Como a guerra fez de uma adolescente ucraniana uma autora de manga publicada no Japão

28 ago, 12:00
Akari Sayaka

Uma ucraniana de 16 anos retrata o seu dia a dia num país em guerra através de manga, a banda desenhada em estilo japonês. Uma editora de Tóquio reconheceu-lhe talento e publicou o diário de Akari, sobre uma adolescente ucraniana que tem traços de boneca japonesa

Akari não existe - é uma personagem de manga, o estilo de banda desenhada tradicional do Japão. Akari Sayaka existe - é o alter ego japonês de uma adolescente ucraniana de 16 anos. A Akari fofinha e sorridente das páginas de banda desenhada - conhecida carinhosamente pelo diminuitivo Akari-chan, ou "Akarizinha" - é ficcional, mas a sua autora, que assumiu o pseudónimo Akari Sayaka, é bem real. O seu nome verdadeiro soa bastante menos japonês e bastante mais ucraniano, mas o que importa nesta história é que as vidas de ambas coincidem: as pequenas histórias do dia a dia da Akari-desenho são retirados do quotidiano da Akari-autora.

A Akari-desenho é entusiasta de manga, adora flores e guloseimas, aventura-se a fazer bolos com a mãe e esmera-se quando vai visitar a avó. E, tal como a Akari-autora, vive numa Ucrânia em guerra. Ouve os alarmes de bombardeamento aéreo, protegeu as janelas de casa com livros e fita-cola, habituou-se ao som das bombas a cair à distância. Tudo isto é real. É a vida da verdadeira Akari, a jovem ucraniana de 16 anos a quem a guerra sobressaltou a vida há exatamente seis meses. E a quem a guerra permitiu, por ironia, concretizar o seu maior sonho.

Há seis meses, a jovem autora ucraniana publicava o seu trabalho no Twitter, para muito poucos seguidores. Hoje, tem a sua obra publicada por uma reconhecida editora de Tóquio, especializada em manga. É a única autora não-nipónica no catálogo da BookLive. Com contrato assinado e ideias para livros mais ambiciosos no futuro.

A descoberta aos 12 anos

Comecemos pelo início. Akari - chamemos-lhe assim, pois não revela o seu verdadeiro nome, por razões de segurança relacionadas com a guerra no seu país - conta-nos que descobriu a manga “talvez há cerca de seis anos”. Foi a consequência natural de se ter encantado por anime, os desenhos animados japoneses que fazem sucesso em todo o mundo. Conforme se foi aventurando pelas páginas virtuais da manga a que tinha acesso online, foi-se apaixonando por esta forma de arte e de contar histórias. “Achei que era um estilo maravilhoso, os desenhos, as emoções e as personagens impressionaram-me muito.”

Akari decidiu que também queria saber desenhar assim. A princípio, desenhava com o dedo, no telemóvel. Conforme foi levando a aventura a sério, passou a desenhar em computador. Tinha decidido: “Também eu queria desenhar uma obra-prima de manga. Decidi que no futuro havia de ser uma artista de manga.”

Há exatamente um ano, Akari descobriu o site de uma editora em Tóquio que parecia recetiva a novos artistas. Enviou-lhes os seus desenhos e quis saber se teria alguma hipótese de ver um dia o seu trabalho publicado. Responderam-lhe que não desistisse. 

Numa sala de reuniões da tal editora de Tóquio especializada em manga, Yojiro Kawada, diretor de conteúdos da BookLive, conta à CNN Portugal que não é muito comum receberem propostas de trabalho de autores tão jovens, ainda para mais, oriundos da Europa. “É algo raro até este momento. No entanto, pessoas com talento, inclusive estrangeiros, são sempre bem-vindos para criarmos conteúdo juntamente.”

Kawada reconheceu esse talento em Akari. “Aconselhamo-la a desenhar 'yon koma manga' [histórias curtas de quatro quadros], no formato de um diário, e dissemos-lhe que os publicasse no Twitter, para observar a reação do público, e como uma forma de treino.”

A guerra entra na história

Foi então que a Rússia invadiu a Ucrânia. E a guerra entrou na vida da adolescente ucraniana que gostava de desenhar manga, e na vida da personagem de manga desenhada por ela. Os desenhos foram a forma de Akari lidar com a nova realidade do seu país e do seu quotidiano.

