nesta iniciativa e perceber de que forma é que posso participar mais. Gostaria mesmo de um dia trabalhar nas  instituições europeias para tornar o nosso mundo melhor.”

Durante o Enlargement CEmp os jovens tiveram oportunidade de debater inúmeros temas ligados à União Europeia, desde a segurança à democracia, os desafios do mundo digital, a economia, as possibilidades de alargamento e os argumentos para a integração da Ucrânia. Historiadores e politólogos, deputados e diplomatas ucranianos, juntaram-se aos especialistas portugueses, como Ricardo Borges de Castro, Cátia Carvalho e Pedro Fonseca Moniz nesta discussão.

O que aconteceu nestes quatro dias em Lviv? Sofia Moreira de Sousa, representante da Comissão Europeia em Portugal, responde com um sorriso de satisfação na cara: “Aconteceu a Europa. Aconteceu a materialização daquilo que são os valores europeus, do diálogo, da empatia, da solidariedade, de aprender uns com os outros. O compromisso muito forte destes jovens de trabalhar para um futuro melhor, trabalhar para a paz, trabalhar para a prosperidade, excedeu as expectativas.”

Sofia Moreira de Sousa em conversa com a CNN Portugal.

“Provamos que a Europa não se faz apenas de cimeiras e de encontros ministeriais, que são importantes, mas faz-se também de trocas entre pessoas, de sentimentos, de ouvir, de partilha e que a noção de democracia e de valores partilhados não pode ser só aprendida de forma digitalizada. Não é só virtualmente e olhando para um ecrã que podemos saber como é o outro lado. É importante estar, é importante respirar, sentir, cheirar, partilhar os silêncios, partilhar os ritmos.”

Álvaro Borges, açoriano de 25 anos, resume tudo nesta ideia: “Como dizem os ucranianos: unidos venceremos, divididos cairemos. Penso que isto se aplica também à Europa”

“Sinto que é um cliché dizer que foi muito enriquecedor, mas é mesmo verdade”, conclui Sara Pacheco, de 25 anos. “Tanto nos momentos formais e nas sessões como nas conversas que conseguimos ter nos buraquinhos do programa, estou a aprender muito com as pessoas com quem vou falando. Debatemos muito a questão do alargamento, mas também outras questões relacionadas com a União Europeia. Eu sinto-me mais europeia do que portuguesa, na verdade. Não sei bem explicar, mas simplesmente sinto isso.”

 

“Sinto que é um cliché dizer que foi muito enriquecedor, mas é mesmo verdade”, conclui Sara Pacheco.

Sara estudou Direito e fez um mestrado em Direitos Humanos, por isso para ela este Enlargement CEmp faz todo o sentido: “Nunca tinha estado num país em guerra. O mais parecido tinha sido o Kosovo, que era um país em situação de pós-guerra. Foi uma viagem de estudos e essa experiência foi muito impactante para mim. Poder agora vir a um país que está em guerra, mas num contexto seguro e com apoio institucional, e poder aprender com ucranianos, da minha idade e não só, sobre o que é que eles estão a viver, tem sido incrível. Em todas as profissões e na vida é importante ser empático, mas acho que profissionais de direitos humanos têm mesmo essa obrigação.”

“Quando regressar a casa serei uma pessoa diferente”: para estes jovens a amizade pode ser transformadora

“Antes deste encontro, pensava que os portugueses e os ucranianos eram muito diferentes, porque viemos de muito longe uns dos outros, como se fossem dois lados diferentes da Europa. Mas depois percebi que somos tão próximos, sabes, que a nossa maneira de pensar é muito parecida. E isso é muito interessante. Acredito que os jovens de todo o mundo são todos muito parecidos, porque hoje em dia este é um mundo global”, diz Kateryna.

À medida que os dias passavam, os jovens portugueses e ucranianos foram encontrando mais pontos de ligação do que imaginavam ter. “O que temos em comum é o core dos nossos valores, o facto de sermos jovens ativos, de termos esta necessidade, esta vontade de participar no processo democrático, de construir o mundo que nós queremos ver amanhã, e acho que isso é o que nos une a todos os portugueses e ucranianos aqui”, resume Martim. 

Kateryna, de 18 anos, é de Kharkiv e estuda em Kiev.

“Claro que ao falar com eles percebo que eles viveram experiências que eu não consigo sequer imaginar e têm muita coisa para me ensinar. Tivemos vários momentos de uma partilha mais profunda e são histórias que ainda estou a processar mas quero partilhar quando chegar a Portugal", explica Martim. "Foi por isso que escolhi a palavra partilhar. Nós aqui partilhamos momentos, partilhamos histórias, partilhamos emoções, partilhamos tudo e mais alguma coisa, e partilha também é o que eu pretendo fazer quando voltar para casa, contar o que eu vivi aqui e não deixar que fique só comigo.”

Martim Moniz e Ana Sufrai durante uma conversa com a CNN Portugal.

