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Psicóloga, Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. Crianças refugiadas não acompanhadas: como a psicologia pode apoiar o seu superior interesse

31 mar, 17:09

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

Em contextos de conflito armado, como aquele que ocorre na Ucrânia, as crianças são porventura o grupo em situação de maior vulnerabilidade psicológica. Testemunharam bombardeamentos, perderam a sua casa, assistiram ao desaparecimento, ferimento ou morte de entes queridos e, face ao colapso do estado de direito, ficaram especialmente vulneráveis a fenómenos de trafico de seres humanos, exploração sexual e/ou raptos.

Estas ameaças e experiências de grande adversidade, podem perdurar muito depois da violência ter cessado e associar-se a problemas de saúde mental, incluindo distúrbios de stress pós-traumático, desregulação emocional, depressão e pensamentos ou comportamentos suicidas. Quanto mais prolongada e precoce foi a exposição, maior parece ser o risco de haver impacto no neurodesenvolvimento da criança, e daí poderem resultar prejuízos para toda a vida. 

De acordo com a UNICEF, foram já 1,5 milhões de crianças que se viram forçadas a fugir da Ucrânica. Algumas destas crianças têm chegado e continuarão a chegar a Portugal acompanhadas por adultos que, porventura, não são os seus pais ou legais representantes, e outras evacuadas de instituições de acolhimento residencial na Ucrânia para casas de acolhimento em Portugal (na ausência de respostas de acolhimento familiar). Em qualquer caso, estas são crianças que estão numa situação que deve ser avaliada e acompanhada pelas entidades competentes nestas matérias, neste caso concreto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e, nesse seguimento, Comissões de Protecção de Crianças e Jovens ou Tribunais.
 

Outras questões essenciais do domínio da Psicologia se colocam em relação à forma como estas crianças são recebidas, apoiadas e integradas na comunidade e no país.

Recepções barulhentas, com uma série de rostos e vozes estranhas, bandeiras em riste, flashes de câmaras e jornalistas a cobrirem a boa vontade das organizações, podem não ser a solução que melhor atende ao que estas crianças necessitam. Perante uma recepção esmagadora destas, como se sentem estas crianças sensorialmente sobrecarregadas pelas experiências avassaladoras pelas quais passaram? Será que as circunstâncias são para ser celebradas? Seria, porventura, mais responsiva uma recepção com uma estimulação mais reduzida, e com a presença de apenas algumas pessoas-chave que se pudessem concentrar na ligação com a criança?

O sentimento de segurança da criança não pode ser dado por garantido. Estas crianças apesar de estarem em Portugal “seguras”, onde não existe guerra, podem não se sentir em segurança. É um momento solitário e assustador e, por isso, os adultos cuidadores precisam de despender tempo no desenvolvimento da relação e da confiança, fundamentais para que a segurança floresça. Este tempo é o da criança e a permanência e persistência (respeitadora e responsiva) do adulto são essenciais.

Os ambientes onde a criança se irá movimentar precisam de ser informados e responsivos quanto ao trauma. Campainhas altas que ecoam pelas escolas ou casas de acolhimento, alarmes que disparam, obras com martelos pneumáticos, conteúdos programáticos que ilustram cenários de guerra, ambientes de conflito verbal ou físico são gatilhos que podem suscitar respostas emocionais severas. Os adultos necessitam de ser apoiados a “ler” os comportamentos destas crianças e a responder de forma sensível, bem como a identificar que gatilhos existem nos ambientes e de que forma os podem minimizar.

Em suma, as políticas e as práticas em torno das crianças refugiadas não acompanhadas devem adoptar perspectivas de avaliação e intervenção verdadeiramente centradas nas suas características e necessidades psicológicas, o que significa, por exemplo, que todos os esforços necessitam de ser feitos para avaliar a possibilidade de reunificação familiar. A variedade e complexidade das situações que levaram a que estas crianças tenham sido separadas das suas famílias, e as diversas necessidades das próprias crianças, ensinam-nos que nenhuma organização pode esperar intervir sobre a situação de forma individual. Problemas complexos exigem intervenções colectivas e colaborativas. A Psicologia pode ter um papel fundamental para que o interesse das crianças esteja no centro da tomada de decisão.

As crianças pedem e merecem a melhor protecção que possamos disponibilizar.

 

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