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“Agora está mais calmo. Mas não sabemos como será amanhã”. No Urban Camp de Lviv o break dance ajuda os refugiados da guerra a refazer a sua vida

Maria João Caetano , em Lviv, Ucrânia
5 set 2025, 10:43
Break dance (para foto de capa)

Os jovens portugueses e ucranianos que participam no Enlargement CEmp tiveram oportunidade de conhecer o trabalho do Urban Camp de Lviv, onde vivem atualmente 42 pessoas que tiveram de deixar as suas casas no leste do país devido à guerra

“Estão a divertir-se? Digam yeaaaaaah!” Os jovens respondem “Yeaaaaah”. Batem palmas ritmadas enquanto os b-boys mostram os seus melhores movimentos de break dance. “Isto foi surpreendente”, comenta uma das raparigas. Quem haveria de dizer? Durante toda a manhã os participantes no Enlargement CEmp estiveram no Urban Camp de Lviv, na Ucrânia, a debater os desafios da União Europeia e nem imaginavam que naquele espaço semiarruinado havia jovens como eles a girar de cabeça no chão e a ensaiar complicadas coreografias. Foi só depois do almoço, quando os jovens estavam reunidos em pequenos grupos de trabalho, que Viktor Chulanovskyi apareceu, com um microfone e uma coluna portátil e os levou a uma visita guiada pelo espaço.

O que é afinal este Urban Camp? Quando os russos invadiram o território ucraniano, em 2022, Viktor deixou Kharkiv com a mulher e os dois filhos. Escolheu mudar-se para Lviv porque tinham amigos na cidade que os poderiam receber. “Tínhamos uma casa onde morar, mas muitas outras pessoas não. Quando cheguei a Lviv, em março, vi muitas pessoas na estação de comboios que não tinham onde ficar, que deixavam as malas, crianças perdidas, pessoas que não tinham os documentos necessários. Situações muito complicadas. E eu decidi que tinha de ajudar as pessoas, de trabalhar como voluntário. Só tinha um microfone e um pequeno sistema de som, mas tentava dizer às pessoas onde eram os autocarros, quais as organizações de voluntários onde poderiam ficar, onde podiam ter comida quente, porque algumas pessoas não tinham nada, fugiram ou foram deslocadas e não puderam trazer nada e isso é terrível. Vi essas histórias com os meus olhos.”

Em Kharkiv, Viktor já integrava um grupo de arte urbana e tinham a ideia de criar um campo de férias onde os miúdos tivessem oportunidade de aprender mais sobre a “cultura urbana” e ao mesmo tempo divertirem-se. “Então pensámos que podíamos adaptar a ideia e fazer algo aqui, ter um sítio para ajudar as pessoas que vinham da linha da frente e ao mesmo tempo desenvolver a street culture.”

O primeiro urban camp foi numa escola ao lado da estação de comboios, que estava fechada por causa da guerra. No ginásio havia mesas de ping pong e aulas de ténis. Os balneários tinham dois chuveiros. Nas salas de aula foram colocadas 35 camas. E ainda havia uma pequena cozinha. “Dávamos um espaço de graça às pessoas que precisassem para morar durante duas ou três semanas, um mês, para se adaptarem à situação, até conseguirem ir para outra cidade ou arranjar uma casa, ter uma vida normal”, conta Viktor.

Depois, em setembro, as aulas recomeçaram e tiveram de deixar a escola. “Mas a situação continuava crítica, ainda havia muitas pessoas a precisar de ajuda.” Foi então que pediram ajuda à Câmara Municipal de Lviv e que encontraram o edifício para onde se mudaram em 2023, um antigo Palácio da Cultura dos tempos da União Soviética, localizado ao lado de uma fábrica. O edifício estava abandonado há vários anos, não tinha janelas, não tinha eletricidade. “Não tinha nada, estava em ruínas”, recorda Viktor. “Tivemos a ajuda de muitos voluntários, um financiamento da Capital Europeia da Cultura e outras parcerias. Sem essa ajuda não teríamos conseguido.” Na verdade, o espaço ainda só está semi remodelado, há uma parte que ainda continua fechada, mas as obras avançam.

Ali funciona agora o “Urban Camp” que é um centro para a juventude dedicado à arte urbana. Já tem cozinha e casa de banho, uma sala de conferências e de convívio, salas de trabalho, um campo de basquete no exterior e um ginásio no interior, sala de ensaios para os break-dancers. Um pit de skate está ainda em construção. Por outro lado, uma das partes do edifício funciona como residência para pessoas deslocadas da guerra, com camaratas e cacifos onde podem guardar os seus pertences. O espaço tem capacidade para 100 pessoas e neste momento acolhe 42. “Agora está mais calmo. Mas não sabemos como será amanhã”, adverte Viktor. Acolhem todo o tipo de pessoas, mas estão focados sobretudo nos mais jovens e nas mães com filhos pequenos. “Temos feito um trabalho gigantesco. Isto é muito mais do que um summer camp ou um urban camp. É a nossa missão. É essa a nossa energia, tentar perceber o que as pessoas precisam e ajudar”, diz Viktor.

Em duas das paredes ainda são visíveis os enormes painéis de azulejos do edifício original, mas há cada vez mais graffitis a colorirem as paredes. A batida do hip hop dá o ritmo e os jovens podem ali ensaiar os movimentos de um b-boy, improvisar umas rimas, treinarem habilidades com uma bola de futebol ou de basquete, fazerem parkour ou andarem de skate. A imaginação é o limite. “Alguns dos miúdos moram aqui, outros são do bairro, trabalhamos com a comunidade.”

Sessão de trabalho do Enlargement CEmp. Ao fundo vê-se um dos painéis de azulejos do edifício original

Os jovens portugueses e ucranianos que estão a participar no Enlargement CEmp tentaram fazer algumas habilidades de freestyle football e divertiram-se a acertar com a bola de basquete no cesto. Mas o melhor de tudo foi mesmo ver os breakdancers. E, no final da visita, deixaram a sua marca (os graffiters dizem tag) num painel que ficará como memória deste dia.

No âmbito da Capital Europeia da Cultura, o Urban Camp tem participado em algumas iniciativas juntamente com a Agências Erasmus + e no início do ano estiveram em Portugal para apresentar alguns espetáculos. “Tentamos inspirar as pessoas com a nossa música e as nossas acrobacias. A cultura urbana é universal, os jovens de todo o mundo conseguem identificar-se e é muito fácil relacionarmo-nos”, diz Viktor. “Aprendi muito com a guerra. Aprendi que não há diferenças entre a Ucrânia do Leste e do Oeste. As pessoas com quem trabalhamos apoiam-se umas às outras, não interessa de onde viemos. Todos temos amigos que estão na linha da frente. Ou trabalhamos todos juntos ou não conseguiremos nada.” 

Os jovens participantes do Enlargement CEmp tiveram oportunidade de conhecer o trabalho do Urban Camp de Lviv. Ao centro, em baixo, está Viktor Chulanovskyi

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