“De Portugal sabia muito pouco”, admite Anna Hrykorieva, de 18 anos, estudante de Relações Internacionais. “Conhecia o Cristiano Ronaldo, claro, e sabia que a ilha da Madeira é um sítio muito bonito. Infelizmente não sei português, mas estou a aprender espanhol, por isso consigo perceber algumas palavras. Estou um pouco cansada mas adorei toda a experiência. Partilhámos imensas ideias e tenho tantos amigos novos. Acho que quando regressar a casa serei uma pessoa diferente, porque realmente aprendi imensas coisas e acho que o meu inglês melhorou.”

Anna Kryzhanivksa, de 20 anos, estudante de direito internacional, ficou comovida pelo facto de muitos portugueses se terem juntado a eles no minuto de silêncio com que, todas as manhãs, por volta das 9:00, os ucranianos prestam homenagem aos heróis que morreram na guerra. “Na escola, na rua, em todo o lado, o país inteiro pára por um minuto às 9:00 da manhã. Este sinal de respeito pelos que morreram por nós é o mínimo que toda a gente pode fazer”, explica.

“Os portugueses são mais expressivos, mais barulhentos”, comenta Kateryna. “Fiquei até um pouco chocada porque os meus ouvidos não estavam habituados, mas mesmo assim é muito engraçado porque os portugueses são muito abertos e acabámos por passar muito tempo juntos e criar relações. Por causa do recolher obrigatório não podíamos sair à noite, mas fomos para os quartos uns dos outros e conversámos muito, foi muito divertido. Esses foram sem dúvida os melhores momentos.”

A visita ao cemitério de Lviv onde estão sepultados mais de 1.200 militares mortos na guerra desde 2022 foi eleito por vários participantes como um dos momentos inesquecíveis da semana, a par da visita ao Unbroken Center, o centro de reabilitação topo de gama que, graças ao financiamento de parceiros internacionais, recebe os muitos feridos da guerra, sobretudo aqueles que foram afetados pela explosão de bombas e minas e viram alguns dos seus membros amputados. Mas, claro que, no momento das despedidas, quando têm de dizer o que foi mesmo o melhor de tudo, todos, sem exceção, falam da partilha e da amizade.

Depois da última sessão oficial do programa, aquela com as palavras, o jantar aconteceu ao som de um DJ e algo mágico aconteceu: jovens portugueses e ucranianos juntaram-se a dançar as músicas que todos conhecem - fosse de Katy Perry ou de Juanes - e até conseguiram não errar os passos e dançar até ao fim a coreografia da “Macarena”. “Essa foi sem dúvida a noite mais especial”, diz Aleksandr, o jovem que surpreendeu todos com uma dança popular ucraniana. “Depois de dançarmos todos juntos, a festa continuou nos quartos, conversámos a noite toda. Quase não dormimos e ficámos muito cansados, mas valeu a pena. Foi incrível.”

“Estes foram os melhores dias deste ano, não tenho qualquer dúvida sobre isso”, diz Nasar. “Foi absolutamente fantástico, espantoso e de cortar a respiração”, concorda Nelli Akopian, de 18 anos. “Adorei as pessoas, adorei a organização, todos os projetos, todas as conversas que tivemos aqui. Sinto o amor puro e o carinho dos portugueses. Sinto-me acolhida. Sinto que, apesar de termos nacionalidades diferentes, somos todos iguais.”

“A Europa somos nós. E, portanto, será aquilo que nós quisermos que seja e aquilo que nós fizermos para que aconteça”, conclui Sofia Moreira de Sousa, explicando que um dos grandes objetivos com a realização deste tipo de iniciativas é consciencializar os jovens para o papel de cada um neste projeto. Não é por acaso que muitos dos participantes de ambos os países são estudantes de Ciência Política, Relações Internacionais e Direitos - é muito provável que neste grupo estejam futuros funcionários de Bruxelas. Mas a participação na Europa vai muito além disso e essa foi uma das mensagens que a representante portuguesa quis passar ao grupo: “Temos estas conversas num grupo restrito, mas aquilo que cada um vai levar à sua família, aos seus amigos, à escola, à universidade, ao seu contexto de trabalho, consegue ampliar muito mais esta mensagem. Aquilo que queremos é que surjam outras iniciativas - que pode ser um encontro de café, no bairro de cada um, mas vamos falar da Europa e vamos pensar o que é que vamos fazer para fazer a Europa ainda melhor hoje e amanhã.”

Na última manhã em Lviv, enquanto faziam as malas para voltar a Portugal, uns, para voltar para as suas cidades na Ucrânia, outros, soaram mais uma vez os alarmes em Lviv. Eram 6:00 da manhã e o país estava todo alerta durante aquele que foi o maior ataque da Rússia desde o início da guerra, com 810 drones e 13 mísseis, e os jovens juntaram-se no abrigo do hotel, alguns ainda de pijama, olhando para os telemóveis e jogando à sardinha, todos juntos pela última vez. Até que, finalmente, a aplicação de segurança que tinham instalada nos telemóveis anunciou, com uma voz vinda do além, qual Obi-Wan Kenobi da Guerra das Estrelas: “O alerta aéreo acabou. Que a força esteja convosco.” E foi assim que terminou a viagem.

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