“A manga é algo muito emotivo, e os 'yon koma manga' são muito fofos, então eu achei que seria espetacular mostrar a história desta personagem, uma menina ucraniana, a Akari-chan, e como ela se depara com situações desagradáveis no seu dia a dia [por causa da guerra].”

Apesar do medo, da ameaça e da incerteza, Akari optou por desenhar sempre um lado mais positivo desta nova realidade. “Achei que não deveria focar-me nas coisas mais terríveis, ou na política, porque isto não é um noticiário. Mas em pequenos episódios do meu quotidiano, que têm a ver com a Ucrânia, mas também com todo o mundo.”

Mas nem todo o mundo sabe o que é viver com a guerra à porta de casa, como Akari. A jovem prefere não revelar em que cidade vive, mas diz que é uma região onde “as coisas estão relativamente calmas”. Apesar disso, o seu quotidiano passou a ser marcado pela realidade da guerra, com os constantes “alertas de ataque aéreo, ou o som de explosões, que se ouvem à distância”. “Quando vou à rua”, conta, “vejo muitas ambulâncias a passar, e há bloqueios nas ruas, feitos com sacos de areia, espigões e ouriços de metal. Há disso por todo o lado. E passei a ter aulas online.”

"Um momento muito, muito espetacular!"

A banda desenhada reflete tudo isso, mas quase sempre de uma forma leve e otimista. Foi isso que lhe foi granjeando mais seguidores nas redes sociais, e despertou o interesse dos editores em Tóquio. “O facto de, mesmo no meio de uma guerra, ela desenhar sobre o seu dia a dia de uma forma positiva, fez-me pensar que valeria a pena tornar público o seu trabalho e por isso decidimos publicá-lo”, conta Yojiro Kawada.

Akari-chan Life in Ukraine (C) Akari Sayaka/LiveComics
Akari-chan Life in Ukraine (C) Akari Sayaka/LiveComics

Os diários de Akari acabaram por ser publicados em formato e-book, com a editora a anunciar que todos os lucros serão enviados para organizações de ajuda humanitária à população ucraniana. E, aos 16 anos, Akari viu-se como a única autora não-nipónica no catálogo da BookLive. Num mundo tão competitivo como é o negócio de manga no Japão, não é um pequeno feito.

“Foi um momento muito, muito espetacular. Incrível!”, diz Akari, e o seu sorriso envergonhado abre-se no ecrã que liga o seu quarto, na Ucrânia, ao escritório nas torres de edifícios de Minato, em Tóquio. “Desde o dia em que comecei a desenhar manga, queria ser publicada por uma editora japonesa, no Japão. Mas, depois, pensava que tinha de ser um deus do desenho para conseguir isso [risos]. Agora tenho o meu contrato, e isso é maravilhoso. É incrível. Na verdade, nunca pensei que isso seria mesmo possível.”

Apesar do sucesso do outro lado do mundo, Akari continua a ser uma adolescente… que vive em casa dos pais… numa Ucrânia em guerra. Por questões de segurança, “e porque nunca se sabe o que poderá acontecer na guerra”, a editora e os pais pedem que o seu rosto não seja mostrado nas entrevistas, e o seu nome verdadeiro não é revelado. Os fãs mandam-lhe mensagens de apoio e preocupam-se com ela. “A maioria dos leitores faz comentários simpáticos, como: ‘Estou a torcer por si’, ou ‘estou a rezar pela sua segurança’”, conta Kawada. E a obra tem recebido boas críticas devido ao conteúdo engraçado e reconfortante, apesar do contexto de guerra.

Akari anseia pelo dia em que possa visitar o país da manga, mas sabe que tem muitas etapas a cumprir antes disso. “Decididamente quero visitar o Japão. Mas primeiro tenho de acabar o secundário e quero ir para a universidade tirar design gráfico.” Entretanto, entrou num concurso de manga no Japão, e conta que tem duas ideias de argumento para histórias longas. “Espero que estes projetos sejam aceites pela BookLive e eu possa começar a desenvolver a minha primeira história de manga.”

No meio do pesadelo da guerra ordenada por Putin, uma adolescente ucraniana concretizou o seu maior sonho: tornou-se uma autora de manga publicada no Japão. Agora, a continuação das histórias de Akari está por escrever. Talvez passe por um escritório em Minato, com vista para o rio e para os comboios da Yamanote Line.

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