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Major-general

Está a valer a pena apoiar o esforço de guerra ucraniano

11 set, 12:07

Tudo aponta para que o dilema operacional, ou seja a dispersão a que as forças russas foram obrigadas nos territórios ocupados acabou por resultar numa fragilidade estratégica que agora está a ser devidamente explorada pelas forças ucranianas em ambas as frentes. No leste e no sul.

As ações tendentes à libertação do Oblast de Kherson, anunciadas de forma explícita e reiterada, credibilizadas pela concretização sistemática de ações ofensivas na profundidade do terreno ocupado, visaram desarticular a capacidade de comando e controlo do dispositivo defensivo das forças russas e impedir o seu regular apoio logístico particularmente a oeste do rio Dnipro. Em consequência, isolando-as e obrigando o Kremlin a balancear forças de leste para sul rarefazendo o dispositivo militar terrestre no Donbass.

Aproveitando aquilo que vulgarmente designamos por “ponto fraco”, no leste da Ucrânia estão a decorrer ataques organizados e planeados dignos de registo.

Em particular no Oblast de Kharkiv a contra-ofensiva ucraniana conseguiu penetrar mais de cinquenta quilómetros nas linhas inimigas num espaço temporal muito curto. Em cerca de três dias apenas estamos na eminência de ver cortadas as principais linhas de comunicação terrestres que permitem o fluxo ininterrupto de apoio logístico às forças da Federação Russa, particularmente a linha de caminho-de-ferro que tanta importância tem para esse mesmo apoio.

Na frente Sul, na região do Oblast de Kherson, o ritmo das contra ofensivas, a oeste no Dnipro, embora lento, tem sido progressivo e constante.

Provavelmente o manifesto sucesso das contra ofensivas ucranianas, pelo menos por enquanto e em ambas as frentes não será igualmente alheio ao facto das forças russas não disporem de quantidades inesgotáveis de munições de artilharia que lhe permitam continuar a fazer a “impiedosa guerra do fogo”, tudo reduzindo a escombros, como tem sido prática corrente da atuação russa desde o tempo de Josep Estaline, continuando a disparar, segundo várias fontes, aproximadamente sessenta mil munições deste tipo diariamente. A situação cada vez se torna mais parecida com a da frente leste na Primeira Guerra Mundial.

A prova de que o arsenal está a ficar curto é a anunciada compra deste tipo de munições à Coreia do Norte. Por outro lado, no que à reserva de mísseis diz respeito a Rússia também se debate com a incapacidade de repor os respetivos stocks, agravada sobretudo pela falta de acesso à tecnologia que os permite produzir, em especial os de grande alcance e precisão, em virtude das sanções tecnológicas a que se encontra sujeita. Pelas mesmas razões a Federação Russa também já se viu obrigada a adquirir ao Irão cerca de um milhar de drones. Em síntese, o complexo militar industrial russo não está a ser capaz de responder às necessidades decorrentes das operações militares em curso na Ucrânia.

Talvez por isso mesmo, os “Milbloggers” russos comecem a por em causa a capacidade das forças de Moscovo de dar continuidade com sucesso à ofensiva na Ucrânia e a não acreditar na narrativa do Kremlin segundo a qual a contra ofensiva ucraniana é uma fábula, que simplesmente não existe e que tem sido um desastre. Segundo o Kremlin trata-se sobretudo de um ato desesperado de Volodymyr Olexandrovytch Zelensky para mostrar serviço a quem o tem apoiado a si e ao povo ucraniano, diga-se ao Ocidente alargado, aos seus responsáveis e às suas populações.

Na Federação, internamente a situação põe em evidência indícios de algum descontrolo. As narrativas dos seus habituais “Milbloggers” (sempre muito ativos nas redes sociais e ávidos coniventes das ações de propaganda moscovita) que até agora foram coincidentes com as do Kremlin começam finalmente a divergir.

“Think Tanks” e analistas militares ocidentais de que destacaria o próprio Secretário da Defesa dos EUA, General “Retired” Loyd Austin, assinalam de forma unânime e muito positiva os avanços ucranianos registados nos últimos tempos e em ambas as frentes.

Parece que afinal está a valer a pena apoiar o esforço de guerra ucraniano. A Ucrânia tem-no sabido merecer com coragem, muita valentia e espírito de sacrifício sem limites das suas gentes, militares e civis. Este nosso apoio apenas pecou por ter vindo a ser lento. Muitas vidas teriam sido poupadas e esta contenda poderia ter sido resolvida ainda antes do inverno que se avizinha. Tudo indica que a guerra cujo sucesso agora pende claramente para o lado ucraniano ficará, digamos, temporariamente “congelada” pelo rigor do próximo inverno. É bom ter em conta que nestas paragens as temperaturas podem chegar facilmente aos 30 graus centígrados negativos, temperaturas completamente impraticáveis para as forças e equipamentos militares terrestres.

Mas a primavera acabará por chegar. Trará consigo renovada força e vigor aos combatentes ucranianos e a todos os outros que decidiram voluntariamente juntar-se-lhes. Então melhor treinados, equipados e moralizados, assim o Ocidente alargado não fraqueje e continue a apoiar este esforço de guerra com mais e melhores recursos.

Esta peleja que já é nossa, só poderá ter um desfecho, a derrota da Rússia agressora nas planícies, florestas e cidades da Ucrânia.

Assim lograremos merecer uma paz duradoura - e não a qualquer outro preço - nesta Europa na qual queremos e merecemos viver em tranquilidade.